Luna ergueu o pescoço, teimosa.
— Eu consigo treinar a
Arte do Rei Coelho
e também sei usar ervas. Mesmo que eu não consiga vencer, ainda posso me proteger sozinha!
Por dentro, porém, ela já fazia as contas.
Na competição, podia muito bem fingir um pouco de fragilidade, arrancar alguns “pontos de pena”, e, se conseguisse ganhar pelo menos uma rodada, ainda levaria “pontos de vitória”.
Matar dois coelhos com uma cajadada só.
Sebastian balançou a cauda e sorriu, tocando de leve a orelha dela.
— Sua maluquinha… se você for, eu fico no seu grupo e te protejo. Que tal?
Leonardo também assentiu.
— Eu também fico no seu grupo. Ninguém vai intimidar você.
Dante, Matheus e Adrian acompanharam com um aceno.
Os cinco noivos estavam sérios.
No fundo, nenhum deles queria ver aquela pestinha sofrendo na competição.
Cof.
Nem passando vergonha em nome deles.
Augusto olhou para todos eles, depois para Luna, firme e decidida, e enfim cedeu:
— Está bem. Você pode ir. Mas vai ficar no grupo do Leonardo e dos outros. Não vai agir sozinha em hipótese nenhuma.
— Boa!
Luna quase saltou de alegria. Bateu com a pata no braço de Leonardo.
— Então, Leonardo, nessa hora você vai me proteger direitinho, ouviu?
Leonardo abaixou os olhos para ela, o dourado deles suavizado.
— Relaxa. Ninguém vai encostar em você.
Depois do jantar, Luna disse a Helena que queria voltar ao ninho de coelha para descansar.
Na verdade, queria consultar Borboleta sobre seus pontos de fofura e o progresso do treinamento.
Ela se enfiou no ninho, puxou a pele macia por cima do corpo e deixou a consciência afundar no espaço do sistema.
A Vinha de Flor Roxa já estava plantada na terra preta.
A Erva Qingling também crescia bem verdinha.
E na pedra diante da cabana brilhava um novo número:
2150
— Hospedeira, seus pontos atuais são 2150. O progresso da
Arte do Rei Coelho
está em 10%. Ainda falta muito pra assumir forma humana. Sua habilidade de madeira continua no nível 1.
Borboleta flutuou até a pedra, esfregando nela seu corpinho brilhante.
— Não adianta ficar ansiosa. Treinar leva tempo. E juntar cem mil pontos não é brincadeira. Ontem você ganhou só duzentos e cinquenta.
— Duzentos e cinquenta?
Luna revirou os olhos.
— Como só isso? Eu lutei contra uma cobra, arranquei a Vinha de Flor Roxa, quase morri… e isso vale tão pouco?
— Hospedeira, pensa direito! — Borboleta começou a contar nas asas. — Lutar contra a cobra te deu oitenta. A vinha deu dez. Fingir pena deu vinte. O resto veio dos “pontos de dó” e “pontos de preocupação” da sua família.
Ela bufou.
— Você acha mesmo que ganhar pontos é tão fácil? Se fosse, você já teria assumido forma humana há muito tempo.
Luna suspirou e caiu de barriga na pele macia.
Cem mil pontos.
E ela ainda estava em 2150.
Em que ano ia conseguir o resto?
Ser uma coelha era um saco. Pulava pra lá e pra cá o dia inteiro, andava com quatro patas curtas e nem conseguia fazer nada direito.
Humilhante demais.
Foi então que um pensamento surgiu, do nada.
Os cinco noivos eram todos S-rank.
Pelas memórias da antiga Luna…
eles já estavam perto do período de cio, não?
Ela já tinha ouvido membros da família Valente comentarem que os machos S-rank sofriam bastante nessa fase.
Só que eles ainda não tinham se casado com ela.
Então como resolviam isso?
Na mão?
Ou procuravam outra fêmea?
Luna não conseguiu evitar uma risada baixa.
Só de imaginar o Leonardo, todo frio e arrogante, resolvendo isso sozinho, já parecia engraçado demais.
E o Dante?
Provavelmente ia se jogar em algum canto escondido e rolar de um lado pro outro feito um idiota.
Sebastian então nem precisava comentar. Com certeza flertaria com alguma fêmea da tribo das raposas — embora no fim não pudesse fazer nada, já que só podiam realmente se unir à própria fêmea destinada.
Quanto a Matheus e Adrian…
os dois provavelmente eram do tipo que suportariam tudo em silêncio, sofrendo sozinhos.
— Hospedeira… do que você tá rindo? E por que tá com essa cara tão suspeita?
A voz de Borboleta surgiu de repente, assustando Luna.
— Nada!
Luna endireitou o rosto na mesma hora.
— Eu só tava pensando em como ganhar mais pontos na competição daqui a quinze dias.
— Ah.
Borboleta não desconfiou de nada.
— Você pode curar gente durante a competição e ganhar “pontos de cura”. Também pode vencer lutas e ganhar “pontos de vitória”. E se humilhar quem zombou de você, ainda consegue “pontos de humilhação reversa”!
Os olhos de Luna brilharam.
É mesmo.
Como ela não tinha pensado nisso antes?
Aqueles bestas que zombavam dela — tipo os javalis que jogaram lama nela, ou a própria Camila — podiam servir perfeitamente para isso.
Ela ainda ia descarregar a raiva e ganhar pontos em cima.
Bom demais.
Naquele momento, Luna ouviu, mais uma vez, bestas passando lá fora e falando dela.
— Você soube? A coelha inútil da família Valente comeu carne de cervo!
A voz da esquerda era grossa, parecendo de alguém do clã dos javalis.
— Uma coelha comendo carne? Isso é possessão, certeza. Desse jeito ela ainda vira uma fera demoníaca e acaba devorando a própria família!
Outra voz caiu na risada.
— Claro! E também ouvi dizer que ela brigou com uma cobra, ficou com a pata presa, e ainda precisou que o senhor Leonardo salvasse ela.
A risada ficou pior.
— Um lixo mesmo. Nem consegue vencer uma cobra B-rank e ainda quer entrar na competição daqui a quinze dias. Vão acabar quebrando os dentes dela no chão.
As patas de Luna se fecharam devagar.
Um brilho cruel passou pelos olhos vermelhos.
De novo.
Esses animais viviam falando dela pelas costas.
Tudo bem.
Na competição, ela ia ensinar a cada um deles que Luna Valente não era alguém fácil de pisar.
Ela fechou os olhos e começou a praticar a
Arte do Rei Coelho
.
Treinar mais agora significava ter mais chance depois.
Ganhar mais pontos.
Assumir forma humana mais cedo.
Juntar os cem mil.
E voltar para o mundo moderno comer hot pot e tomar chá com leite.
As vozes lá fora continuaram.
Mas Luna já não ligava.
Agora ela só queria enlouquecer, crescer, ficar forte, assumir forma humana e construir o próprio caminho.
Quanto aos idiotas que zombavam dela…
um dia todos acabariam sob seus pés.
Luna puxou a pele felpuda sobre a cabeça, virou de um lado para o outro e continuou sem conseguir dormir.
As palavras de Borboleta seguiam se repetindo em sua mente:
— “Matar uma fera de nível mais alto que o seu dá pontos de abate. Quanto maior a diferença, maior a recompensa. Uma B-rank dá pelo menos 500. Uma A-rank pode render 2000.”
Ela bateu de leve na barriga com a pata.
Os olhos vermelhos brilhavam no escuro como duas lanterninhas.
— Juntar ponto do jeito normal é lento demais.
Ela respirou fundo.
— Se eu quiser assumir forma humana em quinze dias, vou ter que apelar. Quem quer lucro não pode ter medo. Quem quer pontos não pode ter dó de fera.
【Hospedeira! Você enlouqueceu?!】
Borboleta começou a pular em desespero, tremendo tanto que parecia que as asas iam cair.
【Se o tio Augusto descobrir que você saiu no meio da noite pra caçar fera, ele arranca todo o seu pelo e faz um cachecol!】
— E daí?
Luna afastou a pele, deixando metade do rosto para fora. As orelhas ficaram atentas aos sons do lado de fora.
A respiração de Augusto e Helena estava estável.
Os seis irmãos também não faziam barulho.
Ela ficou na ponta das quatro patas e saiu do ninho de coelha como um ratinho roubando comida.
A lua cobria as ervas do Vale Valente com uma luz prateada.
Luna correu colada à parede.
As patas pousavam no chão sem fazer ruído.
Mas, pouco antes de alcançar a saída do vale—
alguém a ergueu do chão com uma só mão.
Era Matheus.
Estava encostado no velho gafanhoto-branco na entrada do vale, quase invisível na escuridão com a roupa preta.
Seus olhos de lobo brilhavam assustadoramente na noite.
— Vai aonde?
A voz grave saiu rouca de sono. Os dedos prendiam de leve a nuca dela, sem apertar.
O coração de Luna despencou.
Na mesma hora, ela derrubou as orelhas e deixou os olhos vermelhos bem úmidos.
— Matheus… eu… eu não conseguia dormir. Saí só pra procurar uma raiz doce pra mastigar.
Enquanto falava, fingiu cavar o mato ao lado e puxou uma raiz fina qualquer com a pata.