Dante também se aproximou. Os cabelos negros caíram sobre o rosto dela, e os olhos dourados estavam cheios de medo mal disfarçado.
— Se aquela cobra tivesse te comido, eu ia arrancar o couro dela e quebrar os ossos um por um.
Luna continuou teimosa:
— Quem pediu pra vocês me salvarem? Eu conseguia sair sozinha!
Mas, enquanto dizia isso, encolheu-se um pouco mais nos braços de Leonardo.
Se Rafael e os outros tivessem demorado só mais um instante…
ela provavelmente teria virado almoço daquela cobra horrorosa.
【Ding! Você escapou com sucesso! Ganhou 50 pontos de “esperteza” e 30 pontos de “instinto de sobrevivência”! Pontos de fofura +80!】
【Progresso da Arte do Rei Coelho +3%! Progresso atual: 10%!】
【A Vinha de Flor Roxa foi armazenada no espaço. Pode ser cultivada. Pontos de fofura +10!】
Os avisos do sistema tocaram um atrás do outro. Luna baixou os olhos para as patinhas sujas de barro, e um brilho satisfeito passou pelos olhos vermelhos.
Tinha sido azar.
Mas, no fim, ela escapou de novo.
E ainda ganhou pontos.
Nada mal.
Leonardo a carregava de volta, e de vez em quando baixava os olhos para ela.
— Da próxima vez, você não se afasta do grupo. Ouviu?
Luna assentiu, agarrando com a pata o robe branco bordado de dourado.
— Tá bom. Da próxima eu fico com você.
Rafael caminhava ao lado deles, ainda levando o cervo-da-montanha que tinha acabado de abater. Seu tom amoleceu um pouco:
— Quando a gente voltar, faço carne de cervo assada pra você. E também um banho com Erva Qingling, pra tirar o cansaço.
Os olhos de Luna brilharam na hora. Ela encarou o cervo nas mãos dele.
— Sério? Então faz bem cheirosinho!
— Tá bom.
Rafael sorriu. As sobrancelhas finalmente relaxaram.
A menina tinha acabado de levar um susto enorme.
Mas bastava ouvir falar de comida e já esquecia o medo.
O vento continuava soprando entre as árvores, e os feixes de sol atravessavam as folhas, caindo sobre o grupo.
Deitada nos braços de Leonardo, Luna olhou para os que caminhavam ao redor, conversando entre si.
De repente, sentiu que essa vida azarada…
talvez também não fosse tão ruim assim.
A casa de madeira do Vale Valente foi aparecendo aos poucos entre as árvores.
De longe já dava para ver Helena parada ao lado do canteiro de ervas aromáticas diante da porta. O vestido verde balançava com o vento, e ela ainda segurava aquela manta branca de pelo de coelho.
No instante em que viu Luna nos braços de Leonardo, seus olhos ficaram vermelhos de novo. Ela correu até eles e tomou a filha nos braços sem a menor cerimônia.
— Meu tesourinho! Finalmente você voltou!
Helena enterrou o rosto dela no próprio pescoço e deu dois beijos fortes, deixando até gotinhas de saliva no pelo branco.
— Quando me disseram que você tinha sumido, minha alma quase saiu do corpo! Meu coração tava disparando, achei que alguma fera tinha te levado!
Luna quase perdeu o ar de tanto aperto e mexeu as quatro patinhas.
— Mãe, eu tô bem. Eu só fui colher a Vinha de Flor Roxa com o Sebastian e acabei me separando. O Leonardo e os outros me acharam rapidinho.
— Se separar também não pode!
Helena a ergueu e começou a examinar o pelo branco com cuidado. Quando viu a marca avermelhada na pata traseira, seus olhos imediatamente se encheram de água.
— O que foi isso? Alguma fera te machucou? Augusto! Vem aqui ver isso agora!
Augusto saiu da casa, com os cabelos negros presos no alto. Seus olhos dourados passaram pela pata traseira de Luna, e ele encostou a mão ali com cuidado.
— Foi a cobra que enrolou nela. Mas não feriu de verdade.
Então virou a cabeça e lançou um olhar severo para Rafael.
— Da próxima vez que levar a Luninha pra fora, fica de olho nela. Não deixa ela se perder outra vez.
Rafael abaixou a cabeça.
— Entendi, pai.
Aninhada nos braços de Helena, Luna olhou para o rosto tenso de Augusto e sentiu o peito aquecer de leve.
Aquele pai postiço parecia severo.
Mas, no fundo, se preocupava com ela mais do que qualquer um.
Ela esfregou o rosto no queixo de Helena.
— Mãe, o Leonardo e os outros pegaram um cervo-da-montanha. Vamos assar carne de cervo, vai? E eu também quero frutas assadas.
— Claro, claro! A mamãe faz tudo pra você!
Helena já estava derretida outra vez. Levou Luna até o espaço aberto diante da casa e começou a organizar tudo.
