Uma dor dilacerante grudava nos ossos como uma maldição.
Luna lutava para manter a consciência no meio daquele caos, enquanto vozes masculinas frias e carregadas de malícia ecoavam ao seu redor, impossíveis de ignorar.
— Eu já disse… essa fracote tá quase morta.
— Mas ainda respira, não?
— A gente come ou enterra?
— A pele dá pra fazer umas luvas boas.
…
Que inferno barulhento do caralho.
Ela lembrava perfeitamente do próprio fim — sendo rasgada em pedaços por aquela fera mutante. O destino só podia ser um: virar comida e depois… nada.
Mas aquela dor… aquelas vozes…
Nada daquilo parecia o vazio da morte.
Com toda a força que ainda lhe restava, ela conseguiu abrir uma fresta dos olhos.
Não havia trono do inferno.
Nem sombras.
Só luz difusa, borrada… e um cheiro de terra úmida misturado com grama fresca.
E… sangue?
Sua visão foi se ajustando lentamente—
E então, tudo travou.
Algo estava errado.
Ela… não estava respirando como antes.
Seu peito mal se movia. No lugar disso, havia um tremor leve, rápido… como se seu corpo inteiro fosse pequeno demais.
Confusa, ela abaixou a cabeça, tentando massagear as têmporas latejantes—
Mas o que viu… foi uma patinha.
Pequena.
Branca.
Coberta de pelos macios.
Com almofadinhas rosadas e unhas ridiculamente curtas.
…
— Que porra…?
Antes que pudesse processar o absurdo de ter virado… uma bola de pelo—
Ela sentiu o corpo inteiro arrepiar.
Se é que ainda conseguia arrepiar.
À sua frente, um tigre branco enorme, com olhos dourados semicerrados, a encarava. A marca de “rei” em sua testa exalava uma pressão sufocante.
Aquela voz dizendo “fracote”… tinha saído daquela boca cheia de presas.
À esquerda, uma cabeça dourada gigantesca — um dragão — aproximava-se lentamente. Suas escamas brilhavam a ponto de cegar, a língua bifurcada sibilando no ar.
“Dá pra fazer luvas com a pele.”
Sim. Aquela frase nojenta veio dele.
À direita, uma raposa branca de nove caudas estava sentada com elegância, as caudas balançando suavemente atrás dela. Seus olhos âmbar carregavam diversão… e frieza.
— Ainda tem um fio de vida — disse ele, com uma voz suave demais para alguém tão perigoso.
Atrás dela, uma sombra caiu.
Com esforço, Luna virou o pescoço frágil—
E viu um lobo negro gigante, olhando para ela sem emoção alguma. Apenas pressão. Intensa. Sufocante.
E acima—
O som de asas cortando o ar.
Ela ergueu os olhos.
Uma águia branca gigantesca circulava no céu baixo, seus olhos afiados travados nela, como um predador avaliando o momento certo para atacar.
Tigre.
Dragão.
Raposa.
Lobo.
Águia.
…
Luna puxou o ar com dificuldade.
Ela já tinha visto de tudo no apocalipse.
Já esteve à beira da morte incontáveis vezes.
Mas aquilo— Aquilo era simplesmente absurdo.
E o pior— Seu corpo atual era fraco.
Ridiculamente fraco.
Cada osso parecia quebrado. Cada movimento era um esforço enorme. Nem correr ela conseguiria, quanto mais lutar.
Nesse momento—
Uma enxurrada de memórias invadiu sua mente.
A coelha se chamava… Luninha.
Filha de um dragão de nível SSS e de uma coelha negra de nível S.
Seis irmãos — todos dragões.
E ela?
Uma coelha.
Já era estranho.
Mas pior—
Era uma mestiça.
Branca.
Diferente de todos.
E ainda por cima… uma fracassada.
Cinco anos de vida e não crescia, não evoluía, não assumia forma humana.
Virou motivo de piada em toda a Floresta do Sul.
Mesmo com pais absurdamente poderosos—
Ela era inútil.
E morreu… por ser burra.
Saiu escondida pra procurar comida.
