A noite desceu carregando a umidade da Floresta do Sul, espalhando-se devagar na direção do Vale Valente.
Helena seguia na frente, com Luna aninhada nos braços. A barra do vestido verde roçava as ervas à beira do caminho, levantando um perfume suave.
Pelas janelas da casa de madeira escapava uma luz amarela e acolhedora. Augusto vinha logo atrás, e de tempos em tempos seus olhos dourados caíam sobre a filha nos braços da esposa.
A pequena estava encolhida, com as orelhas caídas, sem o menor sinal de energia.
Isso o deixava inquieto.
— Mãe… tô com fome.
A voz de Luna saiu baixinha, mas todos ouviram com clareza.
E ela estava mesmo.
As cenouras do espaço só tinham enganado o estômago por um tempo. A carne seca do sonho ainda atormentava sua memória, e agora sua cabeça inteira só pensava no cheiro de carne assada.
Helena acelerou o passo. Assim que entrou em casa, colocou Luna sobre um macio tapete de capim seco.
— A mamãe vai pegar frutas pra você. E também aquelas raízes doces que você mais gosta.
— Não quero.
Luna balançou a cabeça.
Os olhos vermelhos estavam fixos numa fileira de carne seca pendurada no canto da casa.
Era um pedaço de caça que Rafael tinha trazido dias antes, escuro, firme, com cara de ser bem mastigável.
Ela engoliu em seco e soltou, de forma chocante:
— Mãe, eu quero comer carne.
A casa inteira mergulhou em silêncio.
A mão de Helena, que já ia pegar o cesto de frutas, parou no ar. Seus olhos se arregalaram.
— Luninha… o quê? Comer carne?
No mundo das feras, coelhos comiam ervas, raízes e frutas. Coelho comer carne era absurdo. Aquilo só podia significar uma coisa:
a queda tinha bagunçado de vez a cabeça da menina.
Augusto, que acabara de entrar, também franziu a testa. Aproximou-se do tapete, abaixou-se e encostou a mão na testa de Luna.
— Não tá com febre… Luninha, você bateu a cabeça e ficou confusa? Coelhos não comem carne.
Os seis irmãos já se espremiam na entrada.
Rafael foi o primeiro a falar, claramente preocupado:
— Luninha, você tá com tanta fome assim? Eu posso ir pegar as frutas mais frescas pra você.
Luna fez um bico e apontou com a patinha para a carne seca pendurada.
— Eu quero aquilo.
Ela pausou, então completou, com total convicção:
— Carne crua é horrível. Eu quero carne cozida.
— Cozida?!
Dessa vez não foram só Helena e Augusto que arregalaram os olhos.
Até os cinco noivos, na porta, se inclinaram ao mesmo tempo para dentro da casa.
Leonardo, cheio de dúvida, foi até o tapete e se agachou ao lado dela. Os dedos tocaram de leve uma das orelhas dela.
— Bebê… você sabe o que é carne cozida?
No mundo das feras, fogo era raro.
Só alguns grandes clãs e palácios de reis das feras guardavam brasas, usadas em rituais ou emergências.
Para a maioria das pessoas, “carne cozida” era mais lenda do que comida de verdade.
Dante ficou apoiado no batente da porta, o cabelo preto caindo sobre metade do rosto, os olhos dourados cheios de ironia.
— Olha só. Caiu do penhasco e virou uma nova espécie. Uma coelha que quer comer carne cozida. Se isso se espalhar, a floresta inteira vai rir até morrer.
— Cala a boca!
Luna lançou um olhar feroz para ele, as pupilas ardendo de irritação.
— Carne crua tem gosto de sangue e faz passar mal! Eu quero carne cozida, e daí?
No apocalipse, ela tinha visto gente morrer por comer carne contaminada.
Nem morta — ou melhor, nem reencarnada — ela ia tocar em carne crua.
Sebastian entrou balançando as nove caudas, o manto roxo roçando o chão. Agachou-se ao lado dela, os olhos âmbar cheios de curiosidade.
— Sua maluquinha… e você faz ideia de onde arranjar fogo? No mundo das feras isso não é algo que aparece do nada. Aqui na casa do tio Augusto…
— Eu tenho uma brasa guardada.
A voz de Augusto cortou a de Sebastian.
Ele se virou, foi até um armário de madeira no canto da casa e abriu a porta. De lá tirou uma pequena caixa de bronze.
Dentro dela, sobre um pedaço de couro seco, havia um carvão que já tinha sido aceso e depois resfriado, além de um pequeno feixe de ervas secas.
Helena se aproximou e perguntou, hesitante:
— Augusto… essa brasa você trocou com o Palácio das Feras pra usar em emergência. Vai mesmo gastar agora?
Augusto pousou a caixa sobre a mesa, os olhos dourados indo até Luna. Sua voz suavizou.
— Se a nossa filha quer comer, então a gente faz.
Ele soltou um suspiro leve.
