Sebastian foi o primeiro a reagir.
Um riso baixo escapou de seus lábios:
— Continua idiota como sempre.
Adrian inclinou a cabeça, os olhos afiados passando por ela:
— Será que bateu a cabeça e ficou pior?
Dante aproximou ainda mais o rosto. As escamas douradas quase encostaram nela, a língua bifurcada deslizando no ar:
— A pele não rasgou… ainda dá pra fazer umas luvas.
…
Luna ficou em silêncio.
Um segundo.
Dois.
Então—
— Vai se foder com essa merda de luva!!!
Ela ergueu a cabeça de repente.
Os olhos vermelhos cravaram em Dante como lâminas.
O corpo tremia.
Mas aquele olhar—
era puro instinto de sobrevivência, lapidado no inferno.
— Encosta um pelo em mim… só um… e você vê.
A voz saiu fraca, quase falhando.
Mas carregava uma decisão absoluta.
As cinco feras ficaram paradas.
De verdade.
Chocadas.
Aquela inútil… falando assim?
Na memória deles, Luninha sempre foi covarde, fraca. Bastava um susto e ela se encolhia toda, tremendo.
Mas agora?
Caiu do penhasco e voltou com personalidade?
Leonardo franziu a testa. Um traço de irritação cruzou seus olhos dourados:
— Dante. Para de assustar ela.
Dante fez uma careta, recuando meio passo, claramente contrariado.
Mas ainda lançou um olhar provocador para Luna.
Matheus se aproximou.
Abaixou a cabeça e empurrou levemente o corpo dela com o focinho:
— Levanta.
Luna ignorou completamente.
Apoiou as patas no chão—
e tentou de novo.
Dessa vez, com cuidado.
Primeiro as dianteiras.
Depois as traseiras.
Equilíbrio.
Respiração.
Tremendo.
Quase caindo.
Mas—
ficou de pé.
Ela sacudiu a poeira do corpo.
Levantou a cabeça.
E olhou um por um.
— Escutem bem…
— Eu não sou fracote.
— Não sou brinquedo de vocês.
— E ninguém… vai usar minha pele pra fazer porra nenhuma de luva.
A voz não era alta.
Mas cada palavra carregava uma loucura contida.
Uma decisão de quem já esteve perto demais da morte.
No apocalipse, ela aprendeu uma coisa:
Se quer viver—
não pode parecer fraca.
Mesmo diante de algo cem vezes mais forte—
mostre os dentes.
Mesmo que pareçam fofos.
Mesmo que pareça ridículo.
Ainda assim—
mostre.
As cinco feras ficaram em silêncio.
Eles só queriam provocar.
Brincar um pouco.
Não matar.
Mas olhando para aquela coelha suja, com o pelo bagunçado—
e olhos afiados como uma faca—
pela primeira vez…
sentiram algo estranho.
Aquilo…
não parecia mais a mesma Luninha.
Nesse instante—
Luna girou o corpo de repente.
E disparou.
— Quer me pegar? Quer brincar comigo?
— Então vem!!!
A velocidade era ridícula.
Quatro patinhas curtas se mexendo desesperadamente.
O corpo tremia.
Cada passo doía.
Como se os ossos fossem se desmontar a qualquer momento.
Mas ela não parou.
Não podia parar.
Atrás—
silêncio por um instante.
E então—
— Peguem ela!
Leonardo avançou primeiro.
Rápido.
Rápido demais.
O corpo enorme se movendo entre as árvores como se não tivesse peso.
Em um piscar—
já estava perto.
Matheus veio logo atrás, correndo baixo, silencioso.
Adrian levantou voo, circulando por cima.
Cercando.
Fechando.
Sebastian apenas caminhava, tranquilo, as caudas balançando:
— Não adianta correr…
Dante serpenteava entre as árvores, dourado como um raio.
Luna olhou para trás—
E quase perdeu o fôlego.
Eles estavam chegando.
Muito rápido.
— Merda… merda… MERDA!
Assim não dava.
Ela ia ser pega.
Era questão de segundos.
E quando fosse—
ela não acreditava nem por um segundo que sairia inteira.
No apocalipse, ela aprendeu:
Se não pode vencer na força—
vence na cabeça.
Os olhos dela correram pelo ambiente—
E então—
ela viu.
À esquerda.
Um buraco estreito na montanha, coberto por mato e cipós.
Sem pensar—
mudou de direção.
E correu direto pra lá.
— Tentando se esconder?
A voz de Leonardo veio atrás, já perto demais.
— Caralho, vocês não largam?!
Ela mordeu o lábio—
e usou o último resto de força.
No instante em que a pata do tigre desceu—
Ela se jogou dentro do buraco.
— BOOM!
O chão tremeu.
Pedras caíram.
A entrada foi parcialmente bloqueada.
Dentro da caverna—
Luna caiu de costas.
Ofegante.
Exausta.
Os quatro membros abertos.
O corpo inteiro desligando.
Ela só respirava.
Uma vez.
Outra.
Mais uma.
Do lado de fora—
vozes.
— Entrou.
— A entrada é pequena demais.
— Eu não consigo entrar.
— Nem eu.
— E agora?
Sebastian riu, despreocupado:
— Relaxa.
— Isso aí parece um beco sem saída.
— Ela vai sair quando a fome bater.
…
O coração de Luna afundou.
Beco sem saída?
Sério?
Ela cerrou os dentes.
— Não… não vou morrer assim.
Mesmo que rastejando—
ela ia achar outro caminho.
A caverna era escura.
Totalmente escura.
O ar úmido, pesado, com cheiro de mofo.
Ela avançou devagar.
Tateando.
Passo por passo.
Então—
sua pata tocou algo frio.
Ela congelou.
Devagar—
apalpou.
Era uma parede de pedra.
Lisa.
Com algo… gravado nela.
No instante em que tocou—
Uma corrente quente atravessou seu corpo.
Da pata—
para o peito—
para cada canto.
A dor diminuiu.
A respiração estabilizou.
Luna arregalou os olhos.
— Que porra é isso…?
Antes que pudesse reagir—
Uma voz surgiu na sua cabeça.
Aguda.
Animada.
— Ding! Detectando hospedeira compatível…
— Iniciando vínculo do sistema…
— Vínculo concluído!
— Olá, hospedeira! Eu sou sua assistente exclusiva—
— Borboleta!
…
Silêncio.
Luna piscou.
Uma vez.
Duas.
— …Hã?
Sistema?
Espírito?
Borboleta?
Ela levantou a cabeça, olhando ao redor.
Nada.
— Para de procurar.
A voz voltou.
— Eu tô na sua mente.
— Não tenho corpo. Sou uma forma de energia.
…
Luna ficou parada.
E então—
— …Que porra maior ainda.