Adrian já tinha cavado um pequeno buraco no terreno em frente à casa.
Ele tirou o carvão da caixa de bronze, colocou-o no fundo, acrescentou as ervas secas por cima e soprou de leve.
A chama surgiu devagar.
Pequena.
Tímida.
Mas viva.
A luz alaranjada iluminou seus cabelos brancos, e o brilho dançante do fogo se refletiu em seus olhos azuis.
— Fogo! Tem fogo mesmo!
Enzo se aproximou imediatamente, os olhos arregalados. Na vida inteira, era a primeira vez que via fogo tão de perto.
Helena também levou Luna até a porta.
Ao olhar para aquela chama trêmula, algo apertou o peito dela de repente.
Porra…
aquilo emocionava um pouco.
No apocalipse, até existia fogo.
Mas toda vez que acendia um, era preciso tomar cuidado: podia atrair mortos-vivos ou gente mal-intencionada.
Agora…
ela só estava ali.
Sentada em segurança.
Olhando o fogo.
Cercada por pessoas que se importavam com ela.
Era uma sensação estranha.
Desconhecida.
Mas quente.
Leonardo se agachou ao lado da fogueira. Pegou a galinha já limpa, atravessou-a com um graveto afiado e começou a assá-la sobre as chamas.
Os olhos dourados fixos no fogo.
Virava o espeto de vez em quando.
Com uma paciência inesperada.
Dante encostou-se numa árvore próxima, o vento mexendo em seus cabelos negros. Seus olhos dourados também estavam sobre a carne.
— Não deixa queimar. Senão essa pestinha vai fazer escândalo de novo.
— Não enche.
Leonardo nem levantou a cabeça, mas os movimentos ficaram ainda mais cuidadosos.
Sebastian se aproximou de Luna, e a ponta de uma das caudas roçou de leve sua orelha.
— Ei, maluquinha… se a carne queimar, você vai chorar?
Luna ergueu a pata dianteira e afastou a cauda dele com um tapa. Os olhos vermelhos estavam cheios de desprezo.
— Chorar? Eu já corri de morto-vivo no apocalipse sem chorar. Achar que vou chorar por causa de um pedaço de carne queimada é me subestimar demais.
Sebastian arqueou uma sobrancelha.
— Apocalipse? Que lugar é esse?
Merda.
Luna xingou a própria boca por dentro e tratou de mudar de assunto na mesma hora:
— Nada! Falei errado! Olha a carne, vê se já tá pronta!
Felizmente, Sebastian não insistiu. Apenas sorriu e abanou as caudas.
— Calma. Já tá quase.
As chamas crepitavam, lambendo o espeto.
A pele da galinha foi ficando dourada aos poucos. A gordura pingava sobre o fogo, soltando fumaça branca e espalhando um cheiro irresistível pelo ar.
O nariz de Luna tremeu.
Quase babou.
Aquele cheiro era dez mil vezes melhor do que qualquer biscoito comprimido do apocalipse.
Se tivesse um pouco de sal, então…
Mas nesse mundo das feras não tinha.
Vacilo demais.
— Tá pronta, tá pronta!
Enzo se aproximou correndo, estendendo a mão para pegar, mas Leonardo bateu na mão dele sem olhar.
— Tá quente. Espera esfriar antes de dar pra ela.
Leonardo tirou a galinha do fogo e a colocou sobre uma folha limpa. Esperou a temperatura baixar um pouco, então arrancou a parte mais macia da coxa e a estendeu para Luna.
— Cuidado. Ainda tá quente.
Luna já não aguentava mais esperar.
Abriu a boca e mordeu de uma vez.
Não tinha sal.
Mas a carne estava macia, suculenta, com gosto de fogo e sem aquele cheiro nojento de sangue cru.
Era deliciosa.
Ela comeu rápido demais, e de vez em quando ainda puxava a carne com as patinhas, como se tivesse medo de alguém roubar.
— Come devagar. Ninguém vai tirar de você.
Helena riu baixinho e passou a mão em sua cabeça. Na outra mão, segurava uma fruta, oferecendo um pedacinho entre uma mordida e outra.
Augusto observava de lado, os olhos dourados cheios de alívio.
Desde que a filha estivesse bem, ela podia pedir carne assada, fogo sagrado ou até estrelas no céu.
Ele daria um jeito de conseguir.
Os seis irmãos cercavam Luna. Vendo-a comer com tanto gosto, todos começaram a rir também.
Rafael tirou um pedaço da própria carne seca, mordeu, e de repente sentiu que aquilo tinha perdido totalmente a graça.
— Da próxima vez, a gente também podia assar carne, né? O cheiro tá bom demais.
— Sim! Sim! — Enzo concordou imediatamente, sem desgrudar os olhos do resto da galinha.
Os cinco noivos também observavam Luna, cada um com uma expressão diferente.
Nos olhos dourados de Leonardo ainda havia dúvida.
Nos de Dante, a provocação tinha diminuído, substituída por certa suavidade inesperada.
