Um urso-besta A-rank tentou avançar.
Mas, antes mesmo de conseguir dar dois passos, uma vinha se enrolou em seu pescoço. Luna puxou com força.
— VEM!
O urso foi arrastado para a frente, perdeu o equilíbrio e caiu de cara no chão.
— PÁ!
Bateu tão forte que desmaiou na hora.
Luna ficou parada bem no centro da plataforma.
O corpo inteiro estava sujo de sangue e lama. O vestido verde-claro tinha vários rasgos, mas, naquele momento, ela parecia uma deusa da guerra enlouquecida. Os olhos estavam frios, violentos.
— E aí?! Quem é o próximo?!
Ela ergueu o queixo.
— Vem! Continua! Se eu não derrubar todos vocês, então nem me chamo Luna Valente!
Os A-rank restantes se entreolharam.
Ninguém teve coragem de avançar.
Eles jamais esperaram que uma fêmea C-rank, além de não morrer, ainda evoluiria o poder no meio da luta.
E aquelas vinhas…
A força delas já passava da de muitos A-rank.
Foi então que alguns membros-besta do povo da pedra avançaram de repente, tentando aproveitar um momento de descuido.
Vieram por trás.
Chutes.
Socos.
Golpes pesados nas costas de Luna.
Ela não esperava aquilo.
Foi jogada para frente e caiu de bruços na madeira da plataforma. Sangue escorreu de novo pelo canto da boca.
— LUNINHA!
Leonardo saltou para cima da plataforma no mesmo instante, os olhos dourados cheios de pura intenção assassina.
Mas Luna gritou antes:
— NÃO SOBE!
Ela se apoiou nos braços e foi se levantando devagar, limpando o sangue do rosto com as costas da mão.
O sorriso que apareceu em seguida era ainda mais louco do que antes.
— Então vocês são desses…
Ela deu uma risada curta.
— Só sabem bater pelas costas, né? Ótimo. Então hoje eu vou brincar com vocês até o fim.
Luna puxou toda a energia de madeira que tinha no corpo.
De uma vez, as vinhas enlouqueceram.
Elas explodiram da madeira da plataforma em todas as direções, cobrindo tudo.
A arena inteira virou uma massa verde viva.
Os cem A-rank ficaram presos. Pernas, braços, cinturas, armas— tudo foi enredado.
Ninguém conseguia se mexer.
Luna caminhou por entre eles até chegar ao membro do povo da pedra que a havia acertado por trás.
Pisou nas costas dele sem a menor piedade.
— E então?
Ela abaixou a cabeça, o cabelo bagunçado e colado à testa de suor.
— Tá rendido ou não? Se estiver rendido, então me chama de Senhora Luna.
O pedra-besta rangia os dentes de dor, mas não ousou resistir.
— Senhora Luna… eu me rendo…
Ela ergueu os olhos para os outros.
O tom foi ainda mais frio.
— E vocês?
No mesmo segundo, vozes desesperadas ecoaram por todos os lados:
— Senhora Luna! Nós nos rendemos!
— Senhora Luna! Já chega!
— Senhora Luna, poupa a gente!
Tinham ido para cima dela com intenção real de matá-la.
Agora, com as forças drenadas e presos como insetos numa teia, se render era a única escolha inteligente.
O grande sacerdote caminhou até a frente da plataforma e bateu o cetro no chão.
— Primeira fase da rodada A-rank: vitória de Luna Valente! Amanhã será realizada a segunda fase, prova de montaria e arco!
A praça inteira explodiu em gritos de novo.
Helena correu para a plataforma e abraçou Luna com tanta força que o choro encharcou a roupa já cheia de sangue.
— Minha filha! Minha filha! Você quer matar sua mãe do coração? Nunca mais luta assim, ouviu?!
Luna se deixou cair um pouco contra o colo dela, ofegante.
Mas ainda sorria.
— Mãe… eu tô bem. Eu venci.
E, mesmo esgotada, ainda murmurou orgulhosa:
— Olha só… eu ganhei um monte de pontos de fofura…
Leonardo já estava ao lado dela. Tirou um pano limpo de couro e começou a limpar o sangue em seu rosto. Os olhos dourados estavam cheios de dor e cuidado.
— Da próxima vez, não vai com tanta força assim.
A voz dele saiu baixa.
— Eu fico preocupado.
Dante se agachou na frente dela e tocou com cuidado o braço machucado. Os olhos dourados estavam até avermelhados.
— Luninha… tá doendo? Eu posso soprar se quiser.
Matheus não disse nada.
Só tirou de dentro da roupa um pequeno frasco de pomada de ervas e o entregou para ela em silêncio.
Adrian estendeu o cantil.
— Bebe água. Não fica desidratada.
Sebastian balançava as nove caudas atrás, rindo como quem ainda não acreditava.
— Sua maluquinha… hoje você passou de todos os limites.
Os olhos âmbar estavam brilhando.
— Mas admito: cem A-rank perderem pra você? A partir de agora, acho que sou eu quem vai te seguir.
Luna pegou a pomada, mas fez questão de continuar com a língua dura:
— Quem quer vocês me seguindo? Vocês todos são só minhas ferramentas. Servem pra me ajudar a ganhar pontos.
Por dentro, no entanto, um pensamento escapou sem querer:
Essas “ferramentas”…
pareciam cada vez menos irritantes.
Como ninguém fazia ideia do que diabos eram esses “pontos” de que ela vivia falando, e vendo o estado miserável em que ela estava, todos optaram por não perguntar.
Mais ao fundo, Han Xiao, o príncipe-sereio, soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
Os dedos se afrouxaram sobre a escama azul.
Ele já tinha decidido.
Quando a prova de montaria e arco terminasse no dia seguinte, iria procurá-la para falar dos recifes de coral do Mar do Leste.
Talvez ela aceitasse ajudar.
Na plataforma alta, Zhu Liang estava com o rosto escuro.
Por trás do cabelo grisalho, os olhos de lobo brilhavam sombrios.
— Eu não esperava que essa garota fosse tão forte…
Sua voz saiu baixa.
— Da próxima vez vai ser preciso preparar algo maior.
Dong Qin passou a mão pelos cabelos vermelhos, os olhos de raposa cheios de cálculo.
— Calma. Ainda faltam duas fases.
Ele sorriu de leve.
— Na prova de montaria e arco o terreno é cheio de armadilhas. Uma fêmea que assumiu forma humana ontem não vai aguentar.
Xuan Hai, porém, soltou uma risada tranquila.
Os chifres de dragão refletiam a luz.
— Minha neta não é tão simples quanto vocês gostariam.
Luna, por sua vez, encostada em Helena, já estava fazendo contas outra vez.
Amanhã era a prova de montaria e arco.
Ela precisava achar um jeito de vencer aquilo também.
Se desse certo, os pontos subiriam ainda mais e talvez o sistema de troca entre planos fosse liberado mais cedo.
Hot pot.
Chá com leite.
Ela quase salivou só de pensar.
Os gritos de comemoração ainda não tinham parado, mas a multidão ao redor da plataforma já começava a se dividir em dois grupos.
De um lado, vários membros-besta cercavam a família Valente e erguiam os punhos, gritando:
— Senhora Luna é incrível!
— Amanhã você vence de novo!
— Senhora Luna, arrasa na prova de montaria!
Do outro lado, alguns se escondiam nos cantos, cheios de ressentimento.
Shi Hang, ainda massageando as costas doloridas, sussurrou para Walker:
— Amanhã, na prova de montaria, a gente prepara armadilhas no Vale do Vento dos Lobos. E chama mais alguns A-rank. Dessa vez a gente mata essa inútil.
Walker assentiu. Os olhos de lobo brilharam cheios de malícia.
— Já mandei preparar armadilhas de espinho. Se ela entrar naquele vale, não escapa.
A voz ficou ainda mais baixa.
— Se ela não conseguir encontrar a presa ou cumprir a tarefa, pelas regras perde na hora e ainda perde o direito de seguir na competição.
Camila, que estava por perto, aproximou-se discretamente.
— Eu sei de um penhasco no Vale do Vento dos Lobos.
Ela sorriu de canto.
— Lá embaixo só tem pedra. Se conseguirem atrair a Luna pra lá…
Os olhos de Shi Hang se iluminaram.
— Perfeito. Vai ser isso.
Na plataforma, a família Valente ainda rodeava Luna.
Helena segurava seu rosto com as duas mãos e chorava sem parar, olhando a bochecha inchada, os braços roxos e o estado lamentável da filha.
— Minha filha, minha preciosidade… isso tá doendo? Essa cara tá tão inchada que daqui a pouco eu nem vou reconhecer você!
Luna abriu um sorriso torto.
O corte no canto da boca puxou e doeu na hora, mas ela ainda assim respondeu:
— Mãe, não dói! Só tá coçando um pouco. Em dois dias passa.
Assim que terminou de falar, a voz de Borboleta surgiu na mente dela:
【Hospedeira! Você já se olhou direito?! Sua cara tá inchada como se um morto-vivo do apocalipse tivesse te dado um tapa! E esse sorriso com sangue tá mais assustador do que uma fera! Nem eu queria olhar pra você agora!】
— Cala a boca.
Luna rebateu mentalmente.
— Quando eu tiver pontos suficientes, troco por uma pílula de beleza e fico ainda mais bonita que antes.
Ela empurrou de leve as mãos de Helena e desceu da plataforma.
— Mãe, vamos pra casa. Tô com sono. Quero descansar cedo. Amanhã ainda tem a prova de montaria e arco.
Augusto se aproximou e passou a mão na cabeça dela.
Os olhos dourados estavam cheios de dor e carinho.
— Vamos voltar.
Depois olhou para Rafael.
— Rafael, embala o resto da carne assada. Leva pra Luninha comer de noite.
Rafael assentiu e foi recolher as coisas.
Leonardo e os outros também se aproximaram. Dante ficou com o cantil. Matheus carregou as peles que sobraram. Adrian permaneceu ao lado de Luna, ajudando-a de vez em quando, com medo de que as pernas falhassem.
O grupo inteiro tomou o caminho de volta ao Vale Valente.
Ao longo da estrada, os membros-besta olhavam para Luna sem disfarçar.
Alguns, admirados.
Outros, temerosos.
Na beira do caminho, Han Xiao, o príncipe-sereio, observava em silêncio o grupo se afastando.
Os olhos azuis seguiam Luna sem piscar, enquanto a mão apertava a escama azul.
Ele já tinha decidido.
Na prova do dia seguinte, iria segui-la em segredo.
Se alguma coisa acontecesse, ele ajudaria.
Duas horas depois, finalmente o grupo voltou à casa de madeira no Vale Valente.