《O Cheque de 60 Milhões e Meu Recomeço》Capítulo 4

Capítulo 6

Depois daquele dia… a forma como Lucas passou a me “perseguir” mudou.

Não eram mais só marmitas e consultas comunitárias.

Ele começou a aparecer em todos os pequenos espaços da minha rotina.

O dono da frutaria na entrada do condomínio me disse:

— Sofia, tem um rapaz que falou pra anotar tudo o que você comprar na conta dele.

— Ignora.

A atendente do ponto de retirada de encomendas comentou:

— Sofia, chegou uma caixa de ácido fólico importado pra você. É aquele que você tinha pensado em trocar?

Abri.

Na observação da entrega estava escrito:

“Indicado para segundo trimestre. Um comprimido por dia.”

A letra era pequena…

Mas eu reconhecia.

Não devolvi.

Era exatamente o suplemento que eu precisava trocar.

O mais absurdo foi no centro de saúde.

Fui fazer meu cadastro pré-natal.

Estava sentada esperando quando uma senhora ao meu lado me cutucou:

— Você é a Sofia?

— Sou.

— O Dr. Lucas mandou avisar que, se você estiver entediada, pode subir lá no segundo andar. Ele tem água quente pra você.

Eu não subi.

Mas percebi uma coisa.

Todo mundo ali já sabia quem eu era.

A recepcionista:

— Sofia, pode passar na frente, o Dr. Lucas pediu.

A enfermeira:

— Trigêmeos exigem atenção redobrada na pressão. Qualquer coisa, sobe direto pra falar com ele.

Ele tinha transformado o centro de saúde inteiro… numa base de apoio.

Eu não sabia se ficava irritada… ou se ria.

Minha mãe percebeu.

Um dia, durante o jantar, comentou:

— Aquele Montenegro fica rodando na porta do condomínio todo dia. Já virou assunto entre os vizinhos.

— Que assunto?

— Que minha filha tem um pretendente. Bonito… só não sabe sorrir direito.

Continuei comendo.

Fingi que não ouvi.

— A Dona Lúcia ainda veio falar comigo — minha mãe continuou — disse que ele tratou a pressão do marido dela e funcionou muito bem. Perguntou se você não queria reconsiderar.

— Mãe.

— Não falei nada. — ela colocou comida no meu prato — Come.

Meu pai, em silêncio, tomou um gole de chá e disse:

— Se quer conquistar, que mostre algo de verdade. Ficar só deixando marmita na porta não adianta.

Silêncio total.

Ele levantou e foi para o jardim.

Eu e minha mãe nos entreolhamos.

Minha rotina seguiu.

De dia, cuidando da gravidez.

À noite… estudando.

A página que eu tinha salvado…

Eu já tinha aberto inúmeras vezes.

Certificação avançada em nutrição clínica.

Quatro provas.

Duas vezes por ano.

Inscrições até o dia quinze do mês seguinte.

Comprei todos os livros.

Quatro volumes.

Empilhados na cabeceira, ocupando mais espaço que aquele frasco de remédio antigo.

Todas as noites, depois que meus pais dormiam…

Eu sentava no jardim.

A luz do poste era suficiente para ler.

Os insetos cantavam.

O mundo ficava quieto.

Uma noite, já passava da uma da manhã.

Ouvi o som de um carro parando do lado de fora.

Olhei por uma fresta do muro.

Era Lucas.

Voltando do hospital.

Ele não entrou imediatamente.

Ficou ao lado do carro…

Olhando na direção do meu jardim.

A luz ainda estava acesa.

Ele ficou ali por alguns segundos.

Depois deixou uma marmita na porta… e foi embora.

Na manhã seguinte…

Além da marmita, havia um bilhete.

“Não fique acordada até tão tarde.”

Guardei o papel.

Coloquei dentro do primeiro livro.

O exame foi um mês depois.

Fui sozinha.

Quando saí, já era noite.

No celular…

Vinte e três mensagens.

Minha mãe.

Meu pai.

Dona Lúcia.

E uma…

dele.

Eu nem lembrava quando tinha tirado ele da lista de bloqueados.

Provavelmente alguma noite em que mexi no celular meio dormindo.

A mensagem era curta:

“Você está bem?”

Enviada às três da tarde.

Eu não sabia como ele sabia do exame.

Pensei um pouco.

Respondi:

“Estou.”

Quando o resultado saiu…

Passei nas quatro provas.

Sentei no jardim.

Fiquei olhando a palavra “aprovada” por um longo tempo.

Não chorei.

Mas meus olhos ardiam.

Minha mãe trouxe melancia cortada.

— Passou?

— Passei.

— Então come.

Meu pai fez um “hm”.

Era a forma dele de comemorar.

Naquela noite…

Postei uma foto.

Sem legenda.

Quatro livros empilhados.

Em cima, o resultado.

O primeiro curtidor foi Lucas.

O segundo, Dona Lúcia.

O terceiro, a enfermeira do centro de saúde.

Ele não comentou.

Mas meia hora depois…

Uma flor apareceu na porta.

Não era rosa.

Era um pequeno buquê de margaridas, simples, envolto em papel kraft.

