Borboleta também estava com sono.
Enrolada dentro do mar da consciência de Luna, ela até roncava baixinho.
O Vale Valente inteiro estava silencioso. Só se ouvia o vento passando pelas ervas aromáticas e, de vez em quando, algum rugido distante vindo da floresta.
Antes de cair no sono de vez, um último pensamento passou pela cabeça de Luna:
Assim que juntasse cem mil pontos e conseguisse assumir forma humana, a primeira coisa que faria seria ir até a Floresta do Leste dar uma lição naquela velha raposa, Zhu Liang.
Ela ia deixar bem claro que a filha da família Valente — mesmo sendo só uma coelha mestiça — não era alguém com quem se brincasse.
Quando o céu ainda começava a clarear, Matheus mudou discretamente de posição junto à árvore ao lado da porta. Seus olhos passaram pela pequena janela do ninho de coelha e, só depois de confirmar que lá dentro tudo continuava calmo, ele voltou a se apoiar no tronco.
As orelhas de lobo se mexiam levemente, atentos a cada som ao redor. Bastava surgir qualquer perigo para ele avançar imediatamente.
Nem ele sabia direito por que continuava ali.
Só que, ao lembrar a expressão satisfeita de Luna comendo frango assado na noite anterior…
e depois pensar no corpinho trêmulo dela caindo do penhasco…
simplesmente não teve vontade de ir embora.
A pequena fêmea da família Valente, ainda sem forma humana, era mais interessante do que qualquer outra que ele já tinha visto.
Ela ousava peitar Leonardo.
Respondia Dante na mesma moeda.
E ainda comia carne assada.
Pensando bem…
ficar ali protegendo-a talvez não fosse nada ruim.
A manhã trouxe gotas de orvalho às folhas de ervas aromáticas do Vale Valente. Quando o vento soprava, as gotas deslizavam e pingavam no telhado de palha com um som leve de água.
Luna acordou com um berro.
Ou melhor—
foi arrancada do sono pelo grito de Borboleta dentro da cabeça.
Ela abriu os olhos ainda meio apagada, os olhos vermelhos cobertos por um resto de sono, quando a voz explodiu em sua consciência:
— Hospedeira! Acorda! Tem gente falando mal de você lá fora!
— Que saco…
Luna virou o corpo e puxou a pele felpuda sobre a cara com a pata.
— Deixa falarem. Por acaso vai cair um pedaço de mim?
— Não é isso! Eles tão comendo sua fofoca! Tão dizendo que você ficou possuída ontem quando comeu carne assada! E também tão dizendo que você quer se agarrar aos cinco noivos de qualquer jeito!
Borboleta pulava de um lado pro outro, batendo as asas tão rápido que a cabeça de Luna chegou a zunir.
— Escuta! Tá acontecendo bem do lado de fora da casa!
As orelhas de Luna estremeceram.
Ela ouviu.
Vozes baixas.
Comentando.
Ela se levantou devagar, foi até a janelinha do ninho e espiou pela fresta.
Dois homens-besta do clã dos javalis estavam apoiados na árvore perto da porta. Vestiam roupas grosseiras de tecido cru, seguravam frutas nas mãos e mastigavam fazendo barulho.
— Você acha que aquela coelha inútil da família Valente ficou possuída mesmo ontem?
O da esquerda era baixo e gordo, com uma cicatriz atravessando o nariz.
— Coelha comer carne assada? Eu nunca vi isso na vida. Bateu a cabeça e estragou de vez.
O outro era mais magro, e faltava um pedaço da ponta de uma das orelhas.
— Isso não é nada. Ouvi da Camila que o senhor Leonardo e os outros quatro desprezam ela.
Ele riu de canto.
— Se a família Valente não fosse poderosa, já teriam desfeito esse noivado fazia tempo. Vai entender… ela ocupando o lugar de cinco machos S-rank sendo só uma F-rank. Cadê a vergonha?
— Camila? Aquela cervinha que vive rondando o senhor Leonardo?
O javali do nariz cicatrizado arqueou a sobrancelha.
— Então ela quer roubar o lugar da coelha da família Valente? Ontem mesmo eu vi o jeito que ela olhava pro senhor Leonardo. Só faltava grudar nele.
— E quem não ia querer?
O da orelha quebrada caiu na risada.
— Cinco noivos S-rank! Se fosse eu, também queria arrancar ela de lá. Só que a coelha da família Valente deu sorte no nascimento. Se não, já tinham jogado ela na floresta do Leste pra servir de comida pra lobo faz tempo.
As patas de Luna foram se fechando devagar.
As almofadinhas chegaram a empalidecer.
Ela nem ligava tanto quando a chamavam de inútil. Afinal, no momento, ela era mesmo uma F-rank.
Mas aquela Camila…
Além de ficar falando pelas costas, ainda queria roubar os “funcionários grátis” dela?
— Hospedeira! Vai lá e rebate! — Borboleta já estava em modo de guerra. — Se você responder bem, ganha “pontos de contra-ataque”! E se quem estiver vendo achar você incrível, ainda pode ganhar “pontos de admiração”!
