《Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada》Capítulo 9

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Beatriz ficou alguns segundos olhando para a própria assinatura.

Vinte e três anos.

Era tempo suficiente para transformar culpa em silêncio.

Mas não para apagá-la.

Lívia permaneceu do outro lado da mesa.

Não perguntou de novo se o documento era verdadeiro.

Já sabia.

"Quanto você vai me contar?"

Beatriz puxou a cadeira.

"Quanto você quiser ouvir."

"Não."

Lívia manteve a voz firme.

"Quanto aconteceu de verdade?"

Beatriz respirou fundo.

"Mais do que eu gostaria de admitir."

A resposta pareceu deixar o ar mais pesado.

Ela abriu a pasta.

Passou os dedos por um dos contratos antigos.

"Naquela época, o Grupo Montenegro ainda não era o que é hoje."

"Isso é justificativa?"

"Não."

Beatriz levantou os olhos.

"É só o começo."

Vinte e três anos antes, Beatriz tinha pouco mais de quarenta.

Já não vendia roupas no Brás.

Já tinha uma imobiliária conhecida.

Alguns prédios.

Alguns investidores.

Mas ainda estava longe de sentar à mesa com os maiores nomes do mercado paulistano.

Foi quando surgiu o Projeto Vale do Carmo.

Uma grande área antiga da zona sul de São Paulo.

Casas simples.

Pequenos comércios.

Oficinas.

Famílias que viviam ali havia décadas.

O plano oficial falava em revitalização.

Prédios residenciais.

Torres comerciais.

Praça.

Escola particular.

Centro médico.

Beatriz viu naquela área a chance de subir definitivamente de nível.

"Os terrenos valiam muito mais do que os moradores sabiam."

Lívia ficou em silêncio.

Beatriz continuou.

"Um grupo de investidores queria comprar tudo antes que o projeto fosse anunciado."

"Você fazia parte?"

"Sim."

"E a Vértice?"

"Foi criada para intermediar negociações."

"Intermediar?"

Lívia soltou uma risada seca.

"Ou esconder?"

Beatriz não desviou.

"Os dois."

Ela contou.

A Vértice comprava imóveis por meio de empresas menores.

Os moradores não sabiam quem estava por trás.

Nem sabiam que, poucos meses depois, aquelas propriedades poderiam multiplicar de valor.

Alguns aceitaram vender.

Outros resistiram.

Foi aí que Beatriz atravessou a linha.

"Pagamos pessoas para acelerar licenças."

Lívia fechou os olhos.

"Propina."

"Sim."

"Para quem?"

"Funcionários públicos. Intermediários. Gente que prometia abrir portas."

"E as famílias?"

Beatriz demorou mais.

"Algumas receberam propostas muito abaixo do valor real."

"Algumas?"

"Quase todas."

Lívia se levantou.

Andou até a janela.

"Quantas perderam as casas?"

"Eu não sei o número exato."

"Você não sabe?"

"Na época, eu não quis saber."

A frase doeu mais do que qualquer número.

Beatriz continuou:

"Algumas venderam por medo."

"Medo de quê?"

"De ficar cercadas por obras."

"Isso é a versão bonita."

Beatriz baixou a cabeça.

"Também houve pressão."

Lívia virou.

"Que tipo de pressão?"

"Vistorias."

"Continua."

"Notificações."

"Continua."

"Compra de imóveis vizinhos para isolar quem não vendia."

Lívia ficou imóvel.

"E gente ameaçando?"

Beatriz respondeu depois de alguns segundos.

"Eu nunca mandei ameaçar ninguém."

"Mas sabia que acontecia?"

"Ouvi comentários."

"E ignorou."

Beatriz fechou os olhos.

"Sim."

Lívia respirou fundo.

"Você ficou rica com isso."

"Foi o projeto que mudou minha posição no mercado."

"Então sim."

Beatriz assentiu.

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"Sim."

Não havia mais onde se esconder.

O Vale do Carmo financiou a expansão do Grupo Montenegro.

Depois vieram empreendimentos maiores.

Bancos.

Fundos.

