Os olhos de Luna se iluminaram.
Ela apressou-se em fazer crescer mais algumas cenouras, e os avisos do sistema tocaram um atrás do outro. Quando parou para olhar de novo, o número na pedra já tinha subido para
1800
.
— Hospedeira, se você conseguir ervas mais raras, vai ganhar ainda mais pontos quando fizer elas crescerem!
Borboleta flutuou até ela e apontou para um canto vazio do espaço.
— Ali você pode plantar a
Flor de Sangue Rubro
. Ela serve pra curar ferimentos internos. Tem dessas na encosta norte do Vale Valente… mas é meio perigoso. Alguns lobos-besta de nível B ficam guardando aquela área.
Luna levou a pata ao queixo.
Perigo?
Perfeito.
Perigo significava oportunidade.
Ela podia ganhar pontos e ainda praticar a
Arte do Rei Coelho
.
Bom demais.
Assim que saiu do espaço, viu Rafael entrando de fora, ainda de armadura prateada, com uma espada úmida de orvalho na mão.
— Luninha, quer ir com o seu irmão até a encosta norte caçar alguma coisa? A gente aproveita e pega algumas frutas também.
— Quero!
Luna saltou na hora e correu até os pés dele.
— Irmão, por acaso lá tem Erva Qingling? Eu queria colher um pouco… por diversão.
Rafael se abaixou, pegou-a no colo e coçou de leve sua orelha caída.
— Tem, sim. Só que naquela região aparecem alguns lobos-besta. Mas o seu irmão vai te proteger.
Luna sorriu por dentro.
Isso não podia ser melhor.
Com um irmão S-rank por perto, mesmo que aparecesse um bicho de nível A, ela não teria medo.
Rafael carregou Luna no colo enquanto seguia para a encosta norte.
No caminho, vários membros da família Valente os encontraram e cumprimentaram Luna com sorrisos.
Mas, ao chegarem à entrada da trilha da encosta, alguém bloqueou a passagem.
Era Camila Duarte.
Ao lado dela estavam duas fêmeas do clã dos cervos, todas usando vestidos cor-de-rosa e segurando cestos de frutas.
Quando Camila viu Luna no colo de Rafael, uma sombra de inveja atravessou seus olhos. Mas ela trocou rapidamente por um sorriso doce.
— Irmão Rafael, você vai levar a Luna até a encosta norte?
Ela inclinou a cabeça, fingindo preocupação.
— Tem lobos-besta por lá. A Luninha é tão frágil… e se levar um susto?
Luna observou Camila de cima a baixo.
Os cabelos castanhos estavam presos em duas tranças caindo sobre o peito. As orelhas de cervo, finas e delicadas, davam a ela um ar inocente.
Mas o cálculo no olhar era óbvio demais.
— Se eu sou frágil ou não, isso não é da sua conta.
A voz de Luna saiu fria, cortante.
Os olhos vermelhos não desgrudaram dela.
— Em vez de ficar circulando por aqui, você não devia estar procurando o Leonardo?
O rosto de Camila ficou branco na hora. Os dedos apertaram a barra do vestido.
— Luninha… como você pode dizer uma coisa dessas? Eu só vim colher frutas.
— Ah, é?
Luna soltou um risinho e apontou para o cesto dela.
— Seu cesto tá vazio. E as frutas da encosta norte ficam do lado leste. Você tá parada na entrada oeste.
Ela inclinou a cabeça.
— Então me explica. Você tá esperando o Leonardo passar por aqui, não tá?
Camila travou.
As duas fêmeas de cervo ao lado dela se apressaram em defendê-la.
— Luna! Que falta de educação! A Camila só tava preocupada com você, e você responde assim?
— Preocupada?
Luna ergueu a sobrancelha.
Pulou do colo de Rafael e caiu no chão com as quatro patinhas bem firmes.
— Se ela estivesse preocupada, não andaria por aí dizendo que eu fiquei possuída, nem que eu tô ocupando o lugar de cinco noivos.
Camila arregalou os olhos.
— V-você… como soube disso?
Luna deu dois passos à frente, o sarcasmo brilhando inteiro nos olhos vermelhos.
— Como eu soube?
Ela soltou uma risada baixa.
— Porque ontem você falou isso com os homens-javali do lado de fora da casa dos Valente. Achou mesmo que eu não ouvi?
Seu tom ficou ainda mais afiado.
— Camila, se quer roubar os meus noivos, então vem de frente. Não fica se escondendo por trás dos outros, feito rato roubando comida.
Os membros-besta que passavam pela trilha foram diminuindo o passo.
Em poucos instantes, já havia um pequeno círculo de curiosos.
Alguns vieram só para assistir.
Outros claramente estavam do lado de Luna.
Havia também alguns membros do clã dos cervos, e nenhum deles parecia feliz com a cena.
Camila perdeu a cabeça.
Tomada pela raiva, estendeu a mão para agarrar Luna.
— Você tá mentindo! Eu nunca—
Mas Luna já estava preparada.
