《Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada》Capítulo 8

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Camila Montenegro Sampaio passou aquela tarde numa sala da Polícia Civil em São Paulo.

Sem sala de reunião.

Sem assistente.

Sem conselho administrativo.

Pela primeira vez em muitos anos, ela não controlava quem fazia as perguntas.

Delegada Fernanda Reis colocou três pastas sobre a mesa.

"Vamos começar pela Vértice Participações."

Camila olhou para Sérgio Tavares.

O advogado fez um gesto discreto.

"Minha cliente vai colaborar dentro dos limites legais."

Fernanda abriu a primeira pasta.

"Setenta e dois milhões de reais passaram por operações ligadas à Vértice."

Camila não respondeu.

"Seu nome aparece como beneficiária final."

Silêncio.

"O nome do seu irmão também."

Camila respirou fundo.

"Augusto sabia."

"Não perguntei se ele sabia."

Fernanda inclinou-se.

"Perguntei se você sabia."

Camila apertou os lábios.

"Sabia."

Sérgio virou rapidamente.

"Camila."

"Não adianta."

Ela olhou para o advogado.

"Eles têm os documentos."

Fernanda continuou.

"Você utilizou informações internas do Grupo Montenegro para direcionar ativos?"

Camila demorou.

"Sim."

"Utilizou credenciais de Lívia Duarte Montenegro?"

"Não diretamente."

"Explique."

"Eu tinha pessoas."

Fernanda anotou.

"Pessoas que você pagava?"

"Algumas."

"Para produzir documentos que fariam parecer que Lívia aprovava as operações?"

Camila não respondeu.

A delegada esperou.

Finalmente, Camila disse:

"Se alguma coisa desse errado, alguém precisaria responder."

Fernanda parou de escrever.

"E você escolheu sua irmã."

Camila soltou uma risada amarga.

"Ela não é minha irmã."

Sérgio fechou os olhos.

Fernanda observou Camila por alguns segundos.

"Interessante."

"O quê?"

"Você está sendo investigada por fraude milionária, falsidade documental e possível participação num esquema para manter sua mãe medicamente incapaz."

A delegada fechou a caneta.

"E mesmo assim ainda parece mais importante para você deixar claro que Lívia não tem seu sangue."

Camila desviou o olhar.

Fernanda abriu outra pasta.

"Dr. Álvaro Meireles."

Pela primeira vez, Camila demonstrou medo.

"Eu contratei uma segunda opinião."

"Você pediu que ele mantivesse sua mãe sedada."

"Eu pedi estabilidade."

"Você disse que sua mãe estava reagindo demais."

"Porque uma recuperação repentina destruiria tudo."

Fernanda ergueu as sobrancelhas.

Camila percebeu o que acabara de dizer.

"Tudo o quê?"

"Os acordos."

"Quais?"

"A transição da empresa."

"Então você precisava que Beatriz continuasse incapaz até assumir o controle."

Camila ficou em silêncio.

Fernanda se aproximou.

"Você sabia que a medicação poderia colocar sua mãe em risco?"

"Não."

"Tem certeza?"

"Eu não pedi para ninguém matar minha mãe."

A voz de Camila finalmente subiu.

"Eu queria a empresa."

Bateu a mão na mesa.

"Não queria um cadáver."

Na sala ao lado, Augusto também prestava depoimento.

Quando lhe mostraram as transferências da Vértice, tentou negar.

Depois tentou culpar Camila.

Quando percebeu que as movimentações bancárias estavam documentadas, mudou de estratégia.

"Eu sabia dos negócios."

O investigador perguntou:

"E do médico?"

"Não."

"Da sedação?"

"Não."

"Da intoxicação?"

Augusto levantou os olhos.

"Não."

"Quem colocou a substância na taça da sua mãe?"

"Eu não sei."

"Você estava na festa."

"Assim como umas cinquenta pessoas."

"E tinha motivos financeiros."

Augusto riu nervosamente.

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"Se minha mãe morresse naquela noite, metade dos meus problemas pioraria."

"Por quê?"

"Porque os bens entrariam em inventário, haveria bloqueios, auditoria, conselho, advogado, imprensa."

Ele balançou a cabeça.

"Eu precisava que ela estivesse viva."

A frase soou terrível.

Augusto percebeu.

"Não desse jeito."

Mais tarde, Fernanda reuniu a equipe.

As imagens da festa haviam sido restauradas quase integralmente.

Camila aparecia no pequeno palco quando a taça foi preparada.

Fazia um discurso diante dos convidados.

"Minha mãe sempre diz que prédio bom precisa de fundação forte..."

O horário estava registrado.

Três câmeras mostravam Camila durante todo o intervalo crítico.

Augusto também aparecia.

Conversava com dois investidores do Rio de Janeiro perto do jardim.

Não se aproximara do bar.

Não tocara na garrafa.

Não falara com o garçom.

Fernanda pausou o vídeo.

"Os dois podiam ter mandado alguém."

Um investigador assentiu.

"Mas até agora não encontramos pagamento, mensagem ou contato."

"E o garçom?"

"Júlio Ferreira."

"Localizaram?"

"Sim."

Fernanda virou.

"Onde?"

"Na casa da irmã, em Osasco."

Júlio foi levado para depor naquela noite.

Chegou apavorado.

"Eu não coloquei nada naquela bebida."

Fernanda colocou a fotografia da taça diante dele.

"Foi você quem levou."

"Levei."

"Então explica."

"Eu recebi a taça pronta."

"De quem?"

"Da copa."

"Quem preparou?"

"Não sei."

"Você desapareceu depois da festa."

Júlio passou a mão pelo rosto.

"Porque eu fiquei com medo."

"De quê?"

"Quando soube que dona Beatriz tinha sido envenenada, eu sabia que iam atrás de mim."

"Por que não procurou a polícia?"

Ele abaixou os olhos.

"Eu tinha feito um serviço sem registro. Já tive problema com documento. Entrei em pânico."

Fernanda mostrou uma imagem ampliada.

"Quem mandou trocar a taça dela?"

Júlio ficou olhando.

"Eu não lembro."

"Olha de novo."

Ele apertou os olhos.

"Uma mulher."

"Camila?"

"Não."

"Lívia?"

"Não."

"Quem?"

Júlio respirou fundo.

"Eu não sei o nome."

A investigação voltou à mansão no Jardim Europa.

Dessa vez, Beatriz entrou andando pela porta principal.

Os funcionários ficaram imóveis.

Alguns começaram a chorar.

Uma cozinheira fez o sinal da cruz.

Beatriz não sabia se sentia alívio ou vergonha.

Durante dias, todos acreditaram que ela não reconhecia ninguém.

Agora precisaria conviver com a mentira que também contara a eles.

Uma mulher de cabelos grisalhos aproximou-se.

Teresa Nogueira.

Trabalhava com Beatriz havia mais de vinte anos.

Começara como auxiliar doméstica e se tornara responsável pela administração interna da mansão.

"Muito bom ver a senhora andando."

Beatriz segurou a mão dela.

"Obrigada, Teresa."

Teresa sorriu.

"Eu sabia que a senhora era forte."

Fernanda apareceu atrás.

"Precisamos reconstruir o serviço da noite do aniversário."

Teresa assentiu.

"Claro."

Foram até a copa.

A delegada mostrou as imagens.

Teresa reconheceu funcionários.

Garrafas.

Bandejas.

Horários.

Até parar numa sequência específica.

"A taça dela foi trocada."

Fernanda aproximou a imagem.

"Como sabe?"

"Porque dona Beatriz estava bebendo brut."

Beatriz assentiu.

"Eu sempre bebo."

Teresa apontou para a tela.

"Mas essa taça veio de outra garrafa."

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Fernanda virou.

"Quem pediu?"

Teresa ficou em silêncio.

"Teresa?"

Ela pareceu procurar a lembrança.

"Alguém disse que havia uma garrafa reservada para o brinde."

"Quem?"

Teresa olhou novamente.

"Eu lembro porque achei estranho."

Beatriz se aproximou.

"Por quê?"

"A pessoa conhecia exatamente seus hábitos."

Fernanda perguntou:

"Era alguém da equipe?"

"Não."

"Convidado?"

Teresa hesitou.

"Alguém próximo."

Beatriz sentiu um desconforto.

"Quem?"

Teresa abriu a boca.

Mas um policial chamou Fernanda do corredor.

Haviam encontrado outra gravação.

A delegada saiu por alguns minutos.

Beatriz ficou observando Teresa.

"Você lembrou."

Teresa não respondeu.

"Eu conheço você há vinte anos."

Beatriz baixou a voz.

"Você lembrou de alguma coisa."

Teresa olhou para ela.

"Eu não tenho certeza."

"Então descubra."

Beatriz saiu da copa.

Naquela mesma noite, Lívia estava na sede do grupo com Otávio.

A Vértice havia sido bloqueada.

Mas Lívia não estava interessada apenas nos últimos vinte e dois meses.

"Quero tudo."

Otávio levantou os olhos.

"Tudo o quê?"

"Todas as empresas usadas pelo grupo desde a fundação."

"Estamos falando de décadas."

"Eu sei."

"Por quê?"

"Porque Camila conhecia bem demais o sistema."

Otávio ficou em silêncio.

Lívia continuou.

"Ela sabia onde esconder beneficiário. Sabia como fragmentar compra. Sabia como tirar um terreno do grupo e fazer ele reaparecer em outra empresa."

"Você acha que alguém ensinou?"

"Acho que ela copiou alguma coisa."

Passaram horas analisando arquivos digitalizados.

Empresas encerradas.

Sócios antigos.

Projetos que não existiam mais.

Até Lívia encontrar um nome.

Vértice Desenvolvimento e Gestão Patrimonial Ltda.

Ela parou.

"Otávio."

Ele se aproximou.

"Isso é de quando?"

Lívia verificou.

"Vinte e três anos atrás."

Otávio franziu a testa.

"Não pode ser a mesma empresa."

"Não é."

"Então?"

"Olha o endereço."

Era o mesmo escritório contábil usado na primeira estrutura da Vértice atual.

Otávio puxou uma cadeira.

"Abre."

Os documentos eram antigos.

Alguns estavam digitalizados de forma precária.

Lívia encontrou contratos de aquisição de terrenos na zona sul.

Pagamentos para consultorias.

Empresas intermediárias.

Valores divididos em pequenas operações.

A lógica era assustadoramente familiar.

"Meu Deus."

Otávio continuou lendo.

"Isso é praticamente o mesmo modelo."

"Camila não inventou a Vértice."

Lívia abriu o contrato social.

A empresa original tinha sido criada mais de duas décadas antes.

"Quem era o sócio?"

"Tem uma holding."

"Abre a holding."

Mais um documento.

Depois outro.

Até chegarem à declaração do beneficiário controlador.

Lívia parou de respirar.

Otávio ficou em silêncio.

"Não."

Ela aproximou a tela.

O nome estava ali.

Beatriz Montenegro Sampaio.

Lívia sentiu o estômago virar.

"Isso pode ser assinatura falsa."

Otávio verificou.

"Tem reconhecimento."

"Pode ter sido usado depois."

"Data original."

"Então talvez ela não soubesse."

Otávio olhou para Lívia.

Nenhum dos dois acreditava muito naquela hipótese.

Na manhã seguinte, Lívia levou os documentos para a mansão.

Encontrou Beatriz sozinha na antiga biblioteca.

A mãe estava em pé diante da janela.

Ainda parecia estranha sem cadeira de rodas.

"Encontraram quem colocou o veneno?"

"Não."

Beatriz virou.

"Mas você encontrou alguma coisa."

Lívia colocou a pasta sobre a mesa.

"Encontrei."

Beatriz percebeu imediatamente que não era sobre Camila.

"Que empresa é essa?"

"Vértice Desenvolvimento e Gestão Patrimonial."

Beatriz não tocou na pasta.

Lívia continuou.

"Foi aberta vinte e três anos atrás."

Silêncio.

"Usava empresas intermediárias."

Beatriz não se mexeu.

"Comprava terrenos."

Nada.

"Pagava consultorias."

Beatriz desviou os olhos.

Foi o suficiente.

Lívia sentiu o peito apertar.

"Você conhece."

Beatriz caminhou lentamente até a mesa.

"Lívia..."

"Não."

A filha abriu o contrato.

Virou até a última página.

Apontou para a assinatura.

"Me diz que isso é falso."

Beatriz olhou para o próprio nome.

Não respondeu.

"Me diz."

A voz de Lívia começou a tremer.

"Você passou a vida inteira dizendo que eu precisava ser correta porque as pessoas procurariam qualquer motivo para dizer que eu não merecia estar naquela empresa."

Beatriz fechou os olhos.

"Eu posso explicar."

Lívia deu um passo para trás.

Era exatamente a resposta que não queria ouvir.

"Então é verdadeiro."

Beatