《Dez Anos de Destruição: Até a Última Respiração​》Capítulo 4

Capítulo 4

Em três anos, minha mãe também morreu.

Eu vivia de um trabalho em que a morte estava sempre à espreita. Matei muitas pessoas — e, ao mesmo tempo, também me tornei presa de outros.

Todas as minhas economias foram usadas para comprar aquela confeitaria. Agora que ela havia sido destruída, eu nem sabia para onde ir.

Talvez porque a dor voltasse a se espalhar por cada parte do meu corpo, eu já não tinha forças nem para me mover. Então simplesmente me sentei no meio daquele caos, deixando que a chuva da noite encharcasse todo o meu corpo.

De um dia para o outro, as manchetes de todos os jornais de Porto Victoria passaram a estampar:

“O herdeiro da família Lu retorna e se vinga de seu antigo amor.”

Quando o sol nasceu, preparei-me para ir embora.

Antes de partir, diante das ruínas completamente destruídas, ajoelhei-me lentamente e bati a cabeça no chão três vezes.

Leonardo apareceu em algum momento sem que eu percebesse.

Com apenas uma mão, ele me puxou do chão.

— É só uma confeitaria miserável. Vale mesmo tudo isso?

Afastei a mão dele e me firmei.

Então levantei a mão e dei três tapas fortes e secos no rosto dele.

— As tábuas memoriais dos meus pais estavam dentro da loja. Agora desapareceram — disse calmamente. — Claro que eu precisava me ajoelhar.

Ele pressionou a língua contra o lado do rosto que havia sido atingido e, de repente, arqueou a sobrancelha com um sorriso.

— É mesmo? Três tapas em troca do memorial da sua mãe… parece que fui eu quem saiu ganhando.

Não respondi.

Apenas olhei para as ruínas à minha frente.

Atrás de mim, ele continuava falando aquelas palavras que claramente pretendiam cravar-se no meu coração.

— Valentina, estou falando com você.

Fingi não ouvir e continuei caminhando para fora.

Ele deu alguns passos rápidos e bloqueou meu caminho.

— Não finja indiferença comigo! Olhe para você! Está pálida como papel, nesse estado horrível, e ainda quer bancar a forte?

— É só minha velha doença voltando. Faz a pessoa parecer um pouco cansada — ergui os olhos e forcei um sorriso sem calor. — Leonardo, você realmente acha que é tão importante assim para conseguir me afetar?

Mas eu sabia muito bem.

Ele tinha voltado desta vez apenas para me atormentar.

Se meu corpo ainda estivesse como antes, eu não me importaria de brincar com ele mais uma vez.

Talvez até deixasse que ele sentisse o gosto de ter os ossos quebrados e os tendões rompidos.

Mas agora, apenas ficar de pé já consumia toda a minha energia.

No hospital, o cheiro de desinfetante era tão forte que causava náusea.

Vários médicos observavam minhas radiografias e exames, trocando olhares preocupados.

— Do remédio que te receitamos da última vez… quanto ainda resta?

— Acabou.

— Acabou?! — o doutor Li levantou a voz abruptamente. — Aquilo era para três meses! E isso foi há apenas uma semana!

O doutor Li cuidava da minha doença havia muito tempo.

O jeito hesitante com que ele me olhava naquele momento me fez entender instantaneamente:

talvez eu realmente não tivesse muito tempo.

— Você… tem mais alguém na família? — perguntou ele com cautela.

— Doutor Li, esqueceu? — respondi sem emoção. — Meu pai morreu há muito tempo. Minha mãe também. Só restou eu.

Ele tirou os óculos e pressionou os dedos contra a testa.

— Nos últimos três anos sua condição estava relativamente estável… por que nesta última semana…

Olhei para a tela do celular.

Uma notícia aparecia automaticamente:

Leonardo, com o braço em volta de Sofia, participando de um evento.

A foto deles juntos chamava mais atenção do que qualquer outra coisa.

Eu achava que já não me importava com aquela pessoa.

Mas ele ainda era capaz de me ferir mais profundamente que qualquer um.

Leonardo sempre foi a faca mais afiada do meu destino.

Uma faca que mata sem derramar sangue.

— A sua situação é extremamente grave — continuou o médico. — Depois que você parou a medicação, sete dias, um mês ou três meses… qualquer período pode se tornar crítico.

Ele me entregou um pequeno frasco de remédio.

— Leve isto. Quando a dor vier, tome três comprimidos. Lembre-se: no máximo três…

Ele nem terminou de falar.

Eu já tinha aberto o frasco, despejado um punhado na mão e engolido tudo de uma vez, sem água.

Quantos comprimidos eram não importava.

Desde que conseguissem suprimir aquela dor que corroía os ossos.

Sete dias ou três meses.

Para mim, não havia diferença.

Depois de tomar o remédio, sentei-me no canto mais discreto do corredor do hospital.

Encostei as costas na parede fria de azulejos.

Foi um truque que descobri sozinha.

Se o corpo esfriar o suficiente, até a dor diminui um pouco.

O suor frio escorria em ondas, encharcando minha roupa fina.

Durante dez minutos, ouvi as orações e choros vindos da porta da sala de cirurgia ao lado.

Todos aqueles desejos mais sinceros estavam depositados naquele instante entre a vida e a morte.

— Mamãe, aquela irmã não é a moça que estava no leito ao lado do nosso antes? Devíamos nos despedir dela?

— A doença dela… não tem mais cura. Não vamos incomodá-la. Ah… que criança infeliz. Sem pai nem mãe, e com uma doença tão grave… no fim, talvez nem tenha quem cuide do funeral.

A garotinha levantou a cabeça, confusa.

— Mas… neste mundo sempre vai existir alguém que se importe com ela, não é?

Pisguei com força, tentando clarear minha visão embaçada.

Olhei para a tela do celular.

Era uma mensagem de Leonardo.

Desde a noite passada, ele não parava de mandar mensagens perguntando que tipo de compensação eu queria.

Pensei por um momento.

Talvez não exista ninguém que se importe comigo.

Mas alguém para recolher meu corpo… talvez exista.

Disquei aquele número que eu sabia de cor há muito tempo.

A ligação foi atendida quase imediatamente.

— Já decidiu o que quer?

Respirei fundo e engoli o gosto salgado que subia pela garganta.

— Se realmente quer me compensar… Leonardo, então recolha meu corpo quando eu morrer.

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