《MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO》Capítulo 6

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Valentina continuou segurando a pulseira de prata.

Gabriel estava diante dela.

Helena chorava em silêncio a poucos passos.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Valentina olhava para o homem de trinta e quatro anos e tentava encontrar nele o menino magro que esperava do lado de fora das grades.

Era difícil.

Mas os olhos eram os mesmos.

"Era você."

Gabriel assentiu.

"Era."

Valentina soltou uma risada nervosa.

"Você estava na minha frente esse tempo todo."

"Há poucos dias."

"Você sabia quem eu era desde a primeira reunião."

"Sabia."

"E não falou nada."

Gabriel respirou fundo.

"Eu não sabia se você lembrava."

"Então decidiu me testar?"

"Não."

"Pareceu."

A voz dela ficou mais dura.

Gabriel percebeu a mudança.

"Valentina..."

"Vinte e cinco anos, Gabriel."

Helena tentou interromper.

"Filha..."

Valentina ergueu a mão.

"Não, mãe."

Ela enxugou o rosto.

"Eu preciso entender."

Gabriel permaneceu imóvel.

Valentina continuou:

"Você voltou para São Paulo sabendo meu nome. Sabendo onde eu trabalhava. Sabendo que a empresa da minha família estava em crise."

"Sim."

"E mesmo assim sentou naquela sala como se nós fôssemos desconhecidos."

"Eu precisava saber quem você era hoje."

A resposta doeu.

Valentina riu sem humor.

"Então você estava me avaliando."

"Não foi isso."

"Foi exatamente isso."

Gabriel deu um passo à frente.

"Eu não voltei para cobrar nada de você."

"Eu não disse que voltou."

"Mas está pensando."

Valentina fechou os olhos por um instante.

Quando tornou a abri-los, havia mágoa.

"Eu nunca esqueci completamente aquele menino."

Gabriel ficou em silêncio.

"Às vezes eu me perguntava se você tinha conseguido estudar."

A voz dela falhou.

"Se tinha uma casa."

"Valentina..."

"Se estava vivo."

Ele abaixou o olhar.

Ela apertou a pulseira na mão.

"Mas você voltou vinte e cinco anos depois. Minha vida não ficou parada esperando você."

Gabriel recebeu a frase sem reagir.

Ela continuou:

"Eu tenho um pai doente. Tenho uma empresa praticamente quebrada. Tenho centenas de funcionários dependendo das decisões que eu tomar."

Fez uma pausa.

"E estou noiva."

Helena desviou o rosto.

Gabriel assentiu devagar.

"Eu sei."

"Então não apareça agora transformando uma promessa de duas crianças em alguma coisa que eu preciso resolver."

"Eu não estou fazendo isso."

"Então o que você quer?"

Gabriel demorou para responder.

"Queria saber se você estava bem."

Valentina soltou o ar.

"Você já sabe."

"Não."

Ele olhou para ela.

"Eu sei que você está tentando impedir sua família de perder tudo."

"É a mesma coisa."

"Não é."

Valentina ficou irritada.

"Você não pode voltar depois de vinte e cinco anos e agir como se ainda me conhecesse."

Gabriel manteve a voz baixa.

"Você tem razão."

A resposta a desarmou por um segundo.

"Eu não conheço a mulher que você se tornou."

Ele apontou para a pulseira.

"Mas conheço o que você fez por mim."

Valentina baixou os olhos.

Gabriel continuou:

"Você acha que eu voltei para fazer você pagar uma dívida emocional?"

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Ela não respondeu.

"Eu não sobrevivi para cobrar metade de um sanduíche."

A voz dele endureceu.

"Eu sobrevivi porque alguém me tratou como gente quando quase ninguém tratava."

Helena levou a mão à boca.

Valentina piscou várias vezes.

Gabriel falou:

"Isso não transforma você em responsável pela minha vida."

"Então por que guardou a pulseira?"

Ele ficou em silêncio.

Valentina percebeu.

"Por quê?"

"Porque eu quis."

A resposta foi simples.

E foi justamente por isso que doeu mais.

Valentina devolveu a pulseira.

Gabriel não pegou.

"É sua."

"Não."

"Você me deu."

"Eu tinha nove anos."

"Eu também."

Valentina colocou a pulseira sobre a mesa.

"Então deixa aqui."

Saiu da sala antes que Gabriel pudesse responder.

Helena ficou para trás.

"Não leve para o lado errado."

Gabriel soltou uma risada curta.

"Ela tem razão."

"Não totalmente."

Ele olhou para Helena.

"Ela está assustada."

"Comigo?"

"Com tudo."

Helena aproximou-se.

"Você voltou no pior momento possível."

Gabriel olhou para a porta.

"Talvez."

Na manhã seguinte, Augusto soube.

Valentina não contou.

Helena também não.

Foi um funcionário do hotel que ouviu parte da conversa e comentou com outro.

Em poucas horas, a história já circulava entre pessoas próximas à diretoria.

Augusto entrou na sala de Valentina sem bater.

"É verdade?"

Ela levantou os olhos.

"O quê?"

"Que Gabriel Ferraz é o menino de rua."

Valentina fechou a expressão.

"Não fale assim."

Augusto riu.

"Então é verdade."

"Isso não muda nada."

"Muda bastante."

"Para quem?"

"Para mim."

Valentina levantou.

"Não começa."

"Você tinha uma história escondida com ele."

"Nós tínhamos nove anos."

"Você dava comida para ele."

"E daí?"

Augusto caminhou pela sala.

"E daí que agora ele aparece milionário no meio da crise da sua família."

Valentina ficou tensa.

"O que está insinuando?"

"Que talvez ele não esteja interessado apenas no hotel."

"Você está sendo ridículo."

"Estou?"

Augusto se aproximou.

"Você viu como ele olha para você."

Valentina cruzou os braços.

"Você já disse isso."

"Agora eu sei por quê."

"Não use isso contra ele."

Augusto sorriu.

"Contra ele?"

"Sim."

"Você já está defendendo?"

"Estou pedindo o mínimo de respeito."

Augusto riu de novo.

"Respeito?"

Ele inclinou a cabeça.

"Você realmente não mudou."

Valentina ficou imóvel.

"Como assim?"

"Sempre gostou de brincar de salvadora."

A frase atingiu em cheio.

"Saia."

"Valentina..."

"Saia."

Augusto percebeu que tinha ido longe demais.

Mas, em vez de recuar, sorriu friamente.

"Hoje temos reunião com os investidores."

"Eu sei."

"Ele vai?"

"Vai."

"Ótimo."

A reunião aconteceu no início da tarde.

Estavam presentes membros da diretoria, dois representantes bancários, Augusto, Valentina, Gabriel e Bruno.

O clima já começou ruim.

Augusto apresentou uma proposta de capitalização.

Gabriel criticou os juros.

Valentina questionou garantias.

Augusto perdeu a paciência.

"Você dois parecem muito alinhados."

Gabriel ignorou.

"Estamos falando de números."

"Claro."

Augusto fechou a pasta.

"Mas talvez todos aqui devam saber que existe uma relação antiga entre vocês."

Valentina congelou.

"Augusto."

Ele não parou.

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"Não acho adequado um potencial investidor esconder que conhece pessoalmente a responsável pelo grupo desde a infância."

Um dos conselheiros olhou para Gabriel.

"Isso procede?"

Gabriel respondeu:

"Sim."

Valentina apertou os dedos sobre a mesa.

Augusto sorriu.

"Interessante."

Gabriel o encarou.

"Se tem alguma acusação, faça."

Augusto recostou-se na cadeira.

"Acusação nenhuma."

Fez uma pausa.

"Só achei curioso descobrir que o grande Gabriel Ferraz era o menino de rua que vivia pedindo comida."

O silêncio caiu pesado.

Valentina empalideceu.

Bruno virou o rosto para Augusto.

Um dos executivos desviou os olhos, constrangido.

Gabriel não se mexeu.

Augusto continuou:

"Impressionante como a vida muda."

Gabriel apoiou os braços sobre a mesa.

"Era."

Augusto pareceu surpreso com a tranquilidade.

Gabriel continuou:

"E tenho mais orgulho daquele menino do que de muitos homens desta sala."

Ninguém falou.

Gabriel olhou diretamente para Augusto.

"Aquele menino não roubava empresas."

Augusto endureceu.

"Está me acusando de alguma coisa?"

"Ainda não."

A resposta gelou a sala.

Valentina olhou para Gabriel.

Augusto ficou vermelho.

"Então tome cuidado com o que diz."

Gabriel fechou a pasta.

"Eu sempre tomo."

A reunião terminou sem acordo.

No corredor, Valentina alcançou Gabriel.

"Você não precisava ter feito isso."

Ele parou.

"Feito o quê?"

"Respondido daquele jeito."

"Eu não tenho vergonha do meu passado."

"Eu sei."

Gabriel olhou para ela.

"Tem certeza?"

Valentina ficou em silêncio.

"Porque às vezes parece que todo mundo ao seu redor tem."

Ela respirou fundo.

"Eu nunca tive."

"Então não se comporte como se precisasse me proteger dele."

Valentina cruzou os braços.

"Eu não estava protegendo você."

"Não?"

"Estava tentando impedir uma guerra dentro da empresa."

Gabriel assentiu.

"Talvez a guerra já tenha começado."

Valentina percebeu o tom.

"Você descobriu alguma coisa?"

Gabriel hesitou.

"Estou verificando."

"Gabriel."

"Quando eu tiver certeza, você vai saber."

Ela não gostou.

Mas ele foi embora.

Naquela noite, Gabriel reuniu Bruno no escritório.

"Quero entrar com uma proposta."

Bruno levantou os olhos do notebook.

"Pelo hotel?"

"Pelo grupo."

"Isso muda tudo."

"Eu sei."

Bruno fechou a tela.

"Vai fazer isso por ela?"

Gabriel ficou em silêncio.

"Vai fazer isso porque o negócio faz sentido?"

"Também."

Bruno soltou um suspiro.

"Essa resposta me preocupa."

Gabriel pegou a pulseira de prata que havia trazido de volta.

Colocou-a dentro da gaveta.

"Prepare a estrutura."

Bruno não saiu.

"Tem mais uma coisa."

Gabriel percebeu a expressão.

"O quê?"

Bruno colocou um envelope envelhecido sobre a mesa.

"Eu pedi uma busca sobre seu processo de adoção."

Gabriel não tocou no envelope.

"Por quê?"

"Porque sua ficha tinha uma inconsistência."

"Que tipo?"

Bruno abriu a pasta.

"Seu processo quase foi suspenso antes de Eduardo e Lúcia conseguirem levar você para Curitiba."

Gabriel ficou imóvel.

"Nunca soube disso."

"Nem eles, pelo que parece."

Bruno puxou uma folha antiga.

"Houve uma denúncia anônima dizendo que você não deveria ser colocado para adoção."

Gabriel pegou o documento.

"Quem fez?"

"Não temos certeza."

"Então por que está me mostrando?"

Bruno apontou para a última página.

"Porque alguém tentou formalizar o pedido."

Gabriel leu.

Havia uma assinatura.

Antiga.

Desbotada.

Mas o sobrenome estava perfeitamente legível.

Almeida.

Gabriel levantou os olhos.

E, pela primeira vez desde que voltara a São Paulo, a lembrança de Valentina deixou de parecer apenas uma promessa.

Passou a parecer parte de alguma coisa muito maior.

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