Capítulo 7
— Não sei quem ele é, mas se realmente é seu marido, acho que não está à altura.
Fiquei sem entender. Aquela casa era apenas para homenagear minha mãe.
Todo ano, nesta época, eu vinha ao velho lar preparar uma refeição.
Anos atrás, quando enfrentávamos risco de desapropriação, meu marido trocou outro terreno de valor incalculável para garantir esta casa.
Não havia sapatos dele no armário, mas o terreno inteiro era um presente dele para mim.
Se ele era “à altura”, Henrique Valente não decidia.
— Por que se empolgar tanto? Você está chateada por ver Clara casada? Quem sabe ela já tenha filhos… — disse Sofia, forçando um sorriso.
O homem, porém, manteve a expressão séria, deixando claro que não daria espaço para ela.
— Sofia Mendes, se não quiser jantar, pode ir embora.
Sofia ficou com o rosto fechado, mas não falou mais nada.
O jantar provavelmente não foi muito agradável para eles.
Eu, porém, estava satisfeita.
No final, Henrique tirou um cartão e colocou na minha frente.
— Há algum dinheiro aqui, use à vontade. Não precisa devolver. Se não for suficiente, depositarei regularmente.
Olhei o cartão dourado, intrigada.
— Por que me dar dinheiro de repente?
— Aquilo que aconteceu, eu já deveria ter compensado.
Fiquei surpresa com a consciência tardia dele, mas sorri por dentro.
Na época do divórcio, ele me dispensou como se fosse uma mendiga, certo de que eu não poderia fazer nada.
Agora, com nossas vidas separadas, de repente me dá dinheiro.
Será que ele tinha certeza de que eu não recusaria?
Brinquei com o cartão e mudei de assunto:
— Se quer mesmo se redimir, vá com sua mãe ao túmulo da minha e façam cem reverências.
— Talvez eu acredite que ainda há um pouco de sinceridade aí.
Ele franziu a testa e ficou em silêncio.
Não esperava que realmente aceitasse.
Joguei o cartão sobre a mesa e me levantei com minha bolsa.
De repente, ele segurou meu pulso.
— Pegue o dinheiro.
— Pense que é para o seu próprio bem.
Puxei minha mão lentamente e firme.
— Henrique Valente, você está extrapolando.
Ele, com os olhos vermelhos:
— Então deixe-me levá-la de volta.
Neguei com a cabeça: — Meu marido virá me buscar, não se preocupe.
Sorri educadamente: — Obrigada pelo jantar. Comi muito bem.
O “drama” estava completo.
Henrique Valente nunca foi impulsivo e nunca agiu cegamente por amor.
Não senti que sua preocupação era por ainda ter sentimentos. Apenas seu jeito…
Sofia, como eu suspeitava, não era tão feliz assim.
Fui ao banheiro, e ao retornar à rua para esperar, ouvi a discussão deles na viela atrás:
— Por que quer que eu fique quieta? Quer que eu veja meu próprio marido se preocupar com outra mulher? Você tem coração?
— Desde que a viu, está distraído. Ao saber que ela tem marido, quase arrancou a própria carne de tanto se culpar. Você acha que sou cega?
— Aquele cartão é seu secundário.
Sua mãe pediu da última vez e você não deu, hoje deu na minha frente!
— Henrique Valente, eu sou o que para você?!
Um tapa ressoou, e os gritos da mulher cessaram imediatamente.
Capítulo 8
A voz de Henrique soou severa:
— Vocês eram amigas. Você tomou o lugar da senhora Valente, usufruiu de riqueza e prestígio, e agora vê como ela está… não sente nada?
— Um pouco de dinheiro e você não aguenta. Imagine quando ela soubesse toda a verdade!
— Não há mais possibilidade entre nós. Por que não a deixa em paz?
O soluço da mulher ecoava, fragmentado.
Eu observava com certa indiferença.
Até que uma limusine preta familiar parou à frente.
Antes que o motorista abrisse a porta, um menino fofo desceu correndo e se jogou nos meus braços, gritando:
— Mamãe!
— Mamãe, você viu o Bubu na TV? Ele foi comportado?
Acariciei seu narizinho, sorrindo:
— Sim, Bubu é incrível.
Uma grande mão o tirou do meu colo, e o rosto bonito do homem que eu tinha visto na TV apareceu, com expressão um pouco irritada:
— Cresceu, mas ainda quer que a mamãe carregue. Sabia que está pesando e cansando ela?
— Papai, você também quer que a mamãe carregue, seu bobo!
Sorri ao vê-los discutir, pronta para entrar no carro.
De repente, a voz incrédula de Henrique soou:
— Clara, quem é ele?
Virei-me e apresentei educadamente:
— Este é meu marido, Lucas Monteiro.
Henrique ficou sem reação por um tempo, incrédulo.
— O senhor Lucas? Ele voltou ao país recentemente, impossível que você esteja casada.
— Clara, há limites para suas mentiras.
Realmente. A família Monteiro sempre foi discreta. Nosso casamento foi no exterior, discreto e bonito, poucos sabiam.
Lucas estendeu a mão para segurar a minha.
— Estes dois são o Sr. e a Sra. Valente?
— Já ouvi minha esposa falar de vocês, prazer em conhecer.
A frase era irônica; Henrique empalideceu.
Ele ficou paralisado, os olhos fixos em nossas mãos entrelaçadas.
Sofia, ao lado, nem lembrou de limpar as lágrimas, olhando atônita enquanto íamos embora.
Na mansão Monteiro, após colocar o menino para dormir, Lucas me seguia passo a passo, como um cão grande e preguiçoso.
Ri e segurei seu rosto:
— O que houve? Só jantamos com eles, éramos apenas três.
— Eu sei… a empregada descobriu isso.
Ele segurava o conjunto de produtos de skincare.
Só então percebi que esquecera deles.
— Bem, se me deram, por que não aceitar? Vou dar para a tia Mina.
— Além disso, eu também trouxe um presente para você.
Peguei a gravata que estava ao lado e comparei no corpo dele.
— Sim, combina.
Os olhos dele brilharam novamente, tentando não admitir que havia se estressado com a situação.
Encostou a cabeça na minha nuca e inalou fundo:
— Amor, esta noite eu te ajudo no banho, vou lavar bem, quase pegou coisa suja…
Pensei que após aquele dia, Henrique Valente e eu não teríamos mais qualquer ligação.
Mas uma semana depois, a empregada do condomínio ligou, aflita:
— Senhora, vim limpar hoje e encontrei um monte de bitucas de cigarro na porta…