Parcerias.

A mulher que um dia vendera roupas para pagar aluguel passou a ser recebida em salas onde antes nem saberiam seu nome.

Ela dizia a si mesma que tinha apenas feito o que todos faziam.

Depois dizia que tinha parado.

Depois dizia que já era tarde demais para voltar.

O tempo fez o resto.

"Por que você encerrou a Vértice?"

Lívia perguntou.

"Porque comecei a ter medo."

"Da polícia?"

"De mim mesma."

Lívia olhou para ela.

Beatriz continuou.

"Um homem apareceu no meu escritório com duas filhas pequenas."

A voz diminuiu.

"Ele perdeu a casa."

"Nome?"

"Eu não lembro."

"Você lembra."

Beatriz ficou em silêncio.

"Você lembra porque ainda está olhando para o documento como se visse o rosto dele."

Beatriz engoliu em seco.

"Antônio Nogueira."

Lívia registrou mentalmente.

"O que ele queria?"

"Que eu desfizesse a venda."

"E você?"

"Disse que não podia."

"Não podia ou não queria?"

"Naquele momento, eu já tinha investidores, contratos, bancos."

"Então não queria."

Beatriz não discutiu.

"Ele me chamou de ladra."

Lívia respondeu:

"E estava errado?"

Beatriz sentiu a pergunta entrar fundo.

"Não."

A porta da biblioteca se abriu.

Camila entrou.

Não deveria estar ali.

Por orientação dos advogados, estava proibida de acessar documentos empresariais.

Mas continuava tendo autorização para visitar a mãe.

Ela viu a pasta.

Depois viu Lívia.

"Então já contou?"

Beatriz levantou os olhos.

"Você sabia."

Camila sorriu.

"Claro que eu sabia."

"Desde quando?"

"Desde criança."

Beatriz ficou imóvel.

"Isso não é possível."

"Você realmente acha que criança não escuta?"

Camila entrou.

"Eu tinha doze anos quando ouvi você gritando com um advogado no escritório."

Beatriz tentou lembrar.

Camila continuou.

"Você dizia que ninguém podia ligar seu nome à Vértice."

Lívia observava em silêncio.

"Depois eu vi você queimando documentos na lareira."

Beatriz sentiu o rosto perder a cor.

"Camila..."

"Não faz essa cara."

A filha riu.

"Você quer saber onde eu aprendi?"

Ela apontou para a pasta.

"Foi ali."

Beatriz se levantou.

"Eu nunca ensinei você a roubar."

Camila soltou uma risada.

"Não?"

"Não."

"Você criou uma empresa para esconder dinheiro, comprou imóveis de gente pobre por preço baixo e pagou para acelerar processos."

"Eu parei."

"Depois de ficar rica."

Beatriz apertou a mandíbula.

"Eu passei o resto da vida tentando construir de outra forma."

Camila se aproximou.

"Com o dinheiro que ganhou da primeira."

A frase paralisou Beatriz.

Camila olhou para Lívia.

"Ela gosta de fingir que o Grupo Montenegro nasceu do trabalho duro no Brás."

"Camila."

"Mas esquece de contar essa parte."

Beatriz bateu a mão na mesa.

"Chega."

Camila não recuou.

"Não."

A voz dela saiu firme.

"Você passou dias nos julgando porque aproveitamos sua fraqueza."

Beatriz ficou em silêncio.

"E sabe o que eu fiz?"

Camila abriu os braços.

"Eu só aprendi com você."

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Lívia interveio.

"Não."

Camila virou.

"Não?"

"Ela ter feito errado não transforma o que você fez em certo."

"Claro que você vai defender."

"Eu não estou defendendo."

Lívia apontou para a pasta.

"Estou dizendo que vocês duas podem estar erradas ao mesmo tempo."

Camila perdeu o sorriso.

Lívia continuou.

"Beatriz prejudicou famílias."

Depois olhou para Camila.

"Você roubou a empresa, usou minha identidade e tentou manter sua própria mãe dopada."

Camila apertou os lábios.

"Uma coisa não apaga a outra."

