《O Cheque de 60 Milhões e Meu Recomeço》Capítulo 1

Capítulo 1

No dia em que descobri que estava grávida de trigêmeos, eu estava sentada numa cadeira de plástico no corredor do hospital comunitário, calculando quanto gastaria com leite em pó.

Meu celular vibrou com um novo e-mail.

Remetente: Lucas Montenegro.

Uma única frase:

“Acordo encerrado. Sessenta milhões quitados. Desocupar o imóvel até o fim do mês.”

Olhei por três segundos.

Depois abri a resposta e digitei com calma:

“Recebido. Eu mesma marco o cartório. Não precisa esperar até o fim do mês. Podemos resolver amanhã.”

Sessenta milhões.

Três crianças. Vinte milhões para cada.

Era o suficiente.

No dia em que assinei, saí da casa dos Montenegro com apenas uma mochila nas costas. O sol brilhava forte.

Mais tarde, todo o setor médico comentava: Lucas Montenegro tinha vasculhado metade das câmeras da cidade… só para encontrar a ex-mulher que sumiu com sessenta milhões.

Na porta da sala de ultrassom havia umas sete ou oito pessoas na fila. Eu era a última.

Quando o aparelho encostou na minha barriga, estava frio o suficiente para me fazer encolher.

A médica olhava para a tela. Sua expressão passou de normal para confusa… e depois para surpresa.

Ela moveu o aparelho de um lado para o outro, conferindo várias vezes.

— Foi gravidez natural?

— Foi.

Ela tirou os óculos, limpou, colocou de volta… e olhou de novo.

— São três. Três sacos gestacionais. Todos com batimento.

Minha cabeça zumbiu.

Trigêmeos.

Quando saí da sala, minhas pernas estavam um pouco bambas.

Sentei novamente na cadeira de plástico do corredor e peguei o celular, abrindo a calculadora.

Leite em pó: dois mil por mês por criança. Três, seis mil.

Fraldas: oitocentos por criança. Três, dois mil e quatrocentos.

Consultas, suplementos, creche no futuro…

Os números só aumentavam.

Fechei a calculadora e fiquei olhando para o teto por alguns segundos.

Foi quando apareceu uma notificação no topo da tela.

Novo e-mail.

Remetente: Lucas Montenegro.

Fiquei um pouco surpresa.

Lucas Montenegro — o homem com quem me casei por meio de uma agência matrimonial, sob um acordo.

Ele nunca me mandava e-mails.

Quando tinha algo a dizer, mandava o assistente falar… ou deixava um bilhete na bancada da cozinha.

Abri.

Assunto: Encerramento do acordo.

O texto era curto:

“À Sra. Sofia Alves: após consideração, o acordo será encerrado antecipadamente. Em anexo, o documento de rescisão e o plano de liquidação financeira. Valor: 60.000.000 de RMB. Favor desocupar o imóvel até o fim do mês. Em caso de dúvidas, contatar o advogado Ricardo Teixeira. Lucas Montenegro.”

Sessenta milhões.

Segurei o celular, sentindo um arrepio subir pelas costas.

Não era frio.

Era alegria.

Abri a resposta. Minhas mãos estavam firmes.

“Dr. Lucas, recebido. Eu mesma agendo o cartório. Não precisa esperar até o fim do mês. Amanhã está disponível? Podemos resolver amanhã.”

Enviar.

Coloquei o celular sobre os joelhos e olhei para a janela suja no fim do corredor.

Um sorriso lento apareceu no meu rosto.

Trigêmeos.

Sessenta milhões.

Abaixei a cabeça e acariciei a barriga, falando bem baixinho:

— Vinte milhões para cada um… vocês três vão viver muito bem.

Na manhã seguinte, no cartório.

Eu escolhi um lugar bem longe da área da família Montenegro — no terceiro andar de um prédio antigo na zona leste.

Lucas não apareceu.

Quem veio foi o advogado dele, Ricardo Teixeira.

Terno cinza, óculos de armação preta, uma pasta de documentos debaixo do braço.

— Sra. Sofia, aqui estão os documentos de rescisão e o detalhamento financeiro. O Sr. Lucas me autorizou a representá-lo integralmente.

Peguei os papéis e fui direto para a última página.

O campo da parte A já estava carimbado com o selo do escritório, junto de uma procuração.

Peguei a caneta e assinei meu nome no campo da parte B.

Ricardo hesitou por um segundo.

— A senhora não quer revisar as cláusulas? Existem termos sobre…

— Não precisa. Desde que os sessenta milhões sejam transferidos.

Empurrei os documentos de volta.

Ele abriu a boca, mas acabou ficando em silêncio.

Provavelmente ele tinha preparado várias situações:

Se eu chorasse.

Se eu fizesse escândalo.

Se eu pedisse para ver Lucas.

Nenhuma aconteceu.

Quando saí do prédio, estava chovendo.

Abri o guarda-chuva dobrável e respirei fundo.

Voltei à casa dos Montenegro ao meio-dia para pegar minhas coisas.

Dona Helena estava no salão de beleza. Camila na escola. A empregada cochilava na cozinha.

Ninguém percebeu minha chegada.

Eu não tinha muita coisa.

Tudo coube na mochila.

Metade direita do guarda-roupa do quarto de hóspedes era minha — algumas roupas de estação, dois livros, um nécessaire.

A porta do quarto principal ao lado estava entreaberta. Eu não entrava ali havia um ano.

Antes de sair, dei uma olhada na mesa de cabeceira.

Um frasco de remédio para o estômago.

Lucas tinha problemas gástricos. Fazia cirurgias seguidas, vivia à base de café para aguentar.

Uma vez acordei de madrugada para beber água e ouvi um barulho no quarto dele.

A porta estava entreaberta. Vi ele sentado na beira da cama, curvado, uma mão apoiada no joelho, o rosto pálido.

No dia seguinte, comprei um remédio e deixei na porta do quarto.

Depois disso, sempre que o frasco estava acabando, eu colocava outro novo no lugar.

Ele provavelmente achava que era a empregada.

Peguei o frasco. Ainda restava um terço.

Coloquei de volta.

O último.

Quando acabasse… não teria mais.

Deixei o crachá e a chave reserva no armário da entrada. Não deixei bilhete.

A porta se fechou atrás de mim com um som leve.

Saí do condomínio com a mochila nas costas.

A estação de metrô ficava a trezentos metros. Nem rápido, nem devagar.

Quando passei o cartão na catraca, ela apitou e a luz verde acendeu.

De repente, achei aquele som incrivelmente bonito.

Como se eu tivesse passado de fase.

 

Capítulo 2

O metrô não estava cheio.

Sentei num canto e abri o aplicativo do banco.

Sessenta milhões.

Depositados.

Uma sequência interminável de zeros brilhava na tela.

Contei duas vezes, só para ter certeza de que não estava vendo errado.

Diminuí o brilho do celular ao mínimo — vai que alguém ao lado vê e chama a polícia.

Sessenta milhões… o que isso significa?

Meu salário mensal no setor de nutrição do Hospital Yanhe era de sete mil e duzentos.

Sem gastar um centavo, eu levaria seis mil novecentos e quarenta e quatro anos para juntar isso.

E agora… estava ali. Na minha conta.

Encostei no banco e soltei o ar devagar.

Então tomei uma decisão.

Quando saí do metrô, não fui procurar um apartamento barato.

Peguei um carro por aplicativo e fui direto para o Residencial Jardim do Rio.

Eu já vinha observando aquele lugar há muito tempo.

À beira do rio, casas com jardim privativo, tranquilas, discretas… perfeitas para criar filhos.

Antes, quando passava por ali, só olhava de longe. Nem coragem de entrar no stand de vendas eu tinha.

Mas hoje… era diferente.

Quando entrei, a recepcionista me lançou um olhar rápido.

O sorriso era educado, mas o olhar… nem tanto.

— Boa tarde, senhora. Está procurando qual tipo de imóvel? Nossas unidades começam a partir de oito milhões.

Ela enfatizou “oito milhões” com bastante força.

— Não quero as menores. Quero as casas com jardim no térreo. Ainda tem?

O sorriso dela travou por meio segundo.

— Nesse caso… os valores ficam entre vinte e cinco e trinta milhões, dependendo da metragem e da posição. A senhora quer apenas conhecer ou…

— Quero ver o imóvel.

Ela claramente achou que eu estava fazendo perder tempo, mas mesmo assim me levou.

A sala tinha pé-direito alto.

As janelas eram de vidro do chão ao teto, dando direto para o jardim… com vista para o rio.

Três quartos, todos voltados para o sol.

A suíte principal tinha um closet enorme.

Fiquei parada no jardim por um tempo.

Imaginei três crianças correndo pela grama, rolando, rindo…

— Quanto custa essa?

— Vinte e oito milhões.

— Pagamento à vista… tem desconto?

A expressão dela finalmente quebrou.

Era praticamente um “senhora, por favor, pare”.

— À vista podemos fazer 2% de desconto… mas precisamos de comprovação de renda…

Peguei o celular, abri o aplicativo do banco e entreguei para ela.

Ela olhou.

Levantou os olhos.

Olhou de novo.

— Um momento… vou chamar o gerente.

Três minutos depois, o gerente apareceu pessoalmente… com café na mão.

— Senhora, seja muito bem-vinda! Essa unidade é o destaque do nosso projeto, excelente escolha…

Meia hora depois, paguei o sinal.

Os trâmites levariam cerca de uma semana, mas ele disse que poderia acelerar.

Três dias.

Quando saí, já estava anoitecendo.

O vento vindo do rio era fresco, com cheiro de água.

Fiquei parada na calçada e liguei para minha mãe.

— Sofia, já almoçou?

— Já. Mãe… preciso te contar uma coisa. Eu saí da casa dos Montenegro. O acordo terminou.

Silêncio por dois segundos.

— Terminou, terminou. Está com dinheiro suficiente?

— Estou. Mãe… comprei uma casa.

— Comprou uma casa?! — a voz dela subiu — Com que dinheiro?

— Ele me deu uma compensação.

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