Sebastian balançava as nove caudas, o manto roxo varrendo as folhas do mato. Ele se abaixou e tocou de leve a orelha de Luna.
— Sua maluquinha, fica perto de mim e não sai correndo por aí. Na encosta norte tem muita cobra.
Luna estava deitada nos braços de Rafael, mas seus olhos vermelhos já tinham encontrado um cipó coberto de pequenas flores roxas, logo adiante.
Era a
Vinha de Flor Roxa
.
Borboleta tinha dito que aquilo podia virar remédio… e também servia como corda.
Ótimo.
O espaço do sistema estava precisando mesmo.
Ela bateu a pata no braço de Rafael.
— Irmão, eu quero ir com o Sebastian colher aquela vinha roxa. Se eu pegar bastante, depois faço uma corda pra você.
Rafael assentiu e a colocou no chão.
— Não vai longe. Se acontecer qualquer coisa, chama.
Luna correu até Sebastian, as quatro patinhas sumindo no meio do capim. De vez em quando parava para puxar uma ou outra vinha.
Sebastian vinha logo atrás, os olhos de raposa varrendo a área. Matheus ficou mais distante, encostado num tronco. Sua figura em roupa escura parecia uma pedra imóvel, enquanto as orelhas de lobo se mexiam, vigilantes.
— Hospedeira, essa vinha precisa ser arrancada com raiz e tudo! — Borboleta gritou em sua mente. — Se quebrar a raiz, depois não vai pegar no espaço!
Luna se abaixou e começou a cavar a terra com as patas. Em pouco tempo, as almofadinhas rosadas já estavam cheias de barro.
Ela foi se empolgando tanto que, sem perceber, seguiu o rastro da raiz para dentro do arbusto.
Quando finalmente arrancou uma vinha inteira, ergueu a cabeça pronta para chamar Sebastian—
e congelou.
Só havia o som do vento passando pelas folhas.
Sebastian tinha sumido.
Matheus também.
— Hã? Porra… cadê todo mundo?
Luna sacudiu as orelhas caídas, as pontas já rosadas. Ficou na ponta das patas tentando olhar ao redor, mas só enxergava arbustos altos e um monte de pedras espalhadas.
Nem a voz de Rafael ela conseguia ouvir.
【Ding! Alerta! A hospedeira se separou do grupo. Não há aliados num raio de 50 metros!】
【Alerta! Detectada criatura perigosa se aproximando! Nível de força: B!】
O grito do sistema deixou o corpo de Luna inteiro rígido.
Seus olhos vermelhos dispararam para o monte de pedras à direita.
Uma das rochas se mexeu.
No instante seguinte, uma cobra-cobra-de-capelo negra, grossa como um braço humano, deslizou para fora da fenda.
As escamas escuras eram cortadas por desenhos amarelados. A língua bifurcada saía e entrava com um som sibilante. Os olhos pequenos e brilhantes estavam pregados nela, e as presas reluziam sob a luz do dia.
— Merda! Justo isso?!
Luna recuou dois passos, e as quatro patinhas tremeram.
No apocalipse ela já tinha visto cobras mutantes.
Mas uma daquela grossura?
E ainda de nível B?
No corpo atual dela, uma F-rank, aquilo podia engoli-la inteira de uma vez.
A cobra foi se aproximando lentamente, abrindo caminho entre o capim.
Quando restavam só três passos entre as duas, ela ergueu a parte da frente do corpo, alargando o pescoço em forma de leque e soltando um som de ameaça.
O coração de Luna quase arrebentou o peito.
As patas se fecharam.
A mente correu desesperada.
Correr?
Nem ferrando. Uma cobra era muito mais rápida que aquelas patinhas.
Lutar?
Ela tinha uma habilidade de madeira nível um e uma
Arte do Rei Coelho
ainda meia-boca. Nem devia conseguir furar a pele da cobra.
Ser fofa?
Aquilo ali claramente não era o tipo de bicho que caía nesse golpe.
Entrar no espaço?
Talvez nem desse tempo. E ainda corria o risco de expor a existência dele.
— Hospedeira! E se você fingir que é miserável? Vai que cobra não gosta de comer coisa viva! — Borboleta pulava em pânico. — Ou fala que você é venenosa! Que vai dar dor de barriga!
Os olhos de Luna se acenderam.
Na mesma hora, ela derrubou as orelhas, encheu os olhos de água e se encolheu toda no chão, parecendo o coelhinho mais indefeso do mundo.
A voz saiu fraquinha, quase chorosa:
— S-seu senhor cobra… eu não sou gostosa, não… eu sou só pelo… não tenho carne… vai grudar no dente…
A cobra inclinou um pouco a cabeça e tornou a pôr a língua para fora.
Mas não atacou.
Parecia hesitar.
