Capítulo 5
Usei o celular para fotografar a cena deles na cama, transformei em inúmeros panfletos com textos e enviei a todos os funcionários da empresa.
As faixas denunciando o relacionamento deles se multiplicavam em frente ao prédio.
Fui à faculdade denunciar Sofia Mendes por comportamento indecente.
O fórum da escola de artes dela estava cheio de comentários constrangedores.
Durante a formatura, contratei alguém para exibir, na tela gigante, vídeos nossos juntos, rindo e felizes.
As memórias que eu antes considerava tesouros se tornaram armas para atacar eles.
Mesmo assim, Henrique ainda a protegeu.
Ela se formou na escola de artes mais renomada do país.
E estava prestes a abrir sua própria exposição.
Para proteger Sofia, Henrique finalmente olhou para mim de frente:
— O sonho de Sofia está prestes a se realizar. Nosso rancor não tem nada a ver com isso. Não atrapalhe.
Eu estava cega de raiva.
— Atrapalhar? Eu estou pronta. Os visitantes da exposição vão adorar ver essas “obras-primas”.
De repente, um documento foi jogado diante de mim.
— Se quer preservar a última paz da sua mãe, assine o acordo de divórcio e mantenha distância de mim e de Sofia.
Quando minha mãe foi enterrada, devido à minha dor intensa, quem cuidou de tudo foi Henrique — escolha do túmulo, compra do terreno… tudo.
Devido à escassez de espaço, até os túmulos começaram a ser revendidos.
Se Henrique assinasse aquele documento, minha mãe jamais descansaria em paz.
Joguei café no rosto dele.
Naquela noite, chorei no túmulo da minha mãe até dormir.
No dia seguinte, ainda fui ao cartório.
A situação não era como imaginei — Henrique só me cedeu uma velha casa de família.
— Quando você denunciou problemas fiscais da empresa, grande parte do dinheiro foi congelada. Isso é tudo que posso dar a você.
— Se não fosse pelo pedido de Sofia, você não teria nada.
Nunca pude vencer Henrique. Sempre foi assim.
Ele, calmo e estratégico, usava planejamento e poder para alcançar objetivos.
Eu, impulsiva, agia antes de pensar, prejudicando-me tanto quanto aos outros.
Segui a sua vontade e permaneci quieta.
Vendi a casa e, antes de ir para o sul, fui à exposição de Sofia Mendes.
Decisão de última hora.
No centro da cidade, um grande projetor mostrava o rosto delicado dela. A exposição chamava-se “Chave da Alma”.
Era uma palavra que frequentava nossas cartas na adolescência.
Esperança pura, sonhos de menina, amizade sincera.
Com um último resquício de nostalgia quase auto-destrutiva, entrei na exposição, parecendo um rato espiando a felicidade alheia.
Até que vi a obra intitulada “Chave da Alma”.
Eram dois corpos nus.
A marca no ombro do homem, que eu havia tocado milhares de vezes.
O travesseiro amassado pela mão da mulher, o fundo era a cama com lençol lilás claro, e pela janela, flores de magnólia em plena floração.
Eu mesma havia escolhido essas flores no mercado de plantas.
Era a minha casa.
E também o lugar onde Sofia e Henrique tiveram sua primeira relação.
O coração dela, a chave dele.
Uma onda de náusea me invadiu.
Vomitei no chão, chamando a atenção do casal que recebia convidados ali perto.
A voz suave e delicada deles ainda chegava aos meus ouvidos.
Capítulo 6
— Senhora, você está bem?
O broche em forma de coração no peito dela brilhava tanto que me deixou tonta, combinando perfeitamente com o modelo de chave nos abotoaduras do homem.
Segurei aquele broche com força, arranhando a parede da pintura.
Rasgo!
O som do tecido rasgando ecoou pelo salão, e todos ao redor engoliram em seco.
O caos se espalhou; fui contida pelos seguranças, com o rosto colado ao chão frio.
O homem segurava a mulher chorando e encarava-me como quem olha para um rato no esgoto.
— Chame a polícia — disse ele.
Eu ri. Quanto mais ria, mais alto ficava, assustando todos ao redor.
Como o valor do dano ultrapassava dez mil reais, fui condenada a três anos de prisão, além de ter que indenizar por danos materiais e morais.
No cárcere, várias vezes tentei me matar, mas de alguma forma sempre sobrevivi.
Um ano depois, devido ao bom comportamento, fui libertada, sem possuir praticamente nada.
Mas minha mente estava mais leve.
Quando o carro chegou ao destino, Sofia Mendes foi ao banheiro retocar a maquiagem.
Henrique Valente ficou ao meu lado, pedindo desculpas com voz baixa:
— Desculpe.
— Naquele tempo, realmente estávamos errados. Na próxima, vou falar com a Sofia para ela ter mais cuidado.
Levantei uma sobrancelha; o Henrique de antes jamais se curvaria diante de mim.
Agora, porém, ele pedia desculpas de imediato.
Olhei para ele sem entender.
— Não precisa. Vocês são casados, só que eu acabei lembrando daquela situação. Nada mais.
Nos olhos do homem, um instante de tristeza passou.
Não tentei interpretar.
Felizmente, Sofia voltou, parecendo ter esquecido tudo que aconteceu no carro.
— Antigamente nós três adorávamos juntar dinheiro para comer um hotpot, hoje vamos nos esbaldar!
O homem não parecia muito animado.
— Antigamente, Clara comia hotpot por nossa causa, seu estômago era sensível, não podia muito picante. Você já esqueceu disso?
— Está tudo bem, meu estômago agora está ótimo.
Graças aos anos de cuidados, meu corpo e mente estavam na melhor forma.
De repente, meu celular tocou. Na tela, em letras grandes: “Marido”.
Atendi.
— Amor, levar o pequeno para a TV cansa mais do que eu trabalhar dez dias seguidos. Quando você voltar, vai achar que emagreci.
Ao fundo, a voz infantil do menino:
— Mãe! Hoje papai foi abordado por uma senhora, conversaram animados…
— Garoto, está armando cilada para mim, né? Aquela era a apresentadora!
Sorri ao ouvir a confusão do outro lado.
Olhei para a grande tela do shopping; a imagem do Henrique bonito e impecável enquanto era entrevistado apareceu.
Ao lado, o pequeno menino olhava curioso, a boneca Jade sorria com suas bochechas rosadas.
Depois de alguns minutos, desliguei e tirei uma foto da tela.
Quando enviei, percebi que os dois pararam.
— Clara, você se casou? — perguntou Sofia, incrédula.
Guardei o celular e assenti.
— Quem é ele? É da cidade? Se vocês estiverem passando necessidade, Henrique e eu podemos ajudar.
Antes que eu pudesse recusar, Henrique interrompeu com voz firme:
— Basta, Sofia. Hoje você está realmente sem limites.
— Clara, se você se casou, por que mora sozinha naquela comunidade velha? Vi agora, não há nem um par de chinelos masculinos no armário.