Caiu de um penhasco.
E morreu de susto.
…
E agora— Luna Valente, sobrevivente do apocalipse… renasceu nesse corpo igualmente azarado.
Mas tinha mais.
Muito pior.
As cinco criaturas à sua frente—
não eram predadores aleatórios.
Eram… seus futuros companheiros.
Seus “noivos”.
Leonardo Vasconcelos — o tigre branco.
Dante Montenegro — o dragão dourado.
Sebastian Alencar — a raposa de nove caudas.
Matheus Silveira — o lobo negro.
Adrian Figueiredo — a águia branca.
Todos.
Todos capazes de matá-la com um único movimento.
E ainda assim— destinados a serem seus parceiros.
…
— Isso só pode ser uma piada de muito mau gosto…
O mundo girou.
Sua mente recém-estabilizada entrou em colapso de novo.
Antes que pudesse reagir— o lobo negro deu um passo à frente.
A pata pesada tocou o chão com um som seco.
Ele abaixou a cabeça… e encostou o focinho nas costas dela.
— Ainda está viva.
A raposa lambeu a pata, rindo baixo:
— Achei que não ia durar.
A águia pousou ao lado, garras marcando o chão:
— Acordou, hein?
Luna encolheu o corpo.
Diante daquelas cinco bestas— e daquele corpo patético— um único pensamento surgiu:
Acabou.
Isso não é reencarnação.
Isso é cair direto de um inferno… em outro pior ainda.
E com bônus.
Tigre, dragão, raposa, lobo e águia inclusos.
Ela provavelmente nem precisava resistir.
Qualquer um deles podia transformá-la em “panqueca de coelho” sem esforço.
Justo quando o medo começava a dominá-la—
O tigre branco se aproximou.
Abaixou a cabeça enorme…
E, de forma inesperadamente suave, lambeu sua orelha.
— Bebê… dói?
…
Luna travou.
— Hã…?
Bebê?
Esse mesmo cara que chamou ela de fracote… tá chamando de bebê agora?
Que merda é essa?
Algo definitivamente não estava batendo.
Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto.
Cinco anos no apocalipse ensinaram uma coisa:
Nunca confie na aparência.
Especialmente quando o inimigo parece gentil.
Principalmente o dragão— que ainda queria transformar ela em luvas.
Não dava pra ficar esperando morrer.
Ela reuniu o pouco de força que tinha— e tentou mover as quatro patinhas.
Tentativa número um.
Falha.
— PLOFT!
Ela caiu de cara no chão.
Direto na terra.
Comendo poeira e grama.
— Cof… cof…
Levantou a cabeça com dificuldade, cuspindo sujeira—
Os olhos ficaram vermelhos.
Não de dor.
De humilhação.
No apocalipse— ela abria caminho na base da faca.
Agora— nem ficar em pé ela conseguia.
Na frente de cinco monstros.
Patético.
As cinco feras ficaram em silêncio.
Claramente não esperavam aquilo.
A coelhinha— que sempre tremia de medo—
agora… tinha olhos afiados.
Quase perigosos.
Algo estava errado.
Muito errado.
Luna respirou fundo.
Dessa vez— levantou primeiro as patas dianteiras.
Depois estabilizou as traseiras.
Tremendo.
Quase caindo.
Mas— ficou de pé.
Ela sacudiu a sujeira do corpo.
Ergueu a cabeça.
E encarou cada um deles.
Um por um.
Seus olhos vermelhos queimavam com uma ferocidade absurda para alguém tão pequeno.
— Vou deixar uma coisa bem clara…
A voz era fraca.
Mas firme.
— Eu não sou fracote.
— Não sou brinquedo de vocês.
— E ninguém… vai arrancar minha pele pra fazer luva.
Cada palavra carregava uma loucura contida.
Uma determinação quase insana.
Porque ela sabia— no mundo em que vivia— fraqueza era sentença de morte.
Mesmo diante de monstros— era melhor mostrar os dentes.
Mesmo que fossem dentes de coelho.
Mesmo que parecesse… fofo.
Ainda assim— era preciso morder.