Beatriz ouviu em silêncio.

Era provavelmente a primeira vez na vida que alguém da família recusava escolher um lado.

Camila pegou a bolsa.

Antes de sair, olhou para a mãe.

"Você queria descobrir quem seus filhos eram."

Parou.

"Talvez devesse ter começado perguntando de onde eles aprenderam."

A porta fechou.

Beatriz não se mexeu.

Lívia voltou para a mesa.

"Eu vou entregar isso."

Beatriz levantou os olhos.

"O quê?"

"Os documentos."

"Para quem?"

"Delegada Fernanda."

Beatriz ficou alguns segundos sem reação.

"Lívia..."

"Não me pede para esconder."

"Eu não ia pedir."

"Você pensou."

Beatriz respirou fundo.

Pensou.

Por alguns segundos, pensou.

No valor das ações.

Nos milhares de funcionários.

Nos contratos.

No impacto público.

No sobrenome Montenegro.

Lívia percebeu tudo.

"Se eu esconder isso porque você me criou, então todo o meu discurso sobre justiça era mentira."

Beatriz fechou os olhos.

Lívia continuou:

"Eu não vou destruir documentos para proteger minha mãe."

A voz falhou.

"Nem mesmo a mulher que me tirou de uma caixa quando ninguém me queria."

Beatriz sentiu lágrimas nos olhos.

"Eu sei."

"Isso pode destruir você."

"Eu sei."

"Pode atingir a empresa inteira."

"Eu sei."

Lívia cruzou os braços.

"Então?"

Beatriz fechou a pasta.

"Então eu mesma vou entregar."

Na manhã seguinte, Beatriz entrou na delegacia carregando os arquivos originais.

Sem advogado.

Sem assessor.

Sem segurança ao lado.

Fernanda Reis a recebeu numa sala pequena.

Beatriz colocou a pasta sobre a mesa.

"Isso não tem relação direta com o que meus filhos fizeram."

Fernanda abriu.

"Mas tem relação com você."

"Sim."

"Você sabe o que está me entregando?"

"Sei."

"Pode gerar investigação criminal, tributária e patrimonial."

"Eu sei."

"Pode haver ações de indenização."

"Eu sei."

Fernanda levantou os olhos.

"Por que agora?"

Beatriz respondeu:

"Porque passei a semana inteira exigindo que meus filhos enfrentassem a verdade."

Pausa.

"Eu não posso exigir deles uma coisa que passei vinte e três anos evitando."

Fernanda começou a analisar os documentos.

Horas depois, a equipe cruzou nomes de antigos proprietários do Vale do Carmo.

Famílias.

Herdeiros.

Empresas encerradas.

Processos antigos.

Uma investigadora entrou na sala com uma folha impressa.

"Delegada."

Fernanda levantou os olhos.

"Acho que encontramos uma conexão."

"Com o quê?"

"Com a intoxicação."

Beatriz sentiu o corpo endurecer.

A investigadora colocou a lista sobre a mesa.

"Uma das famílias que perdeu imóvel no projeto antigo tinha como chefe Antônio Nogueira."

Beatriz reconheceu imediatamente.

"Eu lembro dele."

"Ele morreu nove anos depois."

Fernanda passou o dedo pela folha.

"A esposa morreu pouco depois."

"Filhos?"

"Três."

A investigadora apontou.

"Um deles saiu de São Paulo."

Depois desceu para o nome seguinte.

"Outro morreu."

E então parou.

"A filha mais velha ficou."

Beatriz sentiu um frio nas costas.

Fernanda leu o nome.

"Teresa Nogueira."

Beatriz não respirou.

A mesma Teresa que administrava sua mansão havia mais de vinte anos.

A mesma Teresa que conhecia seus horários.

Seus remédios.

Suas roupas.

Seus hábitos.

E exatamente qual champanhe ela bebia.

Fernanda levantou os olhos.

"Essa mulher ainda trabalha para você?"

Beatriz demorou a responder.

Quando respondeu, sua voz saiu quase num sussurro.

"Ela estava na minha casa na noite em que eu fui envenenada."

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