Capítulo 1
“Você quer abrir mão do noivado?”
Roberto Andrade achou que tinha ouvido errado:
“Você gostou dele desde pequena! No ritual de escolher objetos quando era bebê, em vez de pegar os livros que eu e sua mãe preparamos, você pegou justamente o Rafael Guimarães!”
Eu abaixei a cabeça, entrelaçando os dedos com força:
“Isso foi coisa de criança…”
Meu pai não é alguém que me obrigaria.
Ele me observou por um momento e suspirou:
“Tudo bem. Afinal, a família Andrade não tem só você de filha. Suas primas ainda estariam dispostas a aceitar.”
“Pai, pode dar para uma prima mais nova?”
“Que prima mais nova?”
Ele arregalou os olhos:
“Você é a mais nova da sua geração.”
Hã?
Eu sempre achei que a “irmã” de que Rafael Guimarães falava fosse alguma parente distante que eu não conhecia.
“Mas… alguém mais nova que você até existe.”
Meu pai suspirou novamente:
“Só que… você sabe…”
Baixei o olhar.
Sim… além da irmã que morreu logo ao nascer, eu não tinha mais nenhuma outra irmã.
“Pai, quero escolher o parceiro do casamento arranjado. Por enquanto, não conte para a família Guimarães que vou cancelar o noivado.”
Com o coração cheio de pensamentos confusos, saí de casa e fui ao cemitério.
Lá, minha irmã estava enterrada junto com minha mãe.
Primeiro, levei flores para minha mãe.
Depois, coloquei gelatinas congeladas e salgadinhos diante da lápide menor.
Olhei para a lápide sem nem mesmo uma foto:
“Irmãzinha… se você estiver me ouvindo do céu, me ajude… ajude sua irmã a encontrar a ‘irmã’ de que o Rafael falou, está bem?”
Fiquei ali com ela por um tempo e depois me virei para ir embora.
Outro Maybach estava estacionado ao lado do meu carro.
Rafael Guimarães desceu segurando flores.
No momento em que levantamos o olhar, ficamos ambos paralisados.
Tantas palavras vieram à mente, mas eu não sabia por onde começar.
Meus lábios tremeram.
Eu queria perguntar se ele também veio visitar a irmã.
Até ver os cravos em suas mãos.
Só então me lembrei… hoje também era Dia das Mães.
“Você veio… visitar a minha mãe?”
Ele sorriu com ironia:
“Sim. Já que alguém decidiu o meu casamento por mim, é claro que eu tinha que vir…”
Ele me encarou:
“dar os parabéns.”
Essas três palavras foram ditas com os dentes cerrados.
Fechei os punhos, segurando as lágrimas:
“Fica tranquilo. Se a pessoa que você ama ainda estiver viva, eu com certeza vou deixar vocês dois ficarem juntos!”
“Camila Andrade!”
Tirando a vida passada, essa foi a primeira vez que ele gritou comigo:
“Não diga isso.”
Olhei para ele com os olhos vermelhos:
“Eu estou falando sério!”
“Camila Andrade.”
Ele passou por mim.