Valentina ficou olhando para o nome na tela.
Helena Almeida.
Por alguns segundos, ninguém se mexeu.
Bruno manteve as mãos longe do teclado.
Mariana baixou lentamente a pasta que segurava.
Gabriel olhou para Valentina.
Ela parecia ter levado um golpe.
"Não."
A voz saiu quase sem som.
Bruno tentou explicar.
"As transferências passaram por duas holdings antes de chegar à conta vinculada ao nome dela."
Valentina balançou a cabeça.
"Não."
Dessa vez falou mais alto.
"Minha mãe não faria isso."
Gabriel permaneceu em silêncio.
Valentina virou-se para ele.
"Você também acha que ela está envolvida?"
"Eu acho que precisamos perguntar."
"Você não respondeu."
"Porque eu não vou condenar ninguém só olhando uma planilha."
Valentina respirou fundo.
Mas a imagem da mãe entrando na sala horas antes voltou imediatamente.
O nervosismo.
A bolsa apertada contra o corpo.
A pergunta sobre o dinheiro.
Tudo parecia diferente agora.
"Ela sabia."
Mariana se aproximou.
"Valentina, ainda não sabemos."
"Ela sabia que estávamos investigando."
"Isso não prova participação."
Valentina pegou o celular.
Ligou.
Helena não atendeu.
Ligou novamente.
Nada.
Na terceira tentativa, o aparelho foi desligado.
Valentina empalideceu.
"Ela desligou."
Gabriel pegou o paletó.
"Vamos até sua casa."
Quando chegaram à mansão dos Almeida, em Jardim Europa, as luzes do térreo estavam acesas.
Helena estava na sala.
Sozinha.
Diante dela havia duas caixas de documentos.
Valentina entrou primeiro.
"Mãe."
Helena levantou os olhos.
Viu Gabriel.
Depois Bruno e Mariana.
E entendeu.
"Vocês encontraram."
Valentina parou.
A frase destruiu o pouco de esperança que ainda restava.
"Então é verdade?"
Helena se levantou.
"Não do jeito que você está pensando."
"Quarenta e seis milhões de reais foram parar numa conta ligada a você."
"Eu sei."
Valentina sentiu as lágrimas subirem.
"Como consegue dizer isso tão calma?"
"Porque eu esperei três anos para poder explicar."
"Três anos?"
Valentina soltou uma risada de incredulidade.
"Meu pai quase morreu. A empresa quase acabou. Eu ia me casar com um homem que estava nos destruindo."
A voz dela quebrou.
"E você sabia?"
Helena fechou os olhos.
"Sabia de uma parte."
"Que parte?"
"Que Augusto não estava tentando salvar o grupo."
Valentina ficou imóvel.
Gabriel observava Helena.
Não havia culpa simples no rosto dela.
Havia medo.
E cansaço.
Henrique apareceu no corredor apoiado numa bengala.
Tinha recebido alta naquela tarde, contra a vontade dos médicos.
"Que gritaria é essa?"
Valentina se virou.
"Pai, volta para o quarto."
Henrique viu as caixas.
Depois viu o rosto da esposa.
"O que aconteceu?"
Valentina respondeu:
"Pergunta para ela."
Helena falou:
"Henrique..."
"Quarenta e seis milhões."
O rosto dele mudou.
"Do quê você está falando?"
Valentina apontou para os documentos.
"Dinheiro do grupo foi parar numa estrutura controlada pela mamãe."
Henrique olhou para Helena como se não tivesse entendido.
"Isso é verdade?"
Helena respirou fundo.
"Sim."
Henrique perdeu a cor.
"Você roubou a empresa?"
"Não."
"Então explica."
"Eu protegi o que consegui."
Henrique bateu a bengala no chão.
"Quarenta e seis milhões?"
Helena finalmente elevou a voz.
"Porque se eu não tivesse feito isso, hoje não existiria mais nada para proteger!"
O silêncio veio imediatamente.
Helena caminhou até uma das caixas.
Abriu.
Havia contratos, extratos, cópias de transferências e registros impressos.
"Eu comecei a desconfiar quando Augusto convenceu vocês a mudar três fornecedores ao mesmo tempo."
Henrique respirava com dificuldade.
"Por que não me contou?"
"Porque você adorava Otávio Montenegro."
Henrique ficou calado.
Helena continuou:
"Você achava a família respeitável. Influente. Segura."
Olhou para Valentina.
"E Augusto entrou na nossa casa com a confiança de todos."
Valentina apertou os braços contra o corpo.
"Não de todos."
Helena assentiu.
"Eu percebi que alguns pagamentos saíam do grupo e reapareciam em empresas estranhas."
Gabriel se aproximou.
"Então criou uma estrutura paralela."
"Sim."
"Por quê?"
