《O Cheque de 60 Milhões e Meu Recomeço》Capítulo 3

Capítulo 4

— Dr. Lucas.

Minha voz saiu calma.

— O acordo já foi encerrado. Não tenho obrigação de informar meu paradeiro.

Do outro lado da linha, houve uma breve pausa.

— Aquele e-mail… não fui eu quem enviou.

— Eu sei.

Ele claramente não esperava essa resposta.

— Você sabe?

— O Dr. Lucas nunca usa ponto final nos e-mails. Naquele… todas as frases tinham ponto. — encostei na porta do jardim, como se estivesse comentando o clima — Mas isso não importa. O dinheiro caiu, o documento foi assinado. Acabou.

— O acordo não tem minha assinatura. Só o carimbo do escritório. Legalmente…

— E o que você pretende fazer? Pedir os sessenta milhões de volta?

Silêncio.

— Se não pretende, então está tudo certo. — falei — Dr. Lucas, não desperdice seu tempo. Sua agenda de cirurgias já deve estar cheia.

— Sofia.

— Sim?

— O remédio… foi você quem comprou.

Não era uma pergunta.

Eu não esperava por isso.

Fiquei em silêncio por dois segundos.

— Comprei na farmácia. Doze reais o frasco. Você tem problema no estômago… devia beber menos café.

Do outro lado… silêncio.

Esperei alguns segundos.

— Se não tem mais nada, vou desligar.

Desliguei.

Bloqueei.

Quando coloquei o celular na mesa, minha mãe apareceu na porta da cozinha, segurando um punhado de alho.

— Quem era?

— Lucas Montenegro.

— Ah.

Ela jogou o alho na tábua.

— Vai comer alguma coisa? Posso esquentar um mingau pra você.

Sem comentários.

Sem perguntas.

Uma tigela de mingau… dizia tudo.

Três dias depois.

Hospital Yanhe.

Lucas não fez coletiva, não fez anúncio formal.

Ele só fez uma coisa.

Na reunião semanal do departamento, com trinta e sete pessoas sentadas na sala, ele apresentou casos clínicos por vinte minutos.

E, no final, disse apenas:

— Tenho um comunicado.

Silêncio.

— Recentemente, alguém utilizou minha conta de e-mail profissional para enviar mensagens falsas, se passando por mim em assuntos pessoais. Isso resultou em consequências graves. Após investigação, a responsável é a médica da cardiologia, Isabela Rocha. O caso já foi encaminhado à comissão disciplinar.

A sala inteira ficou em silêncio.

— Isso é um assunto pessoal, e não deveria ocupar o tempo de todos. Mas quero deixar claro: o término do meu acordo com Sofia Alves não foi uma decisão minha.

Ele fechou o notebook.

— Encerrado.

Saiu.

Assim que ele deixou a sala… o hospital inteiro explodiu em comentários.

Primeiro, o grupo de enfermeiras.

Depois, os grupos internos.

Depois, a cantina.

Depois, os representantes farmacêuticos.

Depois… outros hospitais.

Em menos de vinte e quatro horas, todo o meio médico sabia:

Lucas Montenegro, do Yanhe… teve a esposa “perdida” por causa de um e-mail falso.

Para Isabela… a situação foi ainda pior.

Antes, ela era “a mulher mais compatível com Lucas Montenegro”.

Agora… virou “a médica que invadiu o computador dele”.

Projetos cancelados.

Nome retirado de pesquisas.

Colegas desviando o olhar nos corredores.

Ela virou motivo de piada.

Mas eu não sabia de nada disso.

Eu estava em casa, colando papel de parede no quarto dos bebês.

Minha mãe ao lado, comandando:

— Tá torto! Abaixa mais! Esse amarelo não ficou bom, pega aquele mais claro!

Meu pai na sala:

— Deixa sua mãe descansar! A coluna dela ainda tá ruim!

A casa estava barulhenta.

Quente.

Viva.