Luna semicerrrou os olhos, mas não saiu logo de dentro.
Do jeito que estava, ainda no corpo de coelha, sair sozinha podia acabar em surra.
Ela precisava de um apoio.
E ele apareceu rápido.
Poucos segundos depois, Helena saiu da casa carregando uma bandeja de madeira. Nela havia frutas assadas, douradinhas, e alguns pedaços de raiz doce seca.
Assim que escutou a conversa dos dois javalis, seu rosto escureceu na hora. A mão apertou tanto a barra do vestido verde que o tecido enrugou.
— O que vocês estão dizendo?
A voz de Helena não era alta.
Mas vinha carregada com a pressão natural de uma fêmea S-rank.
Os dois homens-javali se endireitaram na mesma hora, e o sorriso nos rostos congelou.
O javali do nariz marcado esfregou as mãos, sem graça.
— N-não estamos dizendo nada, senhora Helena. A gente só tava passando por aqui.
— Passando?
Helena foi até a mesa de pedra perto da porta e pousou a bandeja ali. O olhar ficou gelado.
— Passando e, por acaso, resolveram dizer que a minha filha tá possuída? Resolveram dizer que ela tá ocupando macho alheio?
Ela cruzou os braços.
— A boca do clã dos javalis não era pra revirar terra? Desde quando vocês tão à toa assim pra ficar mascando fofoca?
Os dois ficaram mudos.
Até as orelhas abaixaram.
Foi nesse instante que Luna pulou para fora do ninho.
Suas quatro patinhas bateram depressa no chão até chegarem perto de Helena.
Ela esfregou a cabeça na barra da roupa da mãe, ergueu os olhos vermelhos cheios de brilho e falou com uma voz fraca e mansa:
— Mãe… não fica brava. Eles só estavam falando à toa. Eu não ligo.
E então olhou para os dois javalis.
As orelhas balançaram de leve.
A imagem era perfeita:
magoada, mas obediente.
inocente, mas compreensiva.
【Ding! Você recebeu 50 pontos de “pena” de Helena. Pontos de fofura +50!】
【Recebeu 20 pontos de “culpa” dos homens-javali. Pontos de fofura +20!】
Assim que o aviso soou, Helena ficou ainda mais dolorida. Ela se abaixou, pegou Luna no colo e coçou de leve seu queixo.
— Minha Luninha é tão boazinha… com que direito eles falam assim de você?
Então levantou a voz:
— Augusto! Sai aqui!
Augusto apareceu logo em seguida. O cabelo negro estava preso no alto, e seus olhos dourados passaram pelos dois homens-javali sem dizer palavra.
Só a pressão de sua presença já foi suficiente para fazer as pernas dos dois amolecerem.
O javali de nariz cicatrizado se curvou na mesma hora:
— Senhor Augusto, senhora Helena, a gente errou! Não vamos repetir!
— Sumam.
A voz de Augusto foi baixa, pesada, carregada com a autoridade de um dragão SSS-rank.
Os dois não esperaram uma segunda ordem.
Saíram correndo, quase tropeçando nas próprias pernas.
Deitada nos braços de Helena, Luna deixou o canto da boca subir discretamente.
Essa manha toda tinha valido a pena.
Mais setenta pontos.
No bloco de pedra, o número já devia ter ido para
1720
.
— Mãe, eu quero frutas assadas.
Luna esfregou o rosto contra o de Helena, os olhos vermelhos voltados para a bandeja na mesa de pedra.
— O frango assado de ontem tava gostoso. Essas frutas assadas também devem estar.
— Claro, meu amor. A mamãe faz pra você.
Helena já estava completamente derretida. Foi até a mesa, pegou as frutas e começou a espetá-las em gravetinhos finos.
— Augusto, pega a brasa. A Luna quer fruta assada.
Augusto assentiu e foi buscar a caixa de bronze, mas no fundo dos olhos dourados já havia um sorriso escondido.
A menina que ontem tinha teimado ferozmente para comer carne assada…
agora sabia fazer manha para pedir fruta assada.
Estava muito mais esperta do que antes.
Depois de comer as frutas assadas, Luna disse a Helena que queria treinar.
Na verdade, queria entrar no espaço do sistema e ver como estavam as ervas que tinha plantado.
Assim que sua consciência entrou no espaço, viu que, além das cenouras, havia agora algumas ervas verdes brotando na terra preta.
Eram mudas de
Erva Qingling
.
Ela as tinha apanhado sem querer no dia anterior, ao tocar na parede de pedra dentro da caverna. Diziam que aquela erva servia para tratar ferimentos externos.
Luna tentou usar um pouco do seu poder de madeira.
Uma luz verde bem fraca surgiu na ponta dos dedos e pousou sobre a erva.
Na mesma hora, a planta cresceu um pouco mais, e as folhas ficaram visivelmente mais vivas.
【Ding! Você fez a Erva Qingling crescer com sucesso. Ganhou 30 pontos de “cultivo”! Pontos de fofura +30!】
【Progresso da Arte do Rei Coelho +1%! Progresso atual: 5%!】
Luna ergueu as sobrancelhas.
— Ah… então também dá pra farmar ponto assim?