— É só um carvão. Eu arranjo outro depois.
Na vida inteira, ele já tinha conquistado tudo o que podia.
Mas filha… só tinha aquela.
Se fosse preciso usar a brasa sagrada, usava.
Se fosse preciso atravessar a floresta inteira para roubar uma presa no Leste, ele também iria.
As orelhas caídas de Luna tremeram levemente.
Aquilo aqueceu algo dentro dela.
Aquele “pai postiço” podia parecer duro, mas a mimava de verdade.
— Eu vou caçar!
Enzo foi o primeiro a pular pra frente, espada em punho, pronto para sair correndo.
— A Luninha quer carne fresca! Carne seca não presta!
— Espera.
Leonardo se levantou. Sob a luz da casa, o cabelo dourado e a pele clara pareciam ainda mais chamativos. Ele fez uma reverência a Augusto.
— Tio Augusto, deixa comigo. Eu sou rápido. Em meia hora volto com alguma coisa.
No fundo, ele pensava que tinha assustado a coelhinha cedo demais.
Essa podia ser uma boa chance de compensar.
Dante deu um passo à frente também, o canto da boca curvado num sorriso malandro.
— Eu vou junto. Posso limpar a caça no riacho. Se deixar na mão de vocês, vão trazer aquilo todo mal preparado.
— Vai se achando — resmungou alguém atrás.
Sebastian abanou as caudas.
— Eu vou buscar lenha. A madeira seca do lado norte pega fogo fácil e dura bastante.
Matheus não disse nada.
Só pegou silenciosamente o machado apoiado na parede e saiu pela porta.
Ia rachar lenha.
Adrian se aproximou da mesa e olhou para a pequena caixa de bronze. Um brilho de compreensão passou por seus olhos azuis.
— Eu fico de olho na brasa. Não vou deixar apagar.
Luna ficou sentada no tapete de capim, observando toda aquela movimentação em torno de si.
Ficou até meio atordoada.
No apocalipse, se ela quisesse comer carne cozida, precisava caçar sozinha, arrumar lenha sozinha, acender fogo sozinha — e ainda vigiar pra ninguém roubar.
Agora…
ela só tinha dito que queria comer carne cozida.
E um monte de gente já estava correndo de um lado para o outro por causa disso.
— Hospedeira, você tá vivendo bem demais! — Borboleta pulava em sua mente. — Se isso acontecer todo dia, seus pontos de fofura vão disparar!
— Cala a boca. Isso aqui se chama competência. Eles tão me servindo porque eu mereço.
Luna respondeu de boca dura, mas sentiu uma coisa estranha no peito.
No fundo, ela só queria um pedaço de carne assada.
Queria afastar um pouco da escuridão do apocalipse que ainda grudava nela.
Não fazia ideia de que isso daria tanto trabalho.
Já estava até pensando que, quando juntasse pontos suficientes, podia trocar por um isqueiro na loja do sistema.
Helena se sentou ao lado dela e alisou de leve seu pelo, o rosto cheio de preocupação.
— Luninha, se estiver se sentindo mal, fala pra mamãe, tá? Antes você nem conseguia olhar pra carne crua. Por que de repente cismou com carne cozida?
Luna levantou os olhos para ela. Havia seriedade no vermelho das pupilas.
— Mãe… carne crua faz mal. Dá doença. Carne cozida é mais gostosa… e mais segura.
Ela não tinha como explicar o apocalipse.
Então só podia falar assim.
Helena assentiu, meio sem entender, e não insistiu.
Mas a preocupação só aumentou.
A filha caiu uma vez e voltou diferente.
Mais corajosa.
Mais estranha.
Agora até a forma de comer tinha mudado.
Precisava mesmo observá-la direito.
Pouco tempo depois, ouviram passos do lado de fora.
Leonardo voltou carregando uma galinha-do-mato bem gorda no ombro. Havia respingos de sangue em seu robe branco com detalhes dourados. Ele largou a presa sobre a pedra junto à porta.
— Fresca. Acabei de pegar. A carne é macia.
Dante entrou logo atrás, com uma pedra afiada na mão. Agachou-se ao lado da ave e começou a limpar a caça com movimentos rápidos e habilidosos.
— Você só teve sorte. Saiu e já achou uma galinha. Se tivesse mandado o Enzo, talvez ele voltasse de mãos vazias.
— Mentira!
Enzo saiu correndo de dentro da casa, espada em punho, pronto para discutir com Dante, mas Rafael o segurou pelo colarinho antes.
— Para com isso. Deixa o Dante limpar a ave. Vai ajudar o Matheus com a lenha.
Enzo bufou, claramente contrariado, mas no fim foi mesmo.
Logo depois, Sebastian voltou carregando um monte de galhos secos nos braços. Uma folha ainda estava presa numa das caudas.
— Lenha suficiente. A madeira seca do morro norte pega fogo que é uma beleza.