Seguindo a técnica básica da
Arte do Rei Coelho
, ela desviou para o lado no instante certo e, com a patinha, puxou de leve a barra do vestido de Camila.
Foi o suficiente.
— PLOFT!
Camila caiu sentada no chão.
A saia ficou coberta de lama, e as orelhas de cervo caíram, num vexame completo.
【Ding! Contra-ataque bem-sucedido contra Camila Duarte. Pontos de deboche +50! Pontos de fofura +50!】
【Você ganhou 40 pontos de admiração dos membros-besta ao redor! Pontos de fofura +40!】
【Progresso da Arte do Rei Coelho +2%! Progresso atual: 7%!】
Mal o aviso do sistema terminou—
passos soaram mais ao longe.
Leonardo.
Dante.
Sebastian.
Matheus.
Adrian.
Os cinco tinham chegado.
Leonardo olhou para Camila caída no chão e franziu a testa. Mas, antes de qualquer outra coisa, seus olhos dourados foram direto para Luna.
— Você tá bem?
Luna balançou a cabeça e foi até perto dele. Esfregou-se de leve na barra da roupa dele.
Não era charme.
Era de propósito.
Ela queria que Camila visse.
E viu.
Os olhos da cervinha ficaram vermelhos de raiva na mesma hora. Ela se levantou pronta para discutir, mas Dante se meteu no caminho.
Encostado numa árvore, os cabelos negros caindo sobre o rosto, ele olhou para Camila com desprezo aberto.
— Camila, você é uma fêmea de nível B.
Ele deu um sorriso torto.
— Perdeu pra uma coelha F-rank e ainda quer chorar? Que vergonha.
Sebastian se aproximou de Luna, balançando a cauda, e varreu com ela os pedacinhos de capim grudados no pelo branco dela.
— Nada mal, maluquinha. Já sabe até desviar agora.
Matheus não disse nada.
Só foi para trás de Luna, fechando o espaço e cortando os olhares curiosos das outras pessoas.
Adrian tirou um pedaço limpo de couro de fera e o estendeu para ela.
— Limpa as patas.
Luna pegou o couro e sorriu friamente por dentro.
Tá vendo?
Esses noivos todos ainda giravam ao redor dela.
Camila queria roubar?
Ainda era verde demais pra isso.
Rafael se aproximou, pegou Luna de volta no colo e falou para a multidão:
— Acabou o show. A encosta norte tem lobos-besta. Ninguém devia ficar parado aqui fazendo aglomeração.
Os curiosos começaram a se dispersar.
Camila mordeu o lábio, lançou um último olhar cheio de ódio para Luna e saiu correndo.
Deitada nos braços de Rafael, Luna observou suas costas sumindo e um brilho frio passou por seus olhos vermelhos.
Quem mexesse com ela…
não escaparia.
— Irmão, vamos pegar a Erva Qingling.
Ela esfregou o rosto no dele, agora com a voz amolecida.
— Se eu colher bastante, quando você se machucar eu posso tratar você.
Rafael riu e apertou de leve a orelha dela.
— Tá bom. O seu irmão leva você.
Leonardo deu um passo à frente e se colocou ao lado de Rafael.
— Os lobos da encosta norte são de nível B. Eu vou com vocês.
Dante, Sebastian, Matheus e Adrian vieram logo atrás, sem dizer que iam embora.
Em pouco tempo, os cinco machos S-rank formavam um círculo de proteção ao redor de Rafael e Luna.
Luna ficou deitada nos braços do irmão, calculando em silêncio.
Camila tinha rendido noventa pontos.
Os homens-javali tinham dado outros vinte.
E aqueles lobos-besta que viriam a seguir…
quanto será que renderiam?
No fim das contas, fossem inimigos ou aliados, todos podiam servir de degraus na estrada dela para acumular valor.
Se desse para usar, ela usaria.
O vento da encosta norte ficou mais forte.
As folhas batiam umas nas outras com som seco.
Ao longe, o uivo dos lobos ecoou.
Os olhos vermelhos de Luna se acenderam.
As patinhas se fecharam devagar.
O objetivo do dia…
não era só colher ervas.
Os arbustos da encosta norte cresciam mais altos do que a própria Luna. As folhas verdes estavam úmidas de orvalho e, sempre que o vento soprava, batiam em cheio no pelo branco dela.
Rafael e Leonardo iam na frente.
A armadura prateada de um e o robe branco com dourado do outro brilhavam entre os galhos.
Os dois paravam de vez em quando para observar marcas no chão.
Estavam procurando um cervo-da-montanha de nível B.
Além de servir de alimento, a pele macia dele também daria um bom tapetinho para Luna.
Rafael se virou para trás e começou a organizar todo mundo:
— Dante, Adrian, vocês dois vão para o lado leste procurar a Erva Qingling. Aquela parte é mais úmida e sombreada, então deve ter mais ervas lá.
Ele apontou para um amontoado de pedras mais adiante.
— Sebastian, Matheus, fiquem atentos ao redor. Não deixem nenhum lobo-besta se aproximar.