Um homem alto, com o torso nu, saiu de um dos quartos no segundo andar.
Ficamos nos encarando por alguns segundos—
e então eu soltei um grito.
Ele franziu a testa, claramente irritado.
— Lívia, você tá maluca? Pra que esse escândalo?
Meu grito travou na garganta.
— Quem… quem é você?
Ele soltou uma risada incrédula, irritada.
— Lívia, você bateu a cabeça? A gente acabou de passar a tarde juntos… e você pergunta quem eu sou?
Só então caiu a ficha.
Aquele homem… provavelmente era o namorado da dona original deste corpo.
O problema?
O livro nunca mencionou nada sobre ele.
Ou seja…
eu não tenho como saber se ele é realmente quem diz ser.
— Por que você não falou nada antes?
Eu o encaro com desconfiança.
O homem revira os olhos.
— Tá de sacanagem comigo? Eu falei que tava malhando ali do lado, pedi pra você não me incomodar.
Mesmo estando no térreo, eu conseguia ver o suor escorrendo pelo peito dele.
— Foi você que pegou meu celular? E o chip?
Pergunto, olhando direto nos olhos dele.
Ele suspira, a expressão suavizando um pouco.
Passa a mão na têmpora, claramente cansado.
— Li… para com isso, vai. Só porque eu esqueci seu presente de aniversário, você vai ficar inventando essas perguntas estranhas?
Ele pega uma toalha e seca o corpo.
— Eu não mexi no seu celular nem no chip. Vai se arrumar… eu te levo pra jantar, tá?
Se ele realmente for meu namorado…
então o assassino ainda está escondido em algum canto da casa.
Mas tem um problema.
No livro, quando a protagonista encontra meu corpo…
não há nenhuma menção ao corpo do namorado.
Então existem duas possibilidades.
Ou— ele não é meu namorado.
Ele é o assassino.
Ou— o assassino já se livrou do corpo dele.
Meu olhar percorre o corpo forte dele, os músculos bem definidos, a altura de mais de um metro e oitenta…
Eu prefiro acreditar na segunda opção.
Porque se ele for o assassino…
eu não tenho a menor chance.
— Li, por que você ainda tá parada aí?
Ele me olha, confuso.
— Esses quatro cadeados na porta… foi você que colocou?
Pergunto.
Ele segue meu olhar até a porta.
— Caralho?!
Ele desce correndo as escadas.
— Lívia, você enlouqueceu? Só porque eu fui numa balada semana passada sem te contar, você precisava me trancar aqui?!
Ele tenta forçar os cadeados.
Inútil.
Nada se move.
Ele se vira, me olhando com raiva.
— Já basta você ser controladora… naquele dia era aniversário de um amigo! Eu fiquei em chamada com você, mandei vídeo, fiz tudo! Você não confia em mim, beleza! Mas isso aqui já é demais!
Ele respira fundo, tentando se conter.
— Me dá a chave. Eu vou embora.
Eu sorrio, sem graça, abrindo as mãos.
— Desculpa… eu não tenho chave nenhuma. E esses cadeados não fui eu que coloquei.
Ele me encara, desconfiado.
Depois de alguns segundos, solta um palavrão baixo.
— Merda… que inferno. Eu não devia ter assistido aquele filme ontem…
Agora ele parece mais assustado do que eu.
— Li… será que tem um psicopata dentro dessa casa?
Eu suspiro.
— Tem.
Cinco minutos depois, estamos sentados no sofá.
Cada um segurando uma faca de cozinha.
Mateus olha ao redor, inquieto, quase paranoico.
Cinco minutos antes, tentamos ligar para a polícia usando o celular dele.
Mas—
o chip também tinha sumido.
Provavelmente alguém pegou…
enquanto ele estava distraído mais cedo.
Faltam uma hora e meia para a minha morte.
Lá fora, o céu já escureceu completamente.
A noite—
caiu.
Observo o perfil de Mateus.
O rosto bonito agora está tenso, pesado.
— Mateus… aqueles chinelos vermelhos debaixo da cama… foram você que colocou?
Pergunto em voz baixa.
— O quê? Tem chinelo debaixo da cama?!
Ele parece genuinamente assustado.
Suspiro.
Desisto de rodeios.
Conto tudo:
que pode haver alguém no quarto…
e que meu celular desapareceu.
O rosto dele muda várias vezes, indeciso, nervoso…
até que ele diz:
— E se a gente subir pra ver?
— Tá. Você vai na frente.
Ele não parece nada feliz com isso.
Mesmo assim, sobe as escadas segurando a faca.
A porta do quarto ainda estava trancada.
Ele gira a chave e abre.
Entramos.
Revistamos tudo de novo.
Nada.
Nenhum lugar onde alguém pudesse se esconder.
Mas o assassino com certeza tem um jeito de entrar ali.
Mateus se abaixa, tentando olhar debaixo da cama.
— Li… não tem chinelo nenhum aqui.
Eu também olho.
Sumiram.
Ele levou?
Mas… por quê?
Meu estômago se aperta.
Mateus está visivelmente mais assustado que eu.
A mão dele segura a faca com força.
Então—
eu percebo.
A fresta do guarda-roupa está maior do que antes.
Seguro a faca com força.
Respiro fundo.
E abro.
O casaco masculino cinza está ligeiramente fora do lugar.
— Lívia… esse casaco é de quem?
Mateus pergunta atrás de mim.
— Não é seu?
— Lívia, você esqueceu que eu odeio cinza?
— Desculpa… eu tô nervosa.
Invento qualquer desculpa.
Tiro o casaco do cabide.
Revisto os bolsos—
e encontro algo.
Um bilhete.
“Todos eles são falsos.
E você também.”
— O que você achou?
Mateus pergunta.
Eu aperto o papel instintivamente e enfio no bolso.
— Nada.
Mas minha mente está em caos.
Eu não lembro de ter escrito isso.
Nem faço ideia do que significa.
Além do bilhete… não há mais nada no casaco.
— Lívia, olha isso.
Mateus aponta para dentro do guarda-roupa.
Na parede interna—
um pequeno botão preto.
Estico a mão.
Mas ele segura meu pulso.
Respiração pesada.
— Você não acha que isso pode ser… sei lá… um detonador?
Eu hesito.
…ele tem um ponto.
— Li… e se eu pular pela janela? Eu vou buscar ajuda.
Ele tenta abrir a janela.
Nada.
— Merda… soldaram isso aqui.
— Tenta quebrar.
Ele me olha, quase triste.
— Lívia… você esqueceu? Isso aqui é vidro blindado. Não quebra.
Lá embaixo—
os crocodilos levantam a cabeça, nos encarando.
Os olhos deles brilham, verdes, no escuro.
Lá fora, a noite é densa como tinta.
A floresta ao redor da casa parece esconder sombras vivas.
Falta uma hora.
Então—
um estrondo.
Um som pesado.
Algo caiu.
Vindo—
do guarda-roupa!