Ao lado…

Um bilhete.

“Parabéns.”

Uma palavra.

Coloquei as flores num vaso antigo no jardim.

Reguei.

Sentei.

Olhei para a lua.

Os insetos ainda cantavam.

Coloquei a mão na barriga.

— Meus amores… a mamãe conseguiu. Agora a gente não depende de mais ninguém.

Capítulo 7

Na segunda semana depois de receber minha certificação avançada em nutrição clínica… tomei uma decisão.

Empreender.

A área de nutrição para gestantes praticamente não tinha serviços realmente bons no mercado.

Durante meus três anos no setor de nutrição do Hospital Yanhe, vi muitas grávidas completamente perdidas — sem saber o que comer, o que suplementar, gastando fortunas em produtos inúteis.

Separei um milhão e quinhentos mil dos sessenta milhões.

Aluguei um ponto comercial na rua em frente ao Jardim do Rio.

Pequeno.

Oitenta metros quadrados.

A decoração era simples: limpa, clara… e, logo na entrada, uma parede com meu certificado.

Demorei um pouco para escolher o nome.

No fim, ficou:

“Três Refeições.”

No dia da inauguração, minha mãe insistiu em soltar fogos.

— Mãe, isso nem é mais comum hoje em dia…

— Não importa. Dá sorte.

Meu pai ficou parado na porta, olhando a placa.

Demorou.

— Ficou bom.

Só isso.

Nos primeiros dois meses…

O movimento foi fraco.

A maioria eram gestantes dos condomínios próximos, que entravam por curiosidade.

Eu fazia tudo sozinha:

Planos alimentares.

Consultas.

Acompanhamento.

Conteúdo educativo.

De dia, trabalhava.

À noite, estudava e pesquisava.

Minha barriga crescia.

Meus pés inchavam.

Minha mãe vivia reclamando:

— Você tá grávida de três! Quer se matar trabalhando?

— Tô bem, mãe.

— Seu pai tem razão. Você é teimosa.

Eu era mesmo.

Mas eu queria me sustentar com o que era meu.

Sessenta milhões era muito.

Mas acabava.

Certificado também não bastava.

Só tinha valor… se eu construísse algo com ele.

A virada veio mais rápido do que eu esperava.

Uma tarde, entrou uma mulher bem vestida.

Ela não veio consultar.

Veio direto ao ponto:

— Você é a Sofia Alves?

— Sou.

— Já ouvi falar de você. Dizem que seus planos alimentares eram bons no Yanhe. Tenho algumas pacientes de alto risco com problemas nutricionais. Você consegue assumir?

Naquele mesmo dia, aceitei.

Três casos:

Diabetes gestacional.

Gravidez gemelar com hipotireoidismo.

Histórico de abortos recorrentes.

Monteias estratégias completas.

Acompanhamento semanal.

Ajustes a cada duas semanas.

Dois meses depois…

Todos os indicadores melhoraram.

A médica — Dra. Fernanda Souza — postou:

“Recomendo um excelente consultório de nutrição para gestantes. Profissional, atenciosa e com resultados concretos. As pacientes que encaminhei tiveram ótimos retornos.”

Marcou o endereço.

Meu contato.

A publicação foi compartilhada mais de sessenta vezes.

Na semana seguinte…

Fila na porta.

Comecei a contratar.

Dois recém-formados em nutrição.

Uma pessoa para operação e marketing.

O negócio começou a rodar.

Três meses depois…

“Três Refeições” já era o serviço mais bem avaliado da cidade na área de nutrição para gestantes.

Três hospitais de referência vieram propor parceria.

Minha mãe não dizia muito…

Mas o sorriso dela entregava tudo.

— Minha filha abriu uma empresa!

Ela dizia isso alto, pra todo mundo ouvir.

— Mãe, é só um consultório…

— Só?! Você viu a fila lá fora?!

Lucas também soube.

Ele não comentou nada.

Mas…

Durante as consultas comunitárias, ele começou a perguntar:

— Está fazendo acompanhamento nutricional? Tem um lugar muito bom ali em frente ao Jardim do Rio.

Foi a enfermeira que me contou.

— Sofia, o Dr. Lucas está te trazendo cliente todo dia.

Eu não respondi.

Mas…

baixei a cabeça… sorrindo.

Nessa fase…

A forma como ele me tratava mudou.

Nada de marmitas.

Nada de me esperar na porta.

Ele simplesmente…

estava ali.

Consultas comunitárias às terças e quintas.

Às vezes, quando eu passava, via ele atendendo pacientes.

Sério.

Calmo.

Como sempre.

Ele quase não postava nas redes sociais.

Mas…

curtia tudo o que eu postava.

Sem comentar.

Só curtia.

Um dia, postei uma foto de uma planta nova no consultório.

Legenda: “Nova colega de trabalho.”

Ele curtiu.

Dez minutos depois…

comentou:

— Precisa de alguém pra regar?

Dona Lúcia respondeu primeiro:

— Esse rapaz tem senso de humor!

Minha mãe respondeu depois:

— Para com isso.

Eu não respondi.

Mas também… não apaguei.

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