— Hospedeira, para de pensar nisso. Quanto mais você pensa, mais raiva passa. Daqui a pouco morre de ódio.
Borboleta bocejou dentro da mente de Luna, encolhendo o corpinho brilhante em uma bolinha.
— Por que você não dá uma olhada nos pontos de fofura? Vai que hoje subiu bastante.
Os olhos de Luna brilharam.
Na mesma hora, sua consciência mergulhou no espaço do sistema.
As cenouras na terra preta estavam um pouco mais altas, e no bloco de pedra em frente à cabana um número brilhava com nitidez:
1568
— Só mil e quinhentos e pouco?
Luna franziu a testa.
— Durante o dia o Leonardo foi caçar, o Dante limpou a presa, o Sebastian buscou lenha, o Matheus rachou madeira, o Adrian cuidou do fogo, meus pais e meus irmãos ficaram todos girando em volta de mim…
Ela estreitou os olhos.
— Como é que isso tudo valeu tão pouco?
— Ai, hospedeira, você não entende nada!
Borboleta saltou de pé, e a luz suave nas asas piscou.
— Pontos de fofura não dependem de quantas pessoas estão à sua volta. Dependem do “valor emocional”!
Ela começou a enumerar com empolgação:
— O Leonardo caçou porque estava preocupado com você. Isso conta como “pontos de cuidado”: cinquenta.
— O Dante fica falando besteira, mas no fundo amolece. Isso conta como “pontos de teimosia fofa”: trinta.
— O Sebastian te provoca porque te acha engraçada e bonitinha. Isso conta como “pontos de diversão”: quarenta.
— O Matheus e o Adrian ajudam quietos, sem falar muito. Vinte pra cada um.
— Seus pais e irmãos geraram “pontos de afeto familiar”: cem.
Borboleta girou no ar, cada vez mais empolgada.
— O resto veio da sua satisfação enquanto comia o frango assado. Ah, e quando você xingou o Dante também ganhou cinco pontinhos de “orgulho fofo”.
Luna fez uma careta.
— Então quer dizer que eu me matei fingindo ser boazinha… pra ganhar só isso?
Ela ergueu a cabeça.
— E pra eu conseguir me transformar, precisa de quanto?
Borboleta voou até o bloco de pedra e bateu nele com a pontinha da asa.
— Pra assumir forma humana, você precisa alcançar força de nível C. Pra isso, ou junta
cem mil pontos de fofura
e troca por um “líquido avançado de evolução”, ou então treina a
Arte do Rei Coelho
até o primeiro nível e se transforma naturalmente.
— Cem mil?!
Luna quase saltou do ninho de tão chocada.
— E quanto tempo demora pra chegar ao primeiro nível da Arte do Rei Coelho?
Borboleta balançou o corpo de um lado para o outro.
— Depende do talento.
— A antiga Luna treinou por três anos e nem conseguiu entrar de verdade no básico.
Ela fez uma pausa e olhou para a hospedeira.
— Mas você veio do apocalipse, tem força de vontade… talvez leve uns três meses?
Luna revirou os olhos.
Três meses?
Ela tinha treinado durante o dia na caverna e o resultado tinha sido praticamente nada.
Se continuasse assim, corria o risco de nem sobreviver até lá. Vai que algum animal a odiasse e resolvesse jogá-la escondida na floresta do Leste pra servir de comida?
Aquela velha raposa chamada Zhu Liang já implicava com a família Valente havia tempo. Se descobrisse que os Valente tinham uma filha inútil que ainda nem tinha forma humana, ia planejar alguma maldade sem pensar duas vezes.
— Primeiro eu treino.
Luna cerrou os dentes, levantou-se no ninho e se sentou sobre a pele macia. Fechou os olhos e começou a recitar mentalmente as fórmulas da
Arte do Rei Coelho
.
“A força do coelho está nas patas e nas orelhas. Vence-se o duro com o suave. Usa-se a força do outro contra ele.”
Ela repetiu aquela frase três vezes na cabeça e tentou conduzir a energia conforme o método.
Um fluxo fraco surgiu no abdômen e começou a circular lentamente pelos membros.
Quando passou pelas patas dianteiras, ela sentiu as almofadinhas esquentarem um pouco.
Quando tocou as orelhas, os fios macios da ponta estremeceram de leve.
Mas o fluxo era fraco demais.
Mal chegou às patas traseiras e se desfez, como uma linha arrebentada.
Luna abriu os olhos e arranhou o chão do ninho com irritação.
— Porra… tão difícil assim?
— Não desanima, hospedeira!
Borboleta começou a pular de novo.
— Você acabou de começar! Só de conseguir reunir energia já é ótimo!
Ela voou até a frente dela.
— Tenta de novo. Desta vez, presta atenção nas orelhas. As orelhas dos coelhos são as partes mais sensíveis. Dá pra reunir energia nelas.
Luna puxou o ar fundo e fechou os olhos outra vez.
Desta vez concentrou toda a atenção nas orelhas.
Quando a energia surgiu no abdômen, ela a guiou de propósito até as pontas.
O fluxo parecia uma cobrinha indecisa, se contorcendo devagar até subir.
No instante em que alcançou as orelhas, o pelo branco nas pontas se eriçou de repente, como se tivesse virado uma antena.
