Eu entrei dentro de um livro. O problema? Eu nem existia nele.
Daqui a duas horas, a protagonista vai me encontrar morta nesta cama luxuosa.
E não vai ser uma morte qualquer — vai ser brutal, grotesca… irreconhecível.
Em outras palavras, vou morrer de um jeito tão horrível que meu corpo vai virar praticamente um borrão.
Porque, nesta história, eu sou apenas a figurante número um — aquela que já aparece como cadáver logo no começo.
Agora, deitada nesta cama, olho para o relógio ao lado.
Só de lembrar da descrição no livro, um arrepio frio percorre minha espinha.
E o pior de tudo?
Eu sei exatamente o que vai acontecer.
Porque o assassino que vai me matar…
já está escondido em algum lugar desta casa.
Capítulo 1
Uma hora antes de tudo isso acontecer, eu ainda estava lendo esse romance — aquele que, segundo os comentários, a autora abandonou há mais de um ano.
A história começa com a protagonista descobrindo que sua melhor amiga rica havia sido brutalmente assassinada na cama.
Ela sai desesperada para chamar a polícia…
mas quando volta, o corpo simplesmente desapareceu.
Determinada a descobrir a verdade, ela acaba conhecendo o protagonista — um detetive particular.
Os dois investigam juntos… e, claro, se apaixonam no processo.
Só que antes mesmo de descobrirem quem era o assassino, a autora largou a história.
Motivo? Terminou com o namorado e disse que não conseguia mais escrever.
E então…
Eu virei essa tal melhor amiga.
A que está prestes a morrer.
Respiro fundo, tentando me acalmar.
Ok. Calma.
Eu sou formada por uma universidade de elite do século XXI.
Eu não posso simplesmente aceitar morrer assim.
O lugar onde estou agora é uma casa de férias — uma mansão comprada pelo pai da antiga dona deste corpo.
Ela fica a quinhentos quilômetros do centro da cidade, no meio de uma floresta isolada.
Não há ninguém num raio de um quilômetro.
São trezentos metros quadrados… e, para piorar, tem um maldito porão.
O livro nunca explicou onde exatamente o assassino se escondia.
Só dizia que ele estava em algum lugar da casa.
E agora…
eu tenho duas horas para me salvar.
Primeiro, olho debaixo da cama.
Nada.
Ótimo… ninguém.
Mas—
Há um par de chinelos vermelhos.
Eles estão escondidos ali, com as pontas viradas em direções opostas.
Um arrepio percorre meu corpo.
Desço da cama com cuidado, quase sem fazer barulho, e passo rapidamente pelo espelho.
Por um segundo, vejo meu rosto refletido.
Não esperava que essa figurante sem descrição nenhuma fosse… tão bonita.
Mas não tenho tempo para admirar isso.
Meu olhar se fixa no guarda-roupa.
Porque, pela fresta da porta… dá para ver um pedaço de tecido preto.
Meu coração começa a bater violentamente.
Engulo em seco, sentindo a boca seca de medo, e abro o guarda-roupa.
Nada.
Só uma peça de roupa comum.
Mas é um casaco masculino.
Modelo jovem.
Definitivamente não pertence ao pai da dona original do corpo.
O livro nunca mencionou nada sobre a vida amorosa dela…
Mas alguém bonita e rica assim?
Ter um namorado seria o mais normal do mundo.
O casaco tem um leve perfume amadeirado.
Diferente… marcante.
Viro-me e caminho até o banheiro do quarto.
Ele é enorme — maior do que o quarto onde eu morava antes.
Na pia, há duas escovas de dente.
Dois copos.
Então… ela realmente tinha um namorado.
Revisto todos os lugares onde alguém poderia se esconder.
Nada.
O assassino não está neste quarto.
Tranco a porta imediatamente e começo a procurar o celular.
E então—
O telefone toca.
Eu me assusto.
O som vem debaixo da cama.
Não tenho escolha.
Me ajoelho e olho novamente.
Lá estão… os chinelos vermelhos.
