O corredor ficou em silêncio.
Léo ainda apontava para Vitória.
A mão pequena tremia, mas ele não recuou.
Vitória foi a primeira a reagir.
"Isso é absurdo."
Léo apertou a mão de Isabela.
Henrique se levantou lentamente.
"O que foi a Vitória, filho?"
Vitória avançou.
"Não começa a interrogar uma criança!"
Henrique ergueu a mão.
"Você fica quieta."
Ela parou.
Léo olhou para a caixa encontrada no quarto de Isabela.
Depois para a medalha.
"Ela pegou."
Henrique sentiu o coração acelerar.
"Você viu?"
Léo assentiu.
"Quando?"
"Hoje."
Vitória soltou uma risada nervosa.
"Henrique, pelo amor de Deus. Ele tem seis anos."
Henrique ignorou.
Abaixou-se novamente diante do filho.
"Me conta só o que você viu."
Léo respirou fundo.
"Eu estava procurando a Isa."
"E depois?"
"Vi a Vitória entrando aqui."
Vitória interrompeu.
"Eu entro nessa ala o tempo todo."
Henrique virou o rosto.
"Mais uma palavra e você sai daqui."
Ela fechou a boca.
Léo continuou.
"Ela tinha uma bolsa."
"Que bolsa?"
"Preta."
Henrique olhou para Bruno.
Ele entendeu.
"Vou verificar as câmeras."
Vitória ficou pálida.
"Você está acreditando nisso?"
Henrique levantou-se.
"Estou acreditando no meu filho."
A frase atingiu Vitória como um tapa.
"Depois de tudo que eu fiz por vocês?"
"Isso não é sobre você."
"É exatamente sobre mim!"
Ela apontou para Isabela.
"Desde que essa mulher entrou na sua cabeça, você decidiu que eu sou um monstro."
Isabela tentou falar.
"Eu nunca..."
"Você cala a boca!"
Henrique deu um passo à frente.
"Não fala com ela assim."
Vitória riu.
"Claro."
A voz dela ficou amarga.
"Agora você protege a empregada."
"Eu estou protegendo meu filho."
"Seu filho?"
Vitória o encarou.
"Desde quando?"
Henrique congelou.
Isabela baixou os olhos.
Até Bruno permaneceu imóvel.
Vitória percebeu que tinha encontrado onde ferir.
"Quer mesmo falar de proteção?"
Henrique apertou a mandíbula.
"Vitória."
"Não. Agora você vai me ouvir."
Ela apontou para ele.
"Quem estava aqui quando Léo acordava chorando?"
Henrique não respondeu.
"Quem levava ele às consultas?"
Silêncio.
"Quem sabia o nome das professoras? Quem sabia o que ele comia? Quem sabia quando ele tinha febre?"
Henrique sentiu cada pergunta.
Vitória continuou.
"Você estava onde?"
Ele desviou o olhar por um segundo.
Ela riu, sem alegria.
"Na Faria Lima."
Henrique fechou os olhos.
"Em Brasília."
Vitória avançou.
"Em Belo Horizonte. No Rio. Em reuniões. Em jantares."
"Chega."
"Não chega!"
A voz dela ecoou pelo corredor.
"Você entregou seu filho para os outros porque administrar uma empresa era mais fácil do que lidar com uma criança que precisava de você."
Henrique não respondeu.
Porque, no meio de todas as mentiras de Vitória, havia uma verdade.
Ele não estivera ali.
Havia delegado consultas.
Aceitado relatórios.
Respondido mensagens entre reuniões.
Transformado a vida do próprio filho em atualizações enviadas pelo celular.
Vitória apontou para o peito dele.
"E agora quer aparecer como o pai perfeito?"
Henrique levantou os olhos.
"Não."
A resposta a surpreendeu.
"Não sou o pai perfeito."
Vitória ficou em silêncio.
Henrique olhou para Léo.
