— Mãe, eu vou dar uma olhada no mercado e já volto.
Sem nem esperar Helena responder, Luna se levantou e começou a se enfiar no meio da multidão.
— Espera! Leva o Enzo com você!
Augusto gritou atrás dela.
Enzo pulou na mesma hora, a armadura prateada brilhando no meio do povo.
— Luninha, eu vou com você! Não vai se perder de novo!
Luna revirou os olhos por dentro.
Mas, por fora, respondeu direitinho:
— Tá booom!
Ela puxou Enzo e foi abrindo caminho pelo mercado, escorregando entre os membros-besta como uma enguia.
Enzo veio logo atrás.
Quase conseguiu agarrar a ponta da roupa dela—
mas um membro-besta carregando um javali enorme entrou na frente.
Quando conseguiu passar…
Luna já tinha sumido.
— Luninha! Onde você tá?!
Enzo começou a chamar, aflito.
Mas tudo o que recebeu em troca foi o barulho do mercado.
Luna já tinha escapado até uma banca de ervas medicinais.
Agachou-se no chão e começou a observar.
Na barraca havia
Erva Qingling
,
Flor de Sangue Rubro
e também uma planta que ela ainda não conhecia:
Erva de Folha Roxa
.
O dono da barraca era um urso-besta de barba cerrada, nível B, que estava negociando com alguém usando uma pele de fera.
— Essa Erva de Folha Roxa cura tosse. Me dá meia pele de lobo por ela e fechamos negócio, que tal?
A voz do urso era alta, pesada. Ele bateu de leve na erva com a mão.
Luna estendeu a mão para tocar.
Mas o urso afastou os dedos dela com um tapa.
— Não encosta. Se não vai comprar, então não põe a mão. Isso aqui vale meia pele de lobo.
Luna recolheu a mão, já irritada.
— Nem olhar pode? Vai ver essa porcaria aí tá até seca. Capaz de ser falsa.
— O quê?
O urso-besta arregalou os olhos e se levantou.
Era mais de uma cabeça mais alto que ela, com músculos enormes por todo o corpo.
— Pequena fêmea, não arruma confusão! Minha erva é verdadeira. Você tem alguma coisa pra trocar?
Luna apalpou o bolso.
Vazio.
Ela não tinha nada além das cenouras no espaço.
— E daí se eu não tenho? Nem olhar pode?
Ela empinou o queixo, os olhos levemente avermelhados de propósito, fazendo cara de ofendida por fora enquanto já calculava tudo por dentro.
Afinal, aquele urso era B-rank.
Se ela conseguisse irritá-lo…
talvez ganhasse alguns bons pontos de “contra-ataque”.
As pessoas ao redor começaram a se aproximar e comentar:
— Essa fêmea é linda demais… só é meio agressiva.
— Ela é da família Valente, não é? Ouvi dizer que os Valente têm uma fêmea recém-transformada que é belíssima.
— Uma pena que ela é só C-rank. Não tem como vencer esse urso.
O urso sentiu a pressão da plateia e ficou ainda mais irritado.
Estendeu a mão para empurrar Luna.
— Sai daqui! Para de atrapalhar meu negócio!
Luna deu um passo para trás.
Foi então que viu, no chão ao lado, um galho seco da grossura de um pulso, com mais ou menos um metro de comprimento e ainda com casca.
【Hospedeira, usa o bastão! Você tá sem arma, esse galho serve perfeitamente!】
Borboleta já gritava na mente dela.
【Você treinou bastão no apocalipse! Junta isso com a Arte do Rei Coelho e dá pra vencer ele!】
Os olhos de Luna brilharam.
Ela se abaixou, pegou o galho e apoiou no ombro, encarando o urso-besta com toda a arrogância do mundo.
— Quer bater em mim? Então vem. Eu ainda te dou três golpes de vantagem.
O urso ficou tão surpreso que chegou a congelar um instante.
Depois caiu numa gargalhada.
— Você? Uma fêmea C-rank? E ainda quer me enfrentar com um pedaço de pau?
Ele puxou um facão grande preso à cintura. A lâmina brilhou fria sob a luz.
— Se você ganhar, eu te dou esse pingente de jade. Vale o preço de três cervos. Mas, se perder, vai ajoelhar e dizer dez vezes: “eu sou um lixo”.
Na mesma hora, a multidão começou a berrar ao redor:
— Luta! Luta!
— Vai, pequena fêmea! Ganha esse pingente!
— Ei, chefe urso, pega leve! Não vai bater forte demais nela!
Luna sorriu por dentro.
Perfeito.
Era exatamente o que ela queria.
Ela segurou firme o bastão e assumiu posição, usando a base da técnica que treinou no apocalipse.
— Então começa.
O urso veio pra cima com o facão, mirando o bastão dela.
Mas Luna não era idiota de trocar força com ele.
Ela girou o corpo, saiu da linha do golpe—
e bateu de lado.