"Para seguir o dinheiro sem que Augusto percebesse."
Bruno franziu a testa.
"E os quarenta e seis milhões?"
Helena abriu outra pasta.
"Não foram desviados para mim."
Entregou os documentos.
"Eu fiz com que as transferências fossem redirecionadas antes de chegarem às empresas finais."
Bruno leu rapidamente.
"Uma conta de custódia."
Helena assentiu.
"Em nome de uma holding da qual eu era beneficiária formal."
Mariana pegou os papéis.
"Então o dinheiro ficou bloqueado."
"Sim."
"Você não gastou."
"Nunca toquei em um centavo."
Valentina olhou para a mãe.
"Por que não contou?"
Helena respondeu:
"Porque eu não tinha prova suficiente."
"Podia ter confiado em mim."
"Você estava noiva dele."
A frase doeu.
Valentina recuou.
Helena continuou:
"Eu não sabia o que você contava para Augusto."
"Você achou que eu trairia minha própria família?"
"Não."
"Foi exatamente o que achou."
Helena começou a chorar.
"Eu achei que você estava apaixonada."
Valentina ficou em silêncio.
"Eu precisava proteger você sem destruir sua vida antes de ter certeza."
Henrique caiu sentado numa poltrona.
Parecia ter envelhecido dez anos em poucos minutos.
"Meu Deus."
Helena olhou para ele.
"Eu tentei avisar."
Henrique abaixou a cabeça.
"Eu não ouvi."
"Não."
"Eu confiei neles."
"Sim."
Henrique levou as mãos ao rosto.
"Pus minha filha nas mãos daquele homem."
Valentina se aproximou.
"Pai."
Ele começou a chorar.
Foi a primeira vez que Gabriel viu Henrique Almeida quebrar completamente.
"Eu achei que estava protegendo tudo."
Henrique falou entre lágrimas.
"E quase entreguei tudo."
Helena se ajoelhou diante dele.
"Você não fez sozinho."
Gabriel continuou olhando para as caixas.
Havia algo que ainda não fechava.
"Helena."
Ela levantou os olhos.
"Você disse que esperou três anos para explicar."
"Sim."
"Mas quando perguntei sobre meu passado, você também parecia esconder alguma coisa."
A sala ficou imóvel.
Valentina olhou para a mãe.
"Mãe?"
Helena se levantou devagar.
"Porque eu escondi."
Gabriel sentiu o peito apertar.
"O quê?"
Helena caminhou até a segunda caixa.
Tirou um envelope amarelado.
"Isso."
Gabriel reconheceu o tipo de papel antes mesmo de abrir.
Documentos antigos de assistência social.
Helena falou:
"Vinte e cinco anos atrás, depois que Henrique transferiu Valentina de escola, eu fui atrás de você."
Henrique levantou o rosto.
"O quê?"
Helena não olhou para ele.
"Eu sabia que você continuava na rua."
Gabriel ficou imóvel.
"Como?"
"Eu perguntei aos funcionários da escola."
Ela engoliu em seco.
"Depois procurei um projeto social que atendia crianças na região central."
Gabriel lembrou de Renata.
Do primeiro abrigo.
Da comida escondida embaixo do travesseiro.
"Foi você?"
Helena assentiu.
"Eu passei informações."
Valentina levou a mão à boca.
Helena continuou:
"Não podia aparecer pessoalmente."
"Por causa do meu pai?"
"Em parte."
Ela olhou para Henrique.
"Ele queria Gabriel longe da nossa filha."
Henrique baixou os olhos.
Helena voltou-se para Gabriel.
"Mas havia outra coisa."
"Os Montenegro."
"Sim."
Gabriel sentiu o corpo ficar frio.
"Você sabia?"
"Não tudo."
"Quanto?"
"Eu sabia que Rogério Costa tinha trabalhado para Otávio."
Gabriel prendeu a respiração.
Helena continuou:
"Uma vez, numa festa empresarial, ouvi Otávio perguntar a Henrique se alguém sabia onde estava o filho de Rogério."
Henrique ergueu a cabeça.
"Eu lembro disso."
"Na época você não deu importância."
"Não."
Helena apertou o envelope.
"Eu dei."
Gabriel perguntou:
"Por quê?"
"Porque ele parecia com medo."
Ela respirou fundo.
"Não preocupado."
"Com medo."
Gabriel fechou os olhos.
Helena continuou:
"Quando descobri que você estava sendo encaminhado para adoção, alguém tentou interromper."
"Usando o nome Almeida."
"Sim."
"Você sabia?"
"Descobri depois."
"Quem fez?"
Helena ficou em silêncio.
Gabriel insistiu:
"Quem?"
"Um advogado que trabalhava para Otávio Montenegro."
Valentina perdeu a cor.
Mariana imediatamente abriu o notebook.
