Fiquei encarando o corpo de Mateus por quase um minuto inteiro, até finalmente conseguir me forçar a voltar ao normal.
Naquele momento, eu queria desesperadamente um cigarro.
Qualquer coisa que aliviasse a tensão sufocante apertando meu peito.
No livro, nunca houve cena alguma em que encontrassem o corpo de Mateus.
Naquela maldita mansão, o único cadáver que deveria existir era o meu.
Revisei os bolsos dele com cuidado.
E encontrei—
meu celular.
Ou seja…
desde o começo, Mateus estava mentindo para mim.
Foi ele quem escondeu meu telefone.
E, de repente, até a história de ele ser meu namorado passou a parecer duvidosa.
Mantendo a calma, coloquei o chip no aparelho.
O celular ligou rapidamente.
Ainda tinha cinquenta por cento de bateria.
Já era alguma coisa.
Abri a galeria, querendo confirmar de uma vez por todas quem Mateus era.
A primeira foto mostrava nós dois juntos, abraçados, bem próximos um do outro.
A intimidade entre nós era evidente.
O sorriso, o jeito como ele me segurava, a doçura no olhar—
não havia como fingir aquilo.
Então, nessa parte, ele não tinha mentido.
Mateus era, sim, meu namorado.
Além das nossas fotos, também havia imagens minhas com um homem de meia-idade, elegante, de aparência refinada… e uma garota jovem, linda.
No pulso do homem havia um relógio.
O mesmo relógio que eu tinha visto na mão da suposta vítima decapitada.
Na mesma hora, cheguei a uma conclusão:
aquele cadáver sem cabeça provavelmente era só um disfarce do assassino.
Se ele tinha acesso ao relógio do pai da dona original deste corpo, então o verdadeiro Ricardo talvez já estivesse morto há muito tempo.
Quanto à garota bonita da foto…
eu supus que fosse minha melhor amiga.
Bianca.
A protagonista do romance.
Fora isso, o resto da galeria estava cheio de selfies e fotos de paisagem.
Abri então o aplicativo de mensagens.
E encontrei uma mensagem de Bianca.
Ela dizia que já tinha pego um carro e estava vindo para a mansão.
Faltavam quarenta e cinco minutos para a minha morte.
Mas, pela primeira vez desde que tudo começou…
eu tinha em mãos um telefone capaz de me conectar com o mundo lá fora.
Liguei imediatamente para a polícia.
— O número que você discou não existe.
A voz eletrônica caiu sobre mim como um golpe seco.
Como assim o número não existe?
Que merda era aquela?
Será que, nesse mundo, o número da polícia era outro?
Tentei pesquisar.
Mas os resultados eram absurdos:
ou irrelevantes…
ou simplesmente páginas quebradas, erro 404, links inúteis.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Então entendi.
Aquilo devia ser uma espécie de mecanismo de correção do próprio mundo da história.
Eu era uma falha.
Um vírus.
Uma presença invasora dentro de um enredo que precisava seguir seu rumo original.
E, para que a trama continuasse como deveria…
eu precisava morrer.
Porque era a minha morte que colocava a protagonista e o detetive no mesmo caminho.
Se a história não queria me deixar chamar a polícia…
então só restava uma verdade:
eu só podia contar comigo mesma.
Os quarenta e cinco minutos que me restavam eram, ao mesmo tempo, uma sentença e uma oportunidade.
Se o assassino precisava me matar dentro do horário previsto pela narrativa, então ele era obrigado a me encontrar antes que o tempo acabasse.
Se eu não morresse na hora certa…
eu viraria um erro ainda maior.
Então o plano era simples.
Preparar armadilhas.
Me esconder.
E esperar que ele viesse atrás de mim.
Desci até a cozinha e peguei todas as facas que consegui encontrar.
Depois improvisei uma pequena bomba caseira com açúcar, fósforos triturados, bateria e outras coisas que achei por lá.
Quando terminei, voltei para o quarto.
Fiquei observando a tela do celular em silêncio.
Trinta e cinco minutos restantes.
A essa altura, o assassino já devia estar ficando impaciente.
E foi então que eu ouvi.
Passos no lado de fora.
Subindo a escada.
Mas não eram passos comuns.
Era o som nítido de salto alto.
Meu coração acelerou.
Uma mulher?
Se fosse isso, a diferença de força entre nós diminuía consideravelmente.
Passei a língua pelos lábios secos e fiquei encarando a porta.
Os passos pararam bem diante dela.
No canto escondido ao lado da entrada, a pequena armadilha que eu tinha montado já estava pronta.
Bastava a pessoa tentar abrir a porta—
e ela detonaria.
A maçaneta foi pressionada de leve.
Só um pouco.
Mas, para minha frustração, quem estava do outro lado parou antes de acionar o mecanismo.
O silêncio voltou a tomar conta de tudo.
