Capítulo 1
No casamento, eu coloquei o buquê no colo da minha melhor amiga, desejando que ela encontrasse a própria felicidade rapidamente.
Minha amiga congelou o sorriso e me repreendeu:
— Não me amaldiçoe, eu vou dedicar o resto da minha vida à arte, não tenho tempo para olhar para homens.
Mas, em menos de um ano, eu a encontrei completamente nua no escritório do meu marido.
Eu causei um escândalo enorme pela cidade, pendurando faixas em frente à empresa para expor o relacionamento sujo dos dois.
Transformei imagens deles na cama em panfletos e distribuí amplamente.
Fui até a faculdade dela e denunciei, fazendo circular o vídeo íntimo durante a cerimônia de formatura.
Mesmo assim, Henrique Valente ainda a protegeu, permitindo que ela se formasse tranquilamente na escola de artes mais renomada do país.
Fiquei cega de raiva e destruí a exposição individual que Henrique havia organizado para ela.
O resultado? Três anos de prisão e a frase cheia de desprezo de Henrique:
— Você conseguiu perdoar sua mãe quando ela teve um caso com meu pai, por que não consegue me perdoar?
Cinco anos após o divórcio, encontrei Henrique em uma loja de artigos de luxo.
A vendedora estava embalando a gravata que eu havia escolhido para meu ex-marido e, ao vê-lo, a voz se tornou animada:
— Senhor Valente, o terno que sua esposa escolheu para você já está pronto.
O homem assentiu levemente, olhando para a gravata em minhas mãos.
— Pague também a dela.
Recusei educadamente, colocando o dinheiro no balcão.
Ele suspirou, parecendo pesaroso:
— Clara, depois de todos esses anos, você ainda me guarda rancor.
Sorri levemente, sem dizer nada.
Não há tempo para guardar ódio.
Eu já havia superado tudo.
Peguei as sacolas, coloquei-as casualmente na bolsa de tecido cheia de compras e me virei para sair.
O vento do início do outono soprava forte. Quando cheguei ao ponto de ônibus, ele bagunçou meus cabelos, dificultando a visão.
Ao afastar os fios, vi o carro de Henrique parado à minha frente.
Percebendo meus olhos vermelhos, ele franziu a testa.
— Entre no carro, eu te levo.
— Não, obrigada, vou de ônibus.
Ele me avaliou da cabeça aos pés. Ao notar minha bolsa de tecido, perguntou cautelosamente:
— Como você tem passado todos esses anos?
— Bem.
Henrique claramente não acreditou.
— Entre, deixe-me te levar.
O ônibus atrás buzinava sem parar, mas ele permaneceu imóvel.
Diante de todos, acabei entrando no carro.
— Condomínio Paz e Vida — disse casualmente o endereço.
O silêncio tomou conta do carro, até que sua voz saiu áspera:
— Por que você mora em um lugar assim? Aquilo já está abandonado há tempos, e você, sozinha… e…
Ele não conseguiu terminar a frase.
Eu, porém, sabia exatamente o que ele queria dizer.
Aquele era o lugar onde minha mãe morreu. Exatamente dez anos atrás, naquele dia, ela se recusou a comparecer ao meu casamento com Henrique.
Ela se jogou do terraço do décimo andar.
O banco de trás era espaçoso, mas o aquecimento estava alto demais, então abaixei um pouco a janela.
— Você sempre pega um resfriado quando sente vento, quer que eu feche de novo? Se estiver calor, posso diminuir a temperatura.
Sorri, balançando a cabeça:
— Já não sinto mais frio, faça o que quiser.
Ele não falou mais nada. Alguns instantes depois, o celular dele tocou.
— Amor, você pegou as roupas? Onde está agora?
A voz no carro era familiar, mas com uma doçura e provocação que me soava estranha.
— Peguei sim, acabei de encontrar a Clara, vou levá-la.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— Clara voltou? Faz tanto tempo… Por que não disse antes? Se vamos nos reunir, por que não me chamou?
Conheço Sofia Mendes há mais de dez anos, e nunca a ouvi falar assim.
Antes, ela era reservada e dedicada à pintura. Quando alguém roubava seu lugar em concursos, apenas se escondia e chorava.
Foi só quando eu peguei um bastão de beisebol e destruí publicamente a obra do outro, denunciando fraudes no concurso e passando três dias na delegacia juvenil, que consegui justiça para ela.
De fato, um amor absoluto pode moldar alguém.
— Foi apenas um encontro por acaso. Ela tinha um compromisso, depois que a deixei, volto.