"Nome?"
Helena respondeu.
"Álvaro Siqueira."
Mariana digitou.
Segundos depois, olhou para Gabriel.
"Ele aparece em três empresas antigas da família Montenegro."
Bruno aproximou-se.
"E na holding que recebeu parte dos valores do Grupo Almeida."
Gabriel encarou a tela.
A ligação finalmente estava completa.
O passado.
O presente.
O pai desaparecido.
A adoção quase sabotada.
Os fornecedores falsos.
O financiamento predatório.
Tudo conduzia à mesma família.
Helena falou:
"Eu procurei o serviço social novamente."
Gabriel virou-se para ela.
"Por quê?"
"Porque entendi que, se você continuasse sem documentos, sem escola e sem família, seria fácil apagar sua história."
As lágrimas correram pelo rosto dela.
"Eu pedi que acelerassem sua proteção."
Gabriel não conseguiu falar.
Helena continuou:
"Depois soube que um casal de Curitiba queria adotar você."
"Eduardo e Lúcia."
"Sim."
"Você conheceu eles?"
"Não."
Helena sorriu em meio às lágrimas.
"Mas acompanhei o processo de longe até saber que você tinha saído de São Paulo."
Gabriel olhou para ela.
Vinte e cinco anos.
Durante vinte e cinco anos, acreditara que uma assistente social o encontrara por acaso.
Agora entendia que alguém havia aberto aquela porta.
Valentina chorava.
"Então fui eu primeiro."
Helena olhou para a filha.
"O quê?"
"Eu dei comida."
Valentina segurou a mão da mãe.
"E você deu uma família."
Gabriel desviou o rosto.
Não conseguiu esconder a emoção.
Helena se aproximou.
"Eu não salvei você."
Gabriel respirou fundo.
"Salvou uma parte."
Na manhã seguinte, todas as peças estavam prontas.
Mariana entrou com pedido de bloqueio das garantias.
Bruno organizou as transferências.
Helena entregou a conta de custódia.
E Gabriel convocou uma reunião extraordinária de acionistas do Grupo Almeida.
Augusto chegou acompanhado de dois advogados.
Entrou sorrindo.
"Imagino que finalmente tenham entendido que não existe alternativa."
Valentina estava de pé na cabeceira da mesa.
"Existe."
Augusto olhou para Gabriel.
"Ele."
"Não."
Valentina respondeu.
"A verdade."
Mariana distribuiu os documentos.
Augusto perdeu o sorriso na primeira página.
Gabriel projetou as movimentações financeiras.
"Fornecedores ligados a empresas controladas pela Montenegro."
Outra tela.
"Empréstimos estruturados para elevar a dívida."
Mais uma.
"Repasses para holdings conectadas ao mesmo grupo."
Augusto levantou.
"Isso é absurdo."
Helena entrou na sala.
"Não é."
Ele congelou.
Helena colocou uma pasta sobre a mesa.
"Eu guardei tudo."
Augusto olhou ao redor.
"Vocês não sabem o que estão fazendo."
Gabriel respondeu:
"Sabemos."
Mariana acrescentou:
"A Justiça já recebeu os documentos."
Augusto empalideceu.
"Isso não prova participação minha."
Bruno colocou o último contrato na tela.
"Seu certificado digital foi usado para aprovar três operações."
Augusto parou de falar.
Valentina tirou o anel do bolso.
Colocou sobre a mesa diante dele.
"Agora acabou de verdade."
Augusto olhou para ela.
"Você vai se arrepender."
Gabriel deu um passo à frente.
"Não."
Augusto encarou.
"Você vai."
Horas depois, a execução do Hotel Almeida Jardins foi suspensa.
As contas ligadas às operações suspeitas foram bloqueadas.
O conselho afastou todos os representantes indicados pela Montenegro.
E Augusto saiu do prédio cercado por advogados, sem controle do hotel, sem noivado e sem a segurança de que o escândalo terminaria apenas na esfera empresarial.
Quando tudo acabou, Valentina procurou Gabriel.
Primeiro na sala de reuniões.
Depois no restaurante do hotel.
Depois no estacionamento.
Nada.
Ligou.
O celular chamou até cair na caixa postal.
No início da noite, ela foi até a Ferraz Participações.
A assistente já tinha ido embora.
A porta do escritório estava aberta.
Valentina entrou.
A sala estava vazia.
Sobre a mesa não havia computador.
Nem documentos.
Nem a pulseira.
Bruno apareceu no corredor.
Valentina se virou.
"Cadê ele?"
Bruno colocou as mãos nos bolsos.
"Foi embora."
"Para Curitiba?"
"Não."
"Então para onde?"
Bruno olhou para ela por alguns segundos.
Depois respondeu:
"Ele foi para o mesmo lugar onde tudo começou."