Gabriel releu o nome da empresa no documento.
Montenegro Participações e Empreendimentos Ltda.
Durante anos, aquele sobrenome havia sido apenas parte do presente de Valentina.
Agora estava enterrado no passado dele também.
Mariana abriu outra pasta sobre a mesa.
"Rogério Costa não era funcionário comum."
Gabriel levantou os olhos.
"O que ele fazia?"
"Controladoria."
Bruno se aproximou.
"Contabilidade interna?"
"Mais do que isso."
Mariana apontou para um registro antigo.
"Ele acompanhava contratos, pagamentos a fornecedores e movimentações entre empresas do mesmo grupo."
Gabriel sentiu o corpo endurecer.
Era exatamente o tipo de área em que fraudes podiam ser encontradas.
"E o que aconteceu?"
Mariana respirou fundo.
"Nos últimos meses antes do desaparecimento, seu pai começou a guardar cópias de documentos fora da empresa."
Gabriel ficou em silêncio.
"Por quê?"
"Porque suspeitava de desvio de dinheiro."
Bruno cruzou os braços.
"Quanto?"
"Não sabemos."
Mariana virou uma página.
"Mas existiam empresas de fachada, fornecedores inexistentes e pagamentos que voltavam para contas ligadas à própria família Montenegro."
Gabriel sentiu um frio no estômago.
O padrão era familiar demais.
Rosa Norte Serviços Hoteleiros.
Empresas ligadas a Augusto.
Contratos superfaturados.
Garantias sobre hotéis.
Ele puxou uma cadeira.
"Continua."
Mariana falou mais baixo:
"Rogério começou a reunir provas."
"Para usar contra a empresa?"
"Para denunciar."
Gabriel passou a mão pelo rosto.
"Ele procurou alguém?"
"Segundo uma anotação arquivada num antigo procedimento, sim."
"Quem?"
"Um advogado trabalhista e um delegado."
Bruno perguntou:
"Chegou a fazer a denúncia?"
Mariana balançou a cabeça.
"Não."
Gabriel já sabia a resposta seguinte.
"Porque desapareceu antes."
"Sim."
A sala ficou em silêncio.
Gabriel olhou para o nome do pai.
Rogério Costa.
Durante a infância, quase não tinha lembranças claras dele.
Um rosto borrado.
Uma mão grande.
O cheiro de café.
Uma voz pedindo que ficasse dentro de casa.
Nada suficiente para construir uma história.
"Minha mãe?"
Mariana demorou.
"Também desapareceu pouco depois."
Gabriel levantou os olhos.
"Como assim?"
"Os registros são confusos."
Ela virou outra folha.
"Sua mãe, Daniela Costa, procurou assistência social duas vezes depois que Rogério sumiu."
"E depois?"
"Nada."
"Ela me abandonou?"
"Não dá para concluir isso."
Gabriel fechou a mão.
"Então eu fui parar na rua como?"
Mariana baixou os olhos.
"Provavelmente depois de passar por casas de parentes e abrigos temporários."
Bruno percebeu que a situação estava ficando pesada.
"Gabriel."
Ele não respondeu.
Mariana continuou:
"Tem mais."
Gabriel soltou uma risada amarga.
"Claro que tem."
Ela abriu um envelope plástico.
"Duas semanas antes de você ser encaminhado para adoção, alguém pediu acesso ao seu processo."
Gabriel já sabia.
"Quem?"
"Otávio Montenegro."
O nome caiu como uma pedra.
Pai de Augusto.
Bruno ficou imóvel.
"Tem prova?"
"Registro de protocolo."
Mariana mostrou.
"Ele alegou que precisava confirmar vínculos familiares relacionados a um ex-funcionário."
Gabriel leu.
"Ele sabia quem eu era."
"Sim."
"E depois disso apareceu o pedido para suspender minha adoção."
Mariana assentiu.
Gabriel se levantou.
Caminhou até a janela.
A cidade parecia distante.
Vinte e cinco anos antes, ele achava que o maior problema da própria vida era ter sido pobre.
Agora descobria que alguém talvez tivesse interesse em mantê-lo assim.
Bruno falou:
"Se uma criança crescesse sem estudo, sem documentos organizados e sem acesso à própria história..."