Sebastian sorria com claro divertimento.
Matheus continuava quieto como sempre, mas seus olhos acompanhavam as patinhas de Luna, como se temesse que ela se machucasse num osso.
E nos olhos azuis de Adrian, refletindo a luz do fogo, o frio parecia ter se derretido um pouco.
A única pessoa que não compartilhava daquele clima era a que observava tudo escondida entre as sombras das árvores.
Camila Duarte.
Ela apertava tanto a própria roupa que as unhas quase entravam na pele.
Os olhos castanhos estavam cheios de inveja.
Por quê?
Por que aquela coelha inútil recebia tanto carinho?
Por que Leonardo caçava por ela, Dante limpava a presa por ela, e toda a família Valente girava ao redor dela?
— Luna… espera só.
Camila mordeu o lábio.
— Eu não vou deixar você continuar se achando assim.
Ela se virou e desapareceu na noite, já com uma ideia nascendo dentro da cabeça.
Depois de acabar a coxa, Luna bateu de leve na própria barriguinha e soltou um arroto satisfeito.
Ergueu os olhos para as pessoas ao redor e, de repente, teve um pensamento:
Talvez esse mundo das feras não fosse tão ruim assim.
Pelo menos aqui tinha fogo quente.
Tinha carne assada.
Só faltava sal.
Mas, pensando bem, no apocalipse ela também não tinha vivido com muito tempero mesmo.
— Sistema — ela falou na mente —, essa galinha ficou boa. Da próxima vez, manda o Leonardo caçar mais umas.
Borboleta estalou a língua.
— Hospedeira, você tá usando eles, né? Mas… eu também queria provar! Na próxima você pode deixar um pedacinho pra mim?
— Sonha.
Luna revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um sorriso.
Talvez…
desse mesmo pra viver ali.
O que ela não percebeu foi que, naquele momento, o jeito como os cinco olhavam para ela já tinha mudado.
Antes, ela era apenas a pequena fêmea da família Valente.
A companheira prometida.
Nada além disso.
Mas agora…
olhando para aquela coelha maluca que ousava enfrentá-los, comer carne assada e ainda declarar que carne crua era ruim…
algo parecia começar a brotar dentro deles.
O vento da noite soprou pelo Vale Valente.
Aninhada nos braços de Helena, Luna teve de repente um pensamento claro:
Antes de juntar cem milhões de pontos de fofura e voltar para o mundo moderno…
ela podia, primeiro,
aproveitar bastante esse mundo das feras.
E enlouquecer por aqui à vontade.
O ninho de coelha da família Valente ficava num pequeno cômodo no lado oeste da casa de madeira.
Era forrado com capim seco e macio, além de uma pele felpuda que Helena havia deixado secando ao sol especialmente para ela.
Quente.
Fofo.
Parecia uma nuvem.
Mas, mesmo assim, Luna se virou de um lado para o outro sem conseguir dormir.
As quatro patinhas chutavam a pele, deixando tudo amarrotado.
Ela esticou a pata da frente e a almofadinha rosada roçou a cerca de madeira do ninho.
Patinhas pequenas demais.
Unhas curtas demais.
No apocalipse, suas mãos seguravam facas, controlavam poderes.
Agora?
Agora ela nem conseguia arranhar um pedaço de madeira direito.
— Porra, que corpo lixo.
Ela xingou baixo, as orelhas caindo e se colando nas costas.
A satisfação de ter comido frango assado já tinha sumido.
No lugar, só restava irritação.
Enquanto não assumisse forma humana, seria um lixo inútil.
Que acumular cem milhões de pontos e voltar para o mundo moderno o quê…
do jeito que estava, bastava dar dois passos no Vale Valente para qualquer besta de nível B apontar para ela e rir pelas costas.
De olhos fechados, a cabeça dela se encheu de lembranças desagradáveis.
No mês passado, quando foi colher frutinhas vermelhas no bosque fora do vale, dois javalis de nível C jogaram lama nela e riram:
— Olha lá a coelha inútil da família Valente! Nem forma humana tem! Tá viva só pra desperdiçar capim!
E teve também aquela vez em que membros do clã de Leonardo foram visitar a casa.
Um filhote de tigre apontou para ela e perguntou, bem na frente dele:
— Irmão Leonardo, por que você tá prometido pra uma coelha de nível F? Isso envergonha o nosso clã.
Na hora, Leonardo não respondeu.
Mas as pontas das orelhas dele ficaram vermelhas.
Vermelhas de vergonha.
E era exatamente isso que mais irritava Luna.
Entre os cinco noivos, qual deles não era um monstro de elite?
Leonardo era filho único do rei das feras do Oeste.
Dante era o mais jovem candidato a ancião do clã dos dragões do Sul.
Sebastian era a mente por trás do clã das raposas do Norte…
Qualquer um deles era uma lenda viva.
E ela?
Só uma coelhinha F-rank.
Comparada a eles, realmente parecia um peso morto.