Prendi a respiração.
Deitei no chão e olhei pela fresta da porta.
Vi—
um par de saltos vermelhos.
O salto erguia o pé num arco tenso, elegante e doentio ao mesmo tempo.
A pele do peito do pé era absurdamente pálida.
As veias saltavam de forma assustadora.
Naquele instante, senti o frio se espalhar por cada poro do meu corpo.
Mordi o lábio inferior com tanta força que só parei quando senti dor.
E gosto de sangue.
Só então consegui me acalmar minimamente.
— Quem é você? Por que quer me matar?
Minha voz saiu firme, embora por dentro eu estivesse desmoronando.
Lá fora, nada.
Nenhuma resposta.
Então, de repente—
um bilhete foi empurrado por baixo da porta.
Abri o papel.
Havia uma frase escrita em vermelho, como se a tinta tivesse sido misturada com sangue.
“Lívia, você não é real.”
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Outra frase parecida.
E pior—
a letra era minha.
Minha.
Respirei fundo e abri a porta de uma vez.
Do lado de fora—
ninguém.
Nada.
Só os sapatos vermelhos de salto alto.
Sozinhos.
Abandonados no chão.
Olhei ao redor com o rosto sombrio.
As unhas longas e impecavelmente feitas desta garota afundaram na palma da minha mão.
Naquele momento, comecei a questionar seriamente se aquilo ainda era só um romance de suspense.
Porque um ser humano não desaparece em questão de segundos.
Olhei o horário.
Vinte e cinco minutos até a minha morte.
Mas havia um problema muito pior do que o tempo.
Talvez eu tivesse partido da premissa errada desde o início.
Eu vinha supondo que o assassino fosse uma pessoa.
Mas e se não fosse?
E se aquilo escondido na casa nem sequer fosse humano?
Se não fosse uma criatura de carne e osso…
então eu estava condenada.
Na verdade, eu nem tinha tanto medo de morrer.
O que me aterrorizava era morrer e não conseguir voltar para o meu mundo.
Além disso, o jeito como eu morria nessa história era monstruoso demais.
Mesmo que antes eu fosse praticamente uma fortaleza ambulante…
dor ainda era dor.
Agora eu já tinha dois bilhetes comigo.
Os dois escritos com a minha própria letra.
Os dois me avisando para não confiar em ninguém.
Quanto à pessoa que estava do lado de fora há pouco—
eu tinha certeza de que eram pés de mulher.
A numeração daquele salto parecia trinta e sete.
Exatamente o meu tamanho.
Pés masculinos não seriam tão pequenos.
Mas a suposta vítima decapitada tinha claramente o porte de um homem.
Ou seja…
havia duas presenças naquela casa.
Ou duas coisas.
Os saltos vermelhos.
Os chinelos vermelhos.
Os sapatos sociais vermelhos.
Que ligação havia entre eles?
Eu ainda estava tentando juntar as peças quando meu celular vibrou duas vezes.
Desbloqueei a tela.
Uma mensagem de um número desconhecido.
“Lívia, terminei de investigar tudo o que você me pediu. É urgente. Onde você está agora?”
Respondi imediatamente:
“Na mansão da minha família.”
A resposta veio em segundos.
“Meu Deus, Lívia, você precisa sair daí agora.”
“Não posso. Colocaram cadeados na porta e soldaram as janelas. Não tem como sair.”
Depois de alguns segundos, a nova mensagem apareceu.
“...Lívia, me perdoe. Eu não posso chamar a polícia. Só posso desejar boa sorte. Mas vou te contar tudo o que descobri.”
Senti meu estômago afundar.
Continuei lendo.
“Seu pai realmente tem uma nova amante. Mas não é a jovem secretária que você imaginava.”
Naquele momento, entendi.
A antiga dona deste corpo tinha contratado um detetive particular para investigar a vida amorosa do pai.
O que era totalmente plausível.
Se Ricardo se casasse de novo, a herança dela diminuiria drasticamente.
Então fazia sentido ela querer descobrir quem era a mulher.
Mas a mensagem seguinte me gelou o sangue.
“A amante do seu pai é sua melhor amiga, Bianca Almeida. Os dois estão juntos há pelo menos dois anos. Pelo tempo em que vocês se conhecem, eu suspeito que Bianca tenha se aproximado de você com segundas intenções.”
Fiquei imóvel.
Meu olhar congelou na tela.
Mas ainda não era tudo.
“Só que Bianca não tinha apenas seu pai. Eu fiquei de olho no prédio onde ela mora… e acabei descobrindo que ela também entra e sai de lá com outro homem.”
Logo em seguida, uma foto chegou.
Abri.
E senti meu coração afundar.
Na imagem, Bianca aparecia de braço dado com um homem, num gesto íntimo, quase carinhoso.
E o homem ao lado dela—
era Mateus.