— Um encontro por acaso significa que temos destino, por que não sair para jantar, amiga antiga?
— Sofia, chega.
Houve silêncio do outro lado.
Henrique sempre era gentil ao acalmar, mas ninguém podia impedir suas decisões.
Sofia certamente sabia disso melhor que eu.
Quando a ligação foi abruptamente cortada, o carro parou em frente ao condomínio.
— Obrigada.
Agradeci educadamente e desci.
O homem recolheu o olhar ao redor e me chamou.
Capítulo 2
— Clara, posso perguntar… essa gravata é para quem?
— Para meu marido.
O homem apoiou a mão na testa e sorriu amargamente, como se achasse que eu ainda estivesse provocando-o.
— Mesma marca, mesmo modelo… você também costumava me dar essas gravatas há cinco anos.
— E daí?
Nos encaramos, meu olhar tranquilo, sem ondas nem tempestades.
— Na verdade, você não precisa fingir diante de mim. Depois de todos esses anos, só quero que você esteja bem… não como está agora.
Como estou agora?
O reflexo no vidro do portão do condomínio mostrava minha sombra: roupas casuais, sapatos baixos comuns e a bolsa de tecido cheia de compras.
Parecia apenas alguém lutando pela própria sobrevivência.
Mas, para mim, que estava acostumada a vestidos luxuosos e joias, esse visual não era ruim.
Sorri, sem raiva.
— Está ótimo assim.
O rosto dele relaxou por um instante.
— Clara… você realmente mudou, não é mais a mesma de antes.
— Sim, muitas pessoas dizem isso.
Dito isso, me virei e fui embora, sem olhar para trás.
Subi cinco andares pelas escadas e abri a porta de casa.
A decoração estava praticamente igual ao ano passado.
Ao lado da velha televisão, a fotografia da minha mãe. A vela em frente a ela já estava apagada.
Com destreza, acendi uma nova vela, coloquei o avental e fui para a cozinha.
Preparei rapidamente três pratos e uma sopa. Na mesa, havia uma tigela de arroz que ninguém tocava; eu mesma comia devagar.
— Mãe, encontrei Henrique Valente.
— Não se preocupe em ficar brava. Ele não pode mais te machucar, e eu não sou mais a mesma de antes.
O único retorno foi o silêncio profundo.
Sem apetite, larguei os talheres e fui para o quarto. Peguei um velho álbum de fotos.
— Olha só a beleza da mamãe naquela época… ver só fotos em preto e branco é sem graça.
Antes mesmo de abrir o álbum, uma foto caiu no chão.
Ao me abaixar para pegar, reconheci os rostos.
Henrique Valente, Sofia Mendes e eu.
Três rostos cheios de juventude sorrindo livremente para a câmera.
Eu estava no meio, segurando os braços dos dois, sorrindo mais que todos — e meu dente da frente do lado direito faltava, dando um ar um pouco desajeitado.
Era o verão quando eu tinha 13 anos.
Cobranças de dívidas chegaram à casa de Henrique, gritando e ameaçando.
Nenhum vizinho ousou ajudar, nem mesmo meus pais.
Mas eu avancei.
O soco que deveria atingir o rosto de Henrique acertou o meu.
Meu dente quebrou na hora, e meu rosto ficou inchado por mais de duas semanas.
Minha mãe ficou com pena e me pediu para não me envolver com a família Valente.
Mas não esperava que a mãe de Henrique, arrastando as pernas com dificuldade, se ajoelhasse diante dos meus pais, agradecendo incessantemente.
Então minha mãe amoleceu.
Durante quase dez anos, sempre havia um par de talheres extra para Henrique na mesa da minha família, roupas novas nos feriados também incluíam um modelo masculino para ele.
Quando minha mãe não estava ocupada, ajudava a mãe de Henrique com a barraca; se alguém ameaçasse, ela não hesitava em enfrentar.
Mas ninguém esperava que a irmã mais nova, sempre tímida e insegura, fosse subir para a cama do marido da irmã.
Quando voltei para casa, tudo estava destruído.
Minha mãe chorava no meio da sala, marcas de dedos visíveis no rosto. Meu pai protegia a mãe de Henrique nos braços com firmeza.
— Vamos nos divorciar. Tudo será seu. Eu só quero a Mariana.
Ao meu lado, Henrique entrou em pânico e tentou segurar a mão de Mariana.
Mas levou dois tapas da minha mãe.
Eu a empurrei. Ela caiu no chão, olhando para mim incrédula.