"Eu falhei."
O menino observava.
Henrique respirou fundo.
"Eu devia ter visto."
A voz dele falhou pela primeira vez.
"Devia ter perguntado mais. Devia ter voltado antes. Devia ter ficado quando ele precisava."
Vitória tentou falar.
"Então..."
Henrique a interrompeu.
"Mas minha ausência não transforma o que você fez em cuidado."
Ela perdeu a expressão.
"Eu posso ter falhado com meu filho."
Henrique se aproximou.
"Isso não dá a você o direito de machucá-lo."
Vitória ficou imóvel.
Henrique apontou para a escada.
"Você não fica sozinha com Léo a partir de agora."
"Você não pode..."
"Posso."
"Essa casa também é minha."
"Não é."
Vitória empalideceu.
Henrique continuou.
"Você mora aqui porque eu permiti."
Ela respirou com dificuldade.
"Vai me expulsar por causa da palavra de uma criança?"
"Não."
Henrique olhou para a caixa.
"Vou descobrir a verdade."
Bruno voltou vinte minutos depois.
Trazia um tablet.
"Encontrei."
Vitória virou-se.
"Encontrou o quê?"
Bruno colocou o vídeo na tela.
A câmera do corredor de serviço mostrava Vitória entrando na ala dos funcionários às 14h12.
Ela carregava uma bolsa preta.
Às 14h19, saía sem ela.
Três minutos depois, voltava.
Quando reaparecia, a bolsa estava em sua mão novamente.
Isabela levou a mão à boca.
Henrique olhou para Vitória.
"Quer explicar?"
Ela demorou.
"Eu fui procurar uma funcionária."
"Com uma bolsa?"
"Eu tinha coisas minhas."
Bruno abriu outro vídeo.
"Tem mais."
Uma câmera externa mostrava Vitória junto ao carro naquela manhã.
Ela retirava algo do porta-luvas.
Um envelope grosso.
Henrique aproximou a imagem.
"Dinheiro?"
Bruno assentiu.
"O horário bate."
Vitória balançou a cabeça.
"Isso não prova nada."
Bruno colocou um pequeno saco transparente sobre a mesa lateral.
"Encontramos isso no lixo do banheiro da senhora."
Dentro havia uma faixa de papel bancário.
O mesmo tipo usado para prender maços de dinheiro.
Vitória empalideceu.
Henrique não precisou dizer nada.
Isabela começou a chorar.
Não de medo.
De alívio.
"Eu disse que não era meu."
Henrique virou-se para ela.
"Eu sei."
Ela olhou para ele.
"Desculpa."
Isabela franziu a testa.
"Pelo quê?"
"Por ter deixado você passar por isso dentro da minha casa."
Ela enxugou as lágrimas.
Henrique voltou-se para Vitória.
"Por que fez isso?"
Vitória permaneceu calada.
"Era para eu demitir Isabela?"
Nada.
"Ou para fazer Léo perder a única pessoa em quem confiava?"
Vitória levantou o rosto.
"Você não entende."
"Então explica."
"Eu fiz o que precisava."
Henrique sentiu o sangue gelar.
"Para quê?"
Ela percebeu o que tinha dito.
Recuou.
"Eu quero meu advogado."
Henrique soltou uma risada curta.
"Agora você quer advogado."
"Não vou continuar sendo acusada."
"Ótimo."
Henrique apontou para Bruno.
"Ela não chega perto do Léo."
Vitória o encarou.
"Você vai se arrepender."
Henrique respondeu baixo.
"Eu já me arrependo de ter confiado em você."
Naquela noite, Vitória foi levada para um quarto separado da ala principal enquanto Mariana preparava as medidas jurídicas necessárias.
Henrique não dormiu.
Sentou-se ao lado da cama de Léo.
O menino estava acordado.
"Papai?"
"Oi."
"Você está bravo comigo?"
Henrique sentiu o peito apertar.