— Augusto, vai buscar a brasa. Rafael, vocês limpem o cervo.
Leonardo foi o primeiro a colocar o animal sobre a pedra grande do quintal. Arregaçou as mangas do robe branco com dourado, revelando os braços fortes.
Tirou uma faca curta da cintura e abriu a garganta do cervo com um movimento rápido e preciso. O sangue desceu pela pedra e escorreu para a valeta cavada ao lado.
Dante se agachou em seguida. Com uma pedra bem afiada, começou a raspar os pelos do couro do cervo. O cabelo preto caiu sobre metade do rosto, e os dedos se moviam com tanta atenção que até os pelos menores saíam limpos.
Rafael fincou a espada no chão ao lado e começou a ajudar Leonardo a cortar a carne em pedaços pequenos.
— Matheus, corta uns espetos de madeira. Finos, pra dar pra espetar a carne.
Matheus não respondeu. Apenas pegou um pedaço de madeira no canto e foi se agachar perto da árvore. O machado subia e descia com precisão, e logo uma pilha de espetos finos apareceu ao lado dele.
Sebastian balançava as nove caudas enquanto estava sentado numa pedra próxima. Já segurava uma fileira de frutas no espeto e ergueu uma sobrancelha para Luna.
— Ei, maluquinha, vem aqui segurar isso pra mim. Senão você vai ficar sem.
Luna pulou do colo de Helena e correu até ele.
Pegou o espeto com a pata e resmungou:
— E por que você mesmo não segura? Preguiçoso.
Falava assim, mas ainda levou a fruta até perto do fogo e ficou virando de vez em quando.
Adrian estava ao lado da chama, mexendo na lenha com um galho. Os cabelos brancos brilhavam em dourado sob a luz do fogo, e os olhos azuis acompanhavam as chamas. De tempos em tempos, ele ainda tirava para Luna as frutas que tinham tostado demais.
Logo, o cheiro da carne de cervo começou a se espalhar. A gordura pingava sobre o fogo, levantando fios de fumaça branca.
Helena rasgou um pedaço de carne já douradinha, soprou para esfriar e levou até a boca de Luna.
— Come devagar. Tá quente. É a primeira vez que você vai comer tanta carne assim, não vai me inventar de passar mal.
Luna abriu a boca e deu uma mordida grande.
A carne era macia.
Ainda melhor do que o frango assado do dia anterior.
Enquanto mastigava, assentiu com força:
— Mãe, tá muito gostoso! Irmão, você também come!
Rafael pegou o pedaço que Helena ofereceu, mordeu e sorriu.
— Tá bom mesmo. Da próxima vez eu vou até a encosta norte caçar mais cervos e fazer carne seca pra Luninha.
— Eu também quero!
Enzo saiu correndo de dentro da casa, ainda de armadura, e já foi esticando a mão para a carne assada.
— Luninha, ontem você comeu frango assado sem me chamar. Hoje vai ter que dividir metade comigo!
— Metade nada.
Luna fez bico, mas mesmo assim estendeu a ele um espeto.
— Toma um. Mas não mexe no meu.
A família se reuniu ao redor da fogueira, comendo e rindo. O cheiro das ervas aromáticas misturado ao da carne deixava tudo ainda mais aconchegante.
Depois de comer dois pedaços, Augusto falou de repente:
— Daqui a quinze dias, as tribos da Floresta do Sul vão realizar a Competição de Força. Os quatro grandes clãs vão participar.
Ele olhou para os filhos.
— Quem vencer recebe prêmio. Pele de fera para o inverno, Flor de Sangue Rubro e Erva Qingling. Vocês todos vão participar.
— Competição de Força?
Os olhos de Rafael se iluminaram.
— Pai, os prêmios deste ano estão tão bons assim? A Flor de Sangue Rubro cura ferimentos internos. Seria perfeita para a Luninha.
As orelhas de Luna se moveram no mesmo instante.
Flor de Sangue Rubro.
Borboleta tinha dito que aquilo podia ser plantado no espaço do sistema. Depois de acelerado, renderia um bom monte de pontos.
Além disso, ainda servia como remédio.
Se ela conseguisse aquilo, seria perfeito.
Ganhar pontos.
Juntar ervas.
Ficar mais forte.
Sem pensar duas vezes, ela levantou a pata.
— Eu também vou!
Os olhos vermelhos ficaram fixos em Augusto.
— Pai, eu também quero participar da competição!
A casa inteira mergulhou em silêncio.
Helena foi a primeira a reagir. Abraçou Luna imediatamente.
— Luninha, não vai. A competição é só pra besta acima de nível A. Você ainda é F-rank. Se entrar, vão te machucar.
Augusto também franziu a testa.
— Não. Você ainda nem assumiu forma humana. É perigoso demais.
Luna ergueu o queixo.
— Eu não tenho medo!