Luna sentiu um fio de esperança e continuou inventando:
— Ontem eu comi fruta estragada… meu estômago tá ruim… se o senhor me comer, vai passar mal…
Ela até cuspiu no capim ao lado e apertou a barriga com a pata, fingindo dor.
【Ding! Você ganhou 20 pontos por “fingir fragilidade”! Pontos de fofura +20!】
【Alerta! A hesitação da cobra dura apenas mais 10 segundos! Ela está farejando você!】
Mal o aviso apareceu—
a cobra avançou de repente.
Agora só faltava um passo entre as duas.
Luna saltou para trás no susto, mas seu pé pegou numa pedra.
— PLOFT!
Ela caiu no chão de costas.
A vinha roxa quase escapou de sua pata.
A cobra aproveitou.
Seu corpo veio como um chicote, e a cauda se enrolou primeiro em uma das patas traseiras de Luna. As escamas geladas encostaram no pelo branco, arrancando dela um arrepio inteiro.
— Merda! Então você não cai nesse truque mesmo!
Luna entrou em desespero.
Mas, bem nessa hora, uma frase da
Arte do Rei Coelho
atravessou sua cabeça:
“A força do coelho está nas patas e nas orelhas. Vencer o duro com o suave.”
Ela ergueu as patas dianteiras e bateu com toda a força nos olhos da cobra.
Não havia garras.
Mas o golpe ainda assim fez a cabeça da cobra balançar, e a pressão em sua perna afrouxou por um instante.
Luna aproveitou.
Enfiou a pata junto ao peito—
onde ainda segurava a vinha roxa recém-arrancada.
Agarrou o cipó, passou-o duas vezes ao redor do pescoço da cobra e, ao mesmo tempo, puxou sua energia de madeira.
Uma luz verde-clara surgiu na ponta das patas.
— Cresce! Cresce logo!
A vinha enlouqueceu.
Ela disparou num crescimento súbito, subindo pelo pescoço da cobra e enrolando-se com força até alcançar a cabeça.
Em segundos, o rosto inteiro do animal estava preso.
A cobra começou a se debater violentamente. A cauda varria as folhas, mas não conseguia se livrar das voltas cada vez mais apertadas.
Luna rolou para trás, aproveitou a chance, levantou-se cambaleando e saiu correndo para fora do arbusto.
As quatro patinhas dispararam com tudo.
O pelo ficou cheio de lama.
Ela nem ligou.
Mas não correu nem dois passos quando ouviu atrás de si um som seco de rompimento.
A vinha tinha arrebentado.
— Hospedeira! A cobra vem atrás! Corre pra esquerda! O Rafael e os outros estão à esquerda! — Borboleta gritou.
Luna virou com tudo para o lado.
E então viu—
Rafael e Leonardo vinham correndo floresta adentro, a armadura prateada e o robe branco brilhando entre as árvores.
Assim que Rafael a avistou, seu rosto mudou na hora. Ele puxou a espada para fora.
— Luninha! Corre pra cá!
Leonardo foi ainda mais rápido.
Seu corpo mudou no meio do avanço, e o grande tigre branco marcado de dourado apareceu em um instante. Os olhos de fera brilharam, e ele soltou um rugido tão forte que fez as folhas tremerem.
A cobra viu o tigre.
E desistiu.
Virou-se na mesma hora e se enfiou no meio das pedras, sumindo em segundos.
Leonardo voltou à forma humana e correu até Luna. Havia folhas grudadas em seu cabelo dourado. Ele se abaixou, pegou-a no colo e passou os dedos por seu pelo coberto de terra.
— Você se machucou?
Luna ofegava, ainda tremendo. Ergueu uma pata e apontou para a perna de trás.
— Tá doendo um pouco… a cobra me enrolou.
Rafael chegou logo em seguida, examinando a pata dela com a testa fechada.
Só tinha ficado avermelhada.
Nenhum ferimento sério.
Ele soltou o ar, mas ainda assim lançou um olhar duro para ela.
— Eu falei pra não sair correndo. Por que você nunca escuta?
Luna fez bico e agarrou a roupa de Leonardo com as patinhas.
— Eu só fui cavar uma vinha roxa… como eu ia saber que ia me perder?
— Se perder?
Sebastian e Matheus apareceram logo depois.
Sebastian passou uma das caudas pelo pelo sujo de Luna, limpando um pouco da lama. O brilho âmbar dos olhos trazia puro desamparo divertido.
— Eu e o Matheus só viramos pra olhar umas pegadas de caça. Quando voltamos, você já tinha evaporado. Se fizer isso de novo, eu vou te amarrar na ponta da minha cauda.
Adrian e Dante também chegaram.
Adrian ainda carregava um punhado de Ervas Qingling nas mãos. Quando viu que Luna estava inteira, a frieza em seus olhos azuis aliviou um pouco.