— PÁ!
O bastão acertou o joelho do urso.
Ele soltou um grito e quase caiu ajoelhado.
— Por que você não ataca por cima?!
Ele arregalou os olhos e avançou de novo com o facão.
Luna desviou outra vez.
Desta vez, o bastão subiu na direção do rosto dele—
e, quando o urso levou a mão para se proteger, o golpe virou e desceu no ombro.
O urso cambaleou dois passos.
— Quem foi que te disse que eu tenho que atacar por cima?
Luna soltou uma risada fria.
Seus passos eram rápidos, leves.
Parecia um coelho girando em volta de um tronco.
Ela continuou rodeando o urso, golpeando as pernas, os ombros, sempre fugindo do facão e jamais se chocando de frente com ele.
Os membros-besta em volta ficaram boquiabertos.
— Ela é muito ágil!
— Por que ela não troca golpe direto com ele?
— Isso aí é luta com cérebro! Não tão vendo que o urso não consegue nem encostar nela?
O urso foi ficando cada vez mais furioso.
Os golpes de facão saíam mais rápidos.
Mais pesados.
Mas continuavam falhando.
Nem a roupa de Luna ele tocava.
Em compensação, o bastão dela já tinha deixado o corpo dele inteiro latejando.
O urso começou a ofegar.
Suor escorria pela testa.
De repente, reuniu toda a força e desceu o facão na direção da cabeça dela.
Luna já estava esperando isso.
Abaixou-se num instante—
e enfiou o bastão direto na região do umbigo dele.
— UGH!
O urso dobrou o corpo na hora, segurando a barriga e agachando de dor.
Luna não perdeu tempo.
Saltou para cima dele, pisou em suas costas e apontou o bastão para a cabeça dele.
— E então? Vai continuar ou vai admitir derrota?
O urso estava vermelho de vergonha.
Mas não ousou resistir.
Todo o corpo doía.
Se insistisse…
ia apanhar ainda mais feio.
— Perdi… perdi…
Luna se abaixou sem cerimônia e arrancou do pescoço dele o pingente de jade.
Era branco, redondo, liso ao toque.
Realmente valia o preço de três cervos.
Ela o guardou junto ao peito, apoiou o bastão no ombro e falou com frieza:
— Aprende uma coisa: para de olhar os outros de cima.
Já estava virando as costas, toda satisfeita—
quando uma voz veio de fora da roda:
— Luninha! O que você tá fazendo?
Era Leonardo.
Ele abriu caminho entre a multidão e, quando viu a cena—
Luna com o pé nas costas de um urso-besta B-rank, um bastão no ombro e um pingente de jade roubado da aposta—
seus olhos dourados afundaram de vez.
Dante, Sebastian, Matheus e Adrian vieram logo atrás.
Todos congelaram por um instante ao ver aquilo.
Sebastian foi o primeiro a rir.
As caudas balançavam sem parar.
— Sua maluquinha… não é que você consegue mesmo? Botou um B-rank no chão e ainda arrancou o pingente dele.
Matheus se aproximou e estendeu a mão, querendo ajudá-la a descer.
Sua voz saiu mais macia do que o normal:
— Pronto, já acabou. Desce.
Luna pulou do urso, largou o bastão no chão e bateu a poeira da roupa.
— Ele que começou. E ainda apostou comigo. Se perdesse, o pingente era meu.
A multidão em volta ainda comentava sem parar:
— Essa fêmea é forte demais! Uma C-rank venceu um B-rank!
— Ela é a Luna da família Valente, não é? Antes diziam que era uma coelha inútil!
— Se ela ficar mais forte um pouco, eu quero pedir ela como minha fêmea!
Ao ouvir esse tipo de comentário, Leonardo franziu a testa.
Foi direto até o lado de Luna e usou o corpo para bloquear os olhares ao redor.
— Já chega. Vamos voltar. A competição vai começar.
Ele estendeu a mão, querendo pegar o pingente de jade para ela.
Mas Luna recuou um passo.
— Não precisa. Eu mesma carrego.
Dante se aproximou imediatamente, os olhos dourados cheios de empolgação.
— Luninha, você foi incrível! Quem te ensinou essa luta com bastão?
— Eu mesma inventei.
Luna respondeu qualquer coisa, mas por dentro já fazia as contas.
Antes, ao responder e provocar, tinha ganho cinquenta pontos.
Agora, ao vencer, ganhou duzentos.
E ainda tinha arrancado cento e cinquenta de admiração da plateia.
Ou seja—
seus pontos de fofura já tinham subido para
100650
.
Enzo finalmente conseguiu chegar até ela.
Olhou para o urso no chão.
Depois olhou para Luna.
E só conseguiu suspirar.
— Luninha, você arrumou confusão de novo! Se o pai souber, vai brigar muito com você!
Luna ergueu o queixo.
— Eu não arrumei nada. Foi ele que veio procurar problema comigo.