E então—
ela começou a ouvir.
O vento lá fora.
A respiração de Augusto e Helena na casa.
E até os passos de Matheus parado do lado de fora da porta.
Ele ainda estava ali?
Guardando?
Bem nessa hora, o fluxo afundou outra vez e voltou pelo pescoço até o abdômen, mais forte do que antes.
O número no bloco de pedra piscou.
1588
— Subiu vinte!
Os olhos de Luna se acenderam.
— De novo!
Agora ela já sabia o caminho.
A energia se juntou mais rápido.
Também circulou melhor.
Na quinta tentativa, o fluxo conseguiu dar a volta completa no corpo.
O número no bloco virou:
1650
As patas estavam dormentes. As pontas das orelhas ficaram quentes, quase vermelhas.
Mas a irritação dentro dela diminuiu um pouco.
Pelo menos não era como se nada estivesse avançando.
Borboleta flutuou até a frente dela.
— Hospedeira, descansa um pouco. Se continuar assim, vai acabar se arrebentando.
Ela girou no ar com preocupação.
— Esse corpinho não aguenta exagero. Treina amanhã de novo. Tô com medo de você acabar morrendo no meio do treino.
Luna abriu os olhos e soltou o ar devagar.
Estava mesmo cansada.
Ela se deitou sobre a pele, com as patinhas apoiadas na barriga, e começou a fazer contas na cabeça.
Como juntar mais pontos amanhã?
Podia fazer manha com Helena e pedir frutas. Isso talvez desse pontos de fofura.
Podia pedir para Rafael levá-la numa caçada. Isso talvez contasse como “pontos de dependência”.
Se aqueles cinco aparecessem de novo, podia mandar Leonardo pegar alguma presa pra ela, Dante buscar água, Sebastian distraí-la com alguma gracinha…
Enfim.
Se estavam ali, que fossem úteis.
Ela não queria ficar fazendo charme de verdade.
Mas com aquele corpo, lutar era impossível e fugir também.
Então o melhor era se esconder atrás dos outros por enquanto.
Quando juntasse pontos suficientes e trocasse por força…
aí sim iria acertar as contas com todo mundo que zombou dela.
Especialmente aquele javali que jogou lama nela.
Da próxima vez que cruzasse com ele, ia usar a
Arte do Rei Coelho
e entortar o focinho dele.
— Ah, sistema.
Luna se lembrou de repente.
— Você não consegue medir perigo e nível de força?
Borboleta assentiu no ar.
— Consigo!
— Então amanhã você vai olhar pra mim o nível de força de cada um deles. Do Leonardo, do Dante, de todos. E também quais bestas no Vale Valente têm más intenções comigo.
— Sem problema!
Borboleta bateu as asas, animada.
— Mas cada análise custa cinco pontos de fofura.
Luna arregalou os olhos vermelhos.
— Sua sanguessuga desgraçada, por que você não me assalta logo de uma vez?
Ela quase pulou de raiva.
— Pra ver um númerozinho eu tenho que pagar?
Borboleta se encolheu.
— São as regras do sistema…
Ela falou em voz baixa, quase ofendida.
— Além disso, se eu te avisar dos perigos antes, você continua viva pra juntar pontos. Se alguém te apagar escondido, não importa quantos pontos você tenha.
Luna pensou por um instante.
E no fim não teve escolha.
— Tá, então desconta.
Ela bufou.
— Amanhã quero começar olhando aquele filhote de tigre. Ainda tô lembrando da vez em que ele debochou de mim.
A noite ficou ainda mais funda.
O vento lá fora foi diminuindo.
Os passos de Matheus também pararam.
Ele tinha adormecido encostado na árvore ao lado da porta. A roupa escura fazia seu corpo parecer uma pedra negra debaixo da lua.
Pela janelinha do ninho, Luna conseguia vê-lo. De vez em quando, uma das orelhas dele se mexia, atento a qualquer movimento ao redor.
Esses cinco…
talvez não fossem tão insuportáveis assim.
Leonardo se preocupava.
Dante falava demais, mas não era totalmente ruim.
Sebastian adorava provocá-la, mas ainda não tinha feito nada de verdade contra ela.
Matheus estava ali, guardando a porta em silêncio.
Adrian tinha protegido o fogo durante o dia…
— No que você tá pensando?
Luna sacudiu a cabeça e expulsou aquelas ideias.
— São todos só ferramentas. Não viaja.
Ela se virou no ninho.
— Quando eu conseguir minha forma humana e juntar pontos suficientes, ninguém vai dever nada pra ninguém.
Bocejou.
As pálpebras ficaram pesadas.
Depois de treinar metade da noite, realmente estava esgotada.
Encolheu-se dentro da pele macia e escondeu a cabeça entre as patas dianteiras.
O último pensamento antes de dormir foi:
amanhã primeiro ia fazer manha com Helena e pedir duas fileiras de frutas assadas…
depois pediria pra Rafael levá-la até a encosta norte colher cogumelos.
Ela tinha ouvido dizer que por lá existiam ervas capazes de curar ferimentos. Talvez pudesse plantá-las no espaço do sistema e depois usá-las para salvar gente e ganhar mais pontos.
O luar atravessou a pequena janela e caiu sobre seu pelo branco.
Fofo.
Rosado.
Quase adorável demais.