Eu quase tinha esquecido que, um mês atrás… eu era invisível na casa dos Montenegro.

Até que Helena Montenegro apareceu na minha porta.

Naquela manhã, eu estava regando as plantas.

A campainha tocou.

Abri.

Ela estava ali, de roupa escura, expressão fria. Camila ao lado, braços cruzados.

— Sofia. As crianças que você carrega são da família Montenegro. Arrume suas coisas e volte conosco.

Direta. Sem rodeios.

Antes que eu respondesse, minha mãe apareceu atrás de mim.

Avental, mãos sujas de farinha.

— Quem é você, gritando na porta da minha casa de manhã cedo?

Helena a analisou de cima a baixo.

— A senhora é a mãe da Sofia? Sou Helena Montenegro. Precisamos conversar sobre as crianças.

— Conversar o quê? — minha mãe cruzou os braços — Quando minha filha morava na casa de vocês, lembraram dela? Alguma vez convidaram ela pra sentar na mesa?

— Isso é outra questão…

— Não é não. — minha mãe interrompeu — Lá ela era “a garota da agência matrimonial”. Agora que tem filhos, virou da família?

O rosto de Helena mudou.

Camila não aguentou:

— A senhora sabe com quem está falando?

— Não sei, nem quero saber.

Nesse momento, meu pai saiu de casa.

Andava devagar, mas quando parou na porta… sua postura estava firme.

Olhou para Helena… ignorou.

Virou-se para mim:

— Sofia, entra.

— Pai, eu—

— Entra.

Não era um pedido.

Entrei.

Depois, minha mãe me contou o que aconteceu.

Meu pai disse apenas uma frase:

— As crianças ficam com minha filha. O sobrenome é Alves. Se quiserem discutir, procurem a justiça.

Camila reagiu:

— Vocês têm dinheiro pra advogado?

Minha voz veio de dentro da casa:

— Tenho. Sessenta milhões. Dá pra contratar o melhor da cidade.

Silêncio.

Helena ficou pálida.

No final, puxou Camila e foi embora.

A porta do carro bateu tão forte que ecoou pela rua inteira.

Meu pai voltou, sentou-se e massageou a coluna.

Minha mãe foi pegar remédio, reclamando:

— Gente sem noção… tratando criança como mercadoria!

Servi um copo de água para meu pai.

Ele tomou um gole.

— Não precisa ter medo.

— Eu sei.

Naquela noite, depois que meus pais dormiram…

Eu sentei no jardim.

O céu estava limpo.

Peguei o celular.

Abri o navegador.

Digitei:

“Requisitos para certificação avançada em nutrição clínica”

Fiquei olhando por muito tempo.

Depois… salvei a página.

Capítulo 5

Lucas encontrou o endereço do Jardim do Rio em menos de um dia.

Mas não foi direto bater à porta.

Ele fez algo ainda mais absurdo.

A trezentos metros do portão leste do condomínio, havia um pequeno centro comunitário de saúde.

Nada demais. Alguns clínicos gerais, consultas simples, pressão alta, resfriado…

Certa manhã, apareceu um aviso no mural:

“A partir desta semana, o especialista em neurocirurgia do Hospital Yanhe, Dr. Lucas Montenegro, realizará atendimentos gratuitos todas as terças e quintas pela manhã neste centro.”

A notícia se espalhou mais rápido que vírus.

Na terça, às oito da manhã, mais de duzentas pessoas estavam na fila.

Não para consultar.

Para ver ele.

— É ele mesmo? O médico do Yanhe?

— Dizem que ele veio por causa da ex-mulher…

— Sério?!

Eu soube disso pela Dona Lúcia.

Vizinha do andar de cima. Professora de português aposentada. Central oficial de fofocas do condomínio.

— Sofia, seu ex-marido não se chama Montenegro?

— Por quê?

— Apareceu um médico lindíssimo no postinho ali fora. Dizem que é o Lucas Montenegro. E olha que coincidência… ele atende exatamente nos dias que você costuma sair.