Gabriel completou:
"Nunca investigaria o pai."
Mariana não respondeu.
Não precisava.
Gabriel virou-se.
"E Otávio ainda está vivo?"
"Está."
"Quero falar com ele."
Bruno franziu a testa.
"Talvez seja melhor não avisar ninguém."
Gabriel olhou para os documentos.
"Ele já teve vinte e cinco anos de vantagem."
Naquela tarde, Valentina recebeu Gabriel no escritório do hotel.
Ela percebeu que havia algo diferente nele.
"Você descobriu alguma coisa."
Gabriel colocou a pasta sobre a mesa.
"Sim."
Valentina abriu.
Leu o nome Montenegro.
Depois Rogério Costa.
Depois Otávio Montenegro.
Seu rosto foi mudando página por página.
"Não."
Gabriel ficou calado.
Valentina levantou.
"O pai do Augusto?"
"Ele acessou meu processo."
"Talvez por causa do vínculo com seu pai."
"Exatamente."
"Isso não prova que tentou impedir sua adoção."
"Não sozinho."
Gabriel colocou a cópia da solicitação falsificada ao lado.
"Mas prova que sabia onde eu estava."
Valentina empalideceu.
Gabriel continuou:
"Meu pai descobriu desvios dentro da empresa Montenegro."
"Tem certeza?"
"Os registros apontam para isso."
"E desapareceu."
"Antes de denunciar."
Valentina levou a mão à boca.
Gabriel falou:
"Pouco depois, alguém tentou impedir que eu fosse adotado."
Ela se afastou da mesa.
"Você acha que Otávio fez isso."
"Eu acho que ele tinha motivo."
Valentina balançou a cabeça.
"Meu Deus."
A lembrança da própria infância começou a mudar diante dela.
O pai proibindo Gabriel de chegar perto.
Os adultos tratando tudo como perigo.
O menino desaparecendo.
A transferência de escola.
Só que agora havia outro adulto na história.
Otávio Montenegro.
Pai do homem com quem ela estava prestes a casar.
"Augusto sabe?"
Gabriel não respondeu imediatamente.
"Não sei."
Valentina encarou.
"Você acha que sabe."
"Eu acho que o que está acontecendo com o Grupo Almeida não é coincidência."
Ela ficou imóvel.
Gabriel abriu outra pasta.
"Três anos."
"Fornecedores ligados à família Montenegro."
"Sim."
"Empréstimos recomendados pela Montenegro Capital."
"Sim."
"Empresas cobrando valores acima do mercado."
"Sim."
Valentina sentou-se devagar.
"Então eles fizeram com a minha empresa a mesma coisa."
Gabriel assentiu.
"Com uma diferença."
"Qual?"
"Seu grupo ainda está vivo."
Valentina soltou o ar.
"Augusto se aproximou de mim quatro anos atrás."
Gabriel não disse nada.
"Meu pai já conhecia a família."
Ela começou a reconstruir tudo em voz alta.
"No começo, ele parecia não querer nada com a empresa."
"Depois?"
"Começou a sugerir fornecedores."
Gabriel ficou atento.
"Fundos."
"Sim."
"Consultores."
Valentina assentiu.
"Sim."
A voz dela começou a falhar.
"E quando meu pai ficou doente, ele disse que eu precisava de alguém do meu lado."
Gabriel apertou o maxilar.
Valentina olhou para ele.
"Você acha que meu noivado também fazia parte disso?"
"Eu não sei."
"Mas pensa que sim."
Gabriel respondeu com cuidado:
"Eu penso que Augusto ganha muito se o Grupo Almeida perder valor."
Ela ficou em silêncio.
"Quanto?"
"Controle."
Valentina riu, mas não havia humor.
"Então talvez eu tenha sido só mais um ativo."
Gabriel deu um passo à frente.
"Não diga isso."
"Por quê?"
"Porque não é verdade."
"Como você sabe?"
"Porque a intenção dele não define quem você é."
Valentina desviou o olhar.
Por um instante, a raiva entre os dois desapareceu.
"Desculpa pelo que eu disse ontem."
Gabriel não respondeu.
"Eu não deveria ter ficado contra você sem ouvir."
"Você estava defendendo seu pai."
"Mesmo assim."
Gabriel assentiu.
"Henrique também errou."
"Eu sei."
"Mas não nesse documento."
Valentina olhou para ele.
"Então alguém realmente usou o nome dele."
"Provavelmente."
Ela respirou fundo.
"Otávio?"
"Talvez."
"Ou Augusto."
Gabriel ficou em silêncio.
Valentina entendeu.
"Você acha possível que ele saiba de tudo."
"Eu acho impossível confiar nele."
Naquela noite, Valentina foi até o apartamento de Augusto.
Não avisou.
Ele estava no escritório particular, diante de dois monitores.
Quando ela entrou, Augusto sorriu.
"Que surpresa."
"Precisamos conversar."
O sorriso diminuiu.
"Sobre?"
"Meu noivado."
Augusto se recostou.
"Isso parece sério."
"É."
Valentina tirou o anel.
Colocou sobre a mesa.
Augusto olhou para ele.
Depois para ela.
"O que significa?"
"Que acabou."
Ele não se mexeu.
"Você está nervosa."
"Estou lúcida."
"Foi Gabriel?"
"Não coloque isso nele."
Augusto soltou uma risada.
"Claro."
"Eu descobri coisas sobre sua família."
O rosto dele mudou apenas um pouco.
"Que coisas?"
"Meu grupo."
"Seja específica."
"Contratos ligados à Montenegro."
Augusto ficou em silêncio.
"Empresas de fachada."
"Acusação grave."
"Empréstimos feitos para nos deixar dependentes."
"Você não entende de estrutura financeira."
Valentina sentiu a raiva crescer.
"É exatamente assim que você sempre fala comigo."
"Porque é verdade."
"Não."
Ela apontou para o anel.
"É porque você precisava que eu acreditasse que não sabia administrar nada."
Augusto levantou.
"Tenha cuidado."
"Com quê?"
"Com Gabriel enchendo sua cabeça."
Valentina deu um passo para trás.
"Rogério Costa."
Augusto congelou.
Foi rápido.
Mas ela viu.
"Você conhece esse nome."
Ele recuperou a expressão.
"Não."
"Mentira."
"Valentina."
"Seu pai conhecia."
Augusto caminhou até ela.
"Você está entrando em assuntos que não entende."
"Então explica."
"Não tenho nada para explicar."
"Ótimo."
Ela virou-se.
"Então não temos mais nada."
Augusto falou atrás dela:
"Você realmente acha que pode terminar comigo hoje?"
Valentina parou.
"Já terminei."
"Não estou falando de casamento."
Ela se virou.
Augusto abriu uma gaveta.
Tirou uma pasta preta.
Colocou sobre a mesa.
"Leia."
Valentina não se aproximou.
"O que é?"
"A última renegociação."
"Eu já conheço."
"Não conhece essa cláusula."
Ele abriu numa página marcada.
Valentina leu.
Seu rosto perdeu a cor.
Augusto falou:
"Quando seu pai assinou o refinanciamento, colocou o Hotel Almeida Jardins como garantia principal."
Valentina levantou os olhos.
"Você disse que essa garantia só seria executada em caso de inadimplência."
"Exatamente."
"Estamos negociando."
"Estavam."
Augusto sorriu sem qualquer calor.
"Minha empresa é a credora responsável pelo vencimento antecipado."
Valentina sentiu o coração acelerar.
"Você não pode fazer isso."
"Posso."
"Isso é chantagem."
"Não."
Ele apontou para o documento.
"É contrato."
Valentina apertou a pasta.
"O que você quer?"
Augusto olhou para o anel sobre a mesa.
"Você assina o novo aporte."
"Não."
"Então o prazo começa agora."
"Que prazo?"
Augusto fechou a pasta devagar.
"Setenta e duas horas."
Valentina ficou imóvel.
"Se você sair daqui, cancelar o acordo e se recusar a assinar a última rodada de financiamento..."
Ele se aproximou.
"...sua família perde o Hotel Almeida Jardins em três dias."
Valentina olhou para o homem com quem quase se casara.
E naquele instante entendeu que nunca estivera dentro de um noivado.
Estivera dentro de uma aquisição.