E dentro de um deles—
o celular.
Estico o braço para dentro, tentando pegar o celular.
Sério… quem em sã consciência colocaria o celular dentro de um chinelo?
Isso é simplesmente perturbador.
Como os chinelos estavam bem no meio debaixo da cama, mesmo deitada completamente no chão, ainda era difícil alcançar.
Apoio uma mão no piso e estico a outra o máximo que consigo.
Levo vários minutos até finalmente conseguir puxar o celular para fora.
Mas assim que o tenho nas mãos, surge outro problema.
O livro… nunca mencionou a senha.
Tento várias combinações seguidas.
Nada.
Errado. Sempre errado.
Respiro fundo e tento ligar para a polícia—
Mas então percebo algo ainda pior.
O celular não tem chip.
Merda.
Provavelmente alguém já o removeu.
Forço-me a me acalmar.
Coloco o celular no canto da cama e começo a recapitular tudo o que lembro da história.
Na verdade… isso nem era um romance de terror.
Muito pelo contrário.
Era aquele tipo de história cheia de cenas intensas… todo mundo sabe.
A maioria dos leitores só ligava para o romance explosivo entre a protagonista e o detetive.
Ninguém dava a mínima para a morte da melhor amiga.
Talvez nem a própria autora.
Ela foi se empolgando tanto que abandonou completamente a trama principal…
e a protagonista simplesmente esqueceu que a amiga tinha morrido de forma tão brutal.
Eu penso em sair correndo da casa.
Mas não posso.
Qualquer barulho…
vai denunciar minha posição para o assassino.
E este corpo—
Fraco. Frágil. Sem força nenhuma.
Antes de tudo isso, eu tinha um metro e setenta e oito, era praticamente uma atleta.
Agora?
Mal tenho músculos.
Caminho até a janela e olho para baixo.
A altura não é absurda…
mas uma queda dali ainda pode facilmente quebrar meus ossos.
E o pior—
A dona original desse corpo tinha um gosto… questionável.
Logo abaixo da janela, há um enorme tanque.
Com crocodilos.
Dois deles, deitados ao sol, aparentemente relaxados…
mas os olhos—
Os olhos deles me encontram imediatamente.
Como se estivessem me observando desde o começo.
Solto um suspiro, irritada.
E então me viro—
E, naquele exato instante…
Meu corpo inteiro congela.
Um frio violento sobe dos meus pés até a cabeça.
O celular—
O celular que eu tinha deixado na cama…
sumiu.
Minha respiração dispara.
Não consigo mais fingir calma.
Tem alguém aqui.
Alguém dentro deste quarto.
Alguém pegou o meu celular.
Mas eu tinha acabado de verificar todos os lugares onde alguém poderia se esconder!
…ou será que não?
Respiro fundo várias vezes.
Preciso pensar.
Não há nenhuma arma aqui.
Nada.
A única coisa minimamente útil…
é a pinça de cílios que vi no banheiro.
Quem já usou cílios postiços sabe—
Existe um tipo específico de pinça, usada para extensão, muito mais afiada que o normal.
Sem pensar duas vezes, corro para o banheiro.
Agarro a pequena pinça.
Aperto com força na mão.
No espelho, vejo meu próprio reflexo—
pálida. Assustada. À beira do pânico.
Nunca imaginei que um dia eu usaria uma pinça de cinco centímetros como arma.
Mas é o que eu tenho.
E é o que vai ter que servir.
Assim que tenho certeza de que há alguém no quarto, corro até a porta.
Abro.
Saio.
Tranco novamente por fora.
Desço correndo as escadas, ofegante, até a porta principal no térreo.
E então—
paro.
Quatro cadeados.
Quatro.
Pesados. Sólidos.
Presos à porta.
Porra…
Eu, formada em uma das melhores universidades do país…
agora sou uma garota frágil de um metro e sessenta…
presa dentro da própria casa.
E nesse exato momento—
ouço o som de uma porta se abrindo no andar de cima.