Eu não respondi.

Na terça de manhã, fui comprar legumes.

Passei em frente ao centro de saúde e olhei discretamente.

Ele estava no segundo andar.

De jaleco.

Concentrado.

Medindo a pressão de uma senhora idosa com a mesma seriedade de quem faz uma cirurgia no cérebro.

Desviei o olhar.

Fui embora.

Nos encontramos de verdade três dias depois.

Fim de tarde.

Eu estava entrando no condomínio com um vaso novo nas mãos.

Ele estava parado na entrada.

Camisa branca.

Sem jaleco.

Segurando uma marmita térmica.

— Sofia.

Olhei para ele.

Não parei.

— Fiz uma sopa pra você. Costela com raiz de lótus. Boa pra gestante.

— Não preciso.

— Prova um pouco.

— Dr. Lucas, eu já disse que não preciso.

Passei o cartão.

A porta se fechou na cara dele.

No dia seguinte…

A marmita apareceu na porta da minha casa.

Fria.

Minha mãe abriu, olhou… e fechou.

— De quem é?

— Do Lucas.

— Ah.

Colocou de volta no sapateiro.

— À noite eu faço uma melhor pra você.

A partir desse dia…

A marmita aparecia todos os dias.

Café da manhã: mingau.

Almoço: sopa.

Às vezes, frutas já cortadas.

Eu nunca aceitei.

Todas as noites, minha mãe devolvia.

Uma vez, olhei pela fresta da cortina.

Ele estava lá fora, abaixado, pegando a marmita.

A luz do poste alongava sua sombra.

Muito longa.

Sábado.

Dia de consulta pré-natal.

Chovia forte.

Chamei carro por aplicativo três vezes.

Todos cancelaram.

Eu estava na entrada do condomínio, debaixo da marquise, tentando chamar o quarto…

Quando um carro preto parou na minha frente.

O vidro abaixou.

Era ele.

— Entra.

— Não precisa.

— Sofia. — a voz dele saiu mais firme — Você está grávida de três. Ficar na chuva não é opção.

Olhei para a chuva.

Depois para o aplicativo cheio de cancelamentos.

Três segundos.

Entrei.

O caminho inteiro…

Silêncio.

Só o som da chuva batendo no carro.

No hospital, ele insistiu em entrar comigo.

Eu não quis discutir.

Deixei.

Na sala de ultrassom…

O gel frio.

A tela acendeu.

Três pequenos corpos.

— Estão todos bem. Desenvolvimento normal. Olha esse aqui… está chutando.

Eu vi.

E vi também…

Ele.

Lucas estava completamente imóvel.

A mão apoiada na cadeira.

Os dedos brancos.

— Isso…

— Trigêmeos. — falei — Meus.

Ele virou para mim.

O olhar… era complicado.

Surpresa.

Incredulidade.

Algo mais.

— Sofia… por que você não me contou?

— Não estava no contrato.

Ele abriu a boca.

Mas não disse nada.

Saímos da sala.

Ele caminhava ao meu lado, mais devagar.

No elevador, ele colocou a mão para impedir a porta de fechar.

— Sofia.

— Sim?

— A partir de agora… eu te levo nas consultas.

— Não precisa.

— Não estou perguntando.

Olhei para ele.

Ele olhou para mim.

A porta do elevador tentou fechar duas vezes.

Ele impediu.

Eu entrei.

Ele entrou logo depois.

Durante a descida…

A mão dele ficou ao lado da minha cintura.

Sem tocar.

Mas sempre ali.

Como se eu pudesse cair a qualquer momento.

Na volta, a chuva já tinha parado.

Ele estacionou na entrada do condomínio.

O carro ainda ligado.

— Obrigada.

Abri a porta.

— Sofia.

Olhei para trás.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Desculpa.

Não respondi.

Fechei a porta.

Fui embora.

Quando entrei em casa…

Percebi que minhas mãos estavam suadas.

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