Sem destino.
Desci do carro com os olhos inchados.
Sem perceber, caminhei até a velha casa onde cresci.
Subi as escadas de madeira, úmidas e gastas pelo tempo.
Quando estava prestes a abrir a porta… ouvi vozes familiares.
“Lucas, por que você me afastou? Você sabe que eu gosto de você!”
“Foi um erro! Enquanto o Mateus puder ser feliz, eu não me importo com mais nada!”
“É mesmo? Se você não se importa… então por que voltou escondido pra cá?”
A discussão cessou abruptamente.
Através da fresta da porta, com os cílios ainda molhados, vi a cena lá dentro.
Na janela, estavam colados caracteres vermelhos de “dupla felicidade”.
Na cama, um enxoval vermelho bordado com dragões e fênix.
No chão, tâmaras e amendoins espalhados.
Símbolos de união, fertilidade… de um casamento perfeito.
Se… tudo aquilo não tivesse sido preparado pela minha mãe.
Aqueles enfeites — ela mesma recortou.
O enxoval — ela costurou durante dois anos de quimioterapia.
As tâmaras e amendoins — ela escolheu um a um… antes de morrer.
“Helena… Lucas…”
“Depois que eu me for… cuidem do Mateus…”
Na beira do leito, com as últimas forças, minha mãe amarrou nossas mãos com um rosário de jade.
Eles choraram… prometeram… juraram que não a decepcionariam.
Mas agora…
A mulher que eu mais amava…
e meu melhor amigo…
haviam se tornado marido e mulher…
diante da foto da minha mãe.
O rosário pendurado na cabeceira da cama já estava rompido.
As contas espalhadas pelo chão.
“Você diz que só quer que o Mateus seja feliz… e eu?”
“Quando preparava surpresas pra ele, eu não pensava na felicidade dele… pensava que finalmente poderia te ver de novo.”
“Quando ele ficou doente, eu me preocupava… mas também desejava sair sozinha com você.”
“Quando fomos ver sua apresentação, eu parecia calma… mas passei a tarde inteira escolhendo flores pra você.”
“Você pode chamar isso de erro… mas, no meu coração… você é o meu verdadeiro marido.”
A voz de Helena tremia, os olhos vermelhos de dor.
Nos olhos de Lucas, a imagem dela refletia com nitidez.
Ele não conseguiu mais se conter.
Puxou-a com força para seus braços.
“Eu também não queria… eu realmente não queria que fosse assim…”
As lágrimas escorreram sem controle.
Mordi os dentes com força…
e fugi, como se eu fosse o culpado.
O vento zunia nos meus ouvidos, tentando abafar tudo…
Mas só eu sabia…
o quanto a dor dentro de mim era ensurdecedora.
Corri.
Corri sem parar.
Até que o estômago vazio começou a se contorcer de dor, agravado pelas emoções.
“Dono… uma tigela de macarrão quente…”
Com suor frio na testa, entrei em uma pequena loja.
Quando o dono trouxe o prato, seus olhos se iluminaram.
“Olha só! Não é o Mateus? E cadê seus dois ‘guardiões’?”
Levantei o olhar, fraco…
e reconheci aquele rosto familiar.
Sem perceber meu estado, ele sorriu e me entregou os hashis.
“Lembra quando vocês vinham sempre aqui, lá na antiga loja? Toda semana comiam macarrão de carne… e aqueles dois sempre brigavam pra te dar mais carne.”
“Um tinha medo de você não crescer… o outro de você não engordar. Num piscar de olhos, você já ficou adulto.”
Outro cliente chegou, e ele saiu para atender.
Segurei o choro com todas as forças.
Com lágrimas misturadas ao vapor quente, fui engolindo o macarrão, uma garfada após a outra.
Naquela névoa quente…
parecia que eu ainda via aqueles dois, sempre preocupados comigo.
“Ei, devagar! Vai se queimar!”
Helena me repreendia, tirando o prato das minhas mãos, soprando a comida pacientemente.
“Seu estômago já é ruim… ainda fica comendo chorando? Quem foi que te fez sofrer? Me fala que eu acabo com ele!”
Lucas me entregava um lenço, aflito por eu não dizer nada.
Fiquei olhando fixamente à minha frente…
Como eu queria…
poder ficar preso para sempre naquele momento.
Mas a realidade soprou fria…
e a névoa se dissipou.
Eles… também desapareceram.
Coloquei os hashis de lado.
Fiquei sentado por muito tempo.
Até receber uma mensagem do RH da empresa.
【Sua transferência para a Europa foi aprovada. Partida em dois dias. Prepare suas coisas.】
Respondi apenas: “Ok.”
Paguei a conta.
Sem incomodar o dono…
assim como não tive coragem de perturbar aquelas memórias do passado.
Sozinho, parei na bifurcação da estrada e olhei de volta para a velha casa.
Um leve sorriso de alívio surgiu no meu rosto.
Então… é aqui que termina.
Tudo… acaba aqui.
Voltei para casa.
Tudo estava mergulhado na escuridão.
Parado no escuro, enviei uma mensagem para Helena:
【Um colega me chamou pra ver o jogo na casa dele. Vai ficar tarde, então não volto hoje.】
A resposta veio rápido.
【Tudo bem. Mas não fique acordado até tarde. Seu estômago é sensível, amanhã você precisa tomar café da manhã.】
Sem as perguntas insistentes de antes.
Eu sabia…
que Helena não voltaria naquela noite.
Peguei a mala e comecei a arrumar minhas coisas.
Depois de passar a noite inteira sentado na sala, fui direto para a loja de vestidos de noiva ao amanhecer.
“Mateus, você chegou!”
“Tomou café da manhã? Trouxe pão pra você.”
Assim que entrei, Helena e Lucas vieram me receber.
A funcionária da loja olhava para nós com inveja.
“O noivo é muito sortudo! Sua esposa e seu melhor amigo já estavam aqui te esperando!”
Ao ouvir aquilo, o rosto de Lucas empalideceu por um instante.
Helena percebeu…
e retirou a mão que segurava o pão antes mesmo de me entregar.
Não disse nada.
Como antes, apenas dei um tapinha no ombro de Lucas.
“Ontem bebi refrigerante gelado… meu estômago tá doendo demais. Você pode experimentar o terno por mim?”
“...o quê?”
“Me ajuda aí.”
Fiquei ao lado dele, sorrindo de forma despreocupada.
Helena me puxou de imediato, tirou um remédio para o estômago da bolsa e colocou na minha boca, franzindo a testa.
“Não bebe, mas toma coisa gelada. Quer morrer de dor, é isso?”
Dei uma risadinha…
mas continuei insistindo com Lucas.
Sem saída, ele acabou concordando.
Quando a cortina do provador se abriu…
o salão inteiro ficou em silêncio.
Lucas parecia uma escultura perfeita, em cima do tablado — deslumbrante.
Helena ficou parada, olhando fixamente para ele.
De repente—
CLANG!
Um suporte de vestidos ao lado começou a cair, os tecidos deslizando para o chão.
Os olhos de Helena se arregalaram.
Por instinto, ela correu… e se colocou na frente de Lucas, protegendo-o com o corpo.
Ao mesmo tempo, empurrou o suporte para o lado.
Mas…
nem sequer percebeu que eu estava ali ao lado.
Quis chamar o nome dela.
Mas nem de relance ela olhou para mim.
Toda a atenção dela estava em Lucas.
No instante seguinte, senti uma dor surda.
Um cabide atingiu meu braço — o sangue quente começou a escorrer.
Olhei para baixo…
e senti o coração gelar por completo.
Talvez…
para Helena, eu nunca tenha sido prioridade.
Depois de se certificar de que Lucas estava bem, ela virou a cabeça… e só então me viu, parado ali, segurando o braço.
Seu rosto mudou imediatamente.
Ela e Lucas vieram apressados até mim.
“O que aconteceu? Onde você se machucou?”
A voz dela tremia.
Ela tentou tocar meu braço…
mas eu recuei instintivamente.
Suprimi o amargor dentro de mim e forcei um sorriso.
“Não é nada. Só um arranhão. Não vamos perder tempo, o importante é o terno… o Lucas ainda tá esperando.”
Levantei o olhar.
“Lucas, você ficou incrível com o terno!”
O olhar de Helena foi imediatamente puxado de volta para ele.
“Ficou bonito?”
A funcionária perguntou sorrindo.
“Bonito…”
Helena murmurou, ainda meio perdida.
Mas só depois percebeu que a pergunta não era para Lucas.
“Lindo demais!”
Bati palmas para ele com entusiasmo.
Nos meus olhos, o sorriso carregava lágrimas.
Lucas não percebeu.
Um leve rubor surgiu em suas bochechas, e ele rapidamente fechou a cortina.
Depois disso, ele experimentou vários outros ternos.
O tempo passou…
nem rápido, nem devagar.
Mas Helena nunca desviou o olhar do provador.
Como uma noiva de verdade…
esperando, cheia de alegria, pelo homem que ama.
Observei silenciosamente suas costas.
Peguei o celular…
e comecei a enviar mensagens para a equipe do casamento, uma por uma.
“O que você tá fazendo?”
Em algum momento, Helena se aproximou.
Sem levantar a cabeça, respondi:
“Confirmando os detalhes da cerimônia de amanhã.”
“Mas isso já não tinha sido confirmado?”
“Não tem problema. Quanto mais cuidadoso, melhor.”
Revisei tudo com atenção, palavra por palavra.
Helena me observou por um longo tempo, com uma expressão complicada.
Por fim, hesitou…
e estendeu a mão, tocando levemente meu rosto.
Mas o coração dela já não estava comigo.
Então, até o fim…
ela não percebeu que, no grupo do casamento, o noivo indicado era Lucas.
“Lembre de acordar cedo amanhã. Vou te buscar para o casamento!”
Antes de levá-la ao hotel onde aconteceria a cerimônia, fiquei ao lado de Lucas e acenei com força, sorrindo de forma radiante.
Helena assentiu levemente.
Mas o olhar dela… não estava em mim.
Um minuto depois…
No reflexo do para-brisa do táxi, vi Lucas receber uma mensagem de Helena.
【Eu já disse… você é o único homem que eu considero meu marido. Então transferi todos os meus bens antes do casamento para você.】
【A cerimônia de amanhã… considere como sendo nossa. Esse dinheiro… é o meu dote para me casar com você, mesmo que só em sonho.】
Respirei fundo.
Apertei a palma da mão com força… mantendo o sorriso nos lábios, como se estivesse realmente feliz.
Mas ninguém imaginaria…
que, quando a maquiadora batesse na porta na manhã seguinte…
eu já teria ido embora.
Olhei para a foto dos três no celular.
Sussurrei:
“Feliz casamento.”
E então…
apaguei completamente aquela memória.
A partir daquele momento, o Mateus Valença ingênuo e feliz deixou de existir.
Eu…
e vocês dois…
seguiremos caminhos opostos, separados para sempre.