Capítulo 1
Meu pai e a mãe do meu amigo de infância morreram na mesma cama.
Quando foram encontrados, seus corpos ainda estavam unidos de forma indecente.
Naquele instante, o mundo dele e o meu desmoronou por completo.
Ele dirigiu o carro e destruiu o altar funerário do meu pai.
E eu, sem dizer uma palavra, esmaguei a urna com as cinzas da mãe dele no cais, onde o vento soprava mais forte.
Nosso ódio era louco, violento — como lâminas mergulhadas em veneno. Durante dez anos, nos ferimos mutuamente até a exaustão.
No fim, ele levou seus homens e partiu para o Sudeste Asiático.
Eu permaneci em Porto Victoria, tornando-me a caçadora de recompensas número um da cidade.
…
Depois de lidar com o alvo de hoje, voltei às pressas para a confeitaria que uso para esconder minha identidade e tratar dos ferimentos.
A televisão pendurada na parede transmitia uma notícia sobre o retorno de Leonardo.
O antigo príncipe da elite de Porto Victoria, agora o maior traficante de armas do Sudeste Asiático, estava voltando para a cidade — naturalmente, era algo digno de grande alarde.
Enfaixei o ferimento de forma improvisada e me preparei, como de costume, para acender um incenso no pequeno altar dedicado ao meu pai.
De repente, a porta se abriu com estrondo.
Uma garota de cabelo preto curto, cortado na altura do queixo, entrou apressada.
Apesar da aparência fria, tinha uma voz surpreendentemente alta. Segurava um buquê de rosas vermelhas e apontou para os bolos na vitrine:
— Esses aqui… eu quero todos!
Logo atrás dela vinha Rafael, o irmão de armas de Leonardo, que sempre lutou ao lado dele.
Quando me viu, ele parou abruptamente, com uma expressão constrangida.
— Sofia… que tal irmos a outra loja?
A garota recusou imediatamente:
— Não!
— Eu já trouxe doces daqui para o Leonardo antes. Ele disse que eram deliciosos. Hoje é aniversário dele, então preciso comprar várias coisas.
Ela piscou aqueles olhos grandes e úmidos e olhou para mim:
— Senhora, hoje meu noivo voltou ao país. Ele adora os doces daqui. Será que você poderia me emprestar o espaço para preparar uma surpresa de aniversário para ele?
Eu não consegui recusar.
Apenas assenti com a cabeça.
— Senhora, pode preparar um pouco mais de sobremesas para mim?
Respondi com um simples “claro”.
No entanto, pelo canto do olho percebi que o ferimento que eu acabara de enfaixar começava a sangrar outra vez.
Só pude esconder a mão debaixo do avental e caminhar lentamente em direção à cozinha dos fundos, com passos trêmulos.
Não era medo.
Também não era nostalgia.
Era porque minha doença… tinha voltado a atacar.
E era do tipo que não tem cura.
— Rafael! Eu não tenho muito tempo. Ajude a decorar aqui! O Leonardo vai chegar a qualquer momento, e eu não quero que ele fique triste.
Rafael não se moveu.
Ele sabia muito bem que, ao me ver, Leonardo jamais ficaria feliz.
Na televisão, Leonardo curvava os lábios em um leve sorriso diante das câmeras, mas não havia alegria alguma em seus olhos.
— Ela também deve estar vendo as notícias, não é?
Ele fez uma breve pausa, e então disse em voz baixa:
— Eu também estou ansioso… para reencontrá-la.