"Por quê?"
"Porque eu falei da Vitória."
"Não."
"Ela disse que ninguém acredita em criança."
Henrique ficou imóvel.
Depois segurou a mão do filho.
"Eu acredito."
Léo olhou para ele.
"Mesmo?"
"Mesmo."
"Se eu falar coisa ruim?"
"Principalmente."
O menino ficou alguns segundos em silêncio.
Depois se aproximou.
Henrique o abraçou.
"Desculpa."
Léo franziu a testa.
"Por quê?"
Henrique respirou fundo.
"Porque eu demorei para escutar."
Léo encostou a cabeça em seu peito.
"Agora você escutou."
Henrique fechou os olhos.
Aquela frase doeu mais que qualquer acusação de Vitória.
Na manhã seguinte, Bruno entrou no escritório enquanto Henrique conversava com Mariana.
"Temos outra coisa."
Henrique levantou o rosto.
"Sobre Vitória?"
"Sobre dinheiro."
Bruno colocou vários extratos sobre a mesa.
Vitória recebia depósitos mensais havia quase dois anos.
Os valores variavam.
Quinze mil.
Vinte mil.
Trinta mil reais.
Mariana examinou os documentos.
"Isso não vinha do Grupo Montenegro."
"Não."
Henrique olhou para Bruno.
"Camila?"
"Também não."
Henrique franziu a testa.
"Então quem pagava?"
Bruno abriu o cadastro da empresa remetente.
O nome era Genova Consultoria Médica Ltda.
Mariana digitou rapidamente no notebook.
"Empresa pequena. Capital social baixo. Sem funcionários registrados."
"Quem é o dono?"
"Formalmente, um terceiro."
Bruno colocou outro documento.
"Mas o endereço fiscal coincide com uma sala comercial usada por uma empresa antiga."
Henrique sentiu um arrepio.
"De quem?"
"Rafael Ferraz."
O silêncio tomou o escritório.
Henrique olhou novamente para os depósitos.
Rafael não estava apenas recebendo dinheiro.
De alguma forma, uma empresa ligada a ele estava pagando Vitória.
"Então ele pagava para ela."
Mariana fechou a pasta.
"Ou alguém usava a estrutura dele."
Henrique pegou o celular.
"Quero Rafael aqui."
Bruno não respondeu.
Henrique percebeu.
"O que foi?"
"Ele não está mais na clínica."
"Então vai à casa dele."
"Já mandei alguém."
"E?"
Bruno respirou fundo.
"A funcionária disse que ele saiu com duas malas."
Henrique levantou-se.
"Para onde?"
Bruno recebeu uma mensagem.
Olhou a tela.
Depois para Henrique.
"Aeroporto Internacional de Guarulhos."
Henrique sentiu o corpo inteiro endurecer.
"Ele vai fugir."
Bruno fez uma ligação imediatamente.
Henrique caminhava de um lado para o outro.
"Descobre o voo."
Alguns minutos depois, veio a resposta.
Rafael tinha passagem para Lisboa.
Embarque em menos de duas horas.
Henrique pegou o paletó.
"Vamos."
Bruno levantou a mão.
"Não precisa."
Henrique parou.
"Como assim?"
O celular de Bruno tocou.
Ele atendeu.
Ouviu durante alguns segundos.
Depois desligou.
"Minha equipe chegou primeiro."
No Aeroporto de Guarulhos, Rafael caminhava em direção ao controle de embarque quando dois homens se posicionaram diante dele.
O médico parou.
Olhou para os lados.
Um deles falou calmamente.
"Dr. Rafael Ferraz?"
Rafael apertou a alça da mala.
"Quem quer saber?"
O homem mostrou o telefone.
Na tela, havia uma chamada de vídeo.
Henrique apareceu do outro lado.
Rafael empalideceu.
Henrique não sorriu.
"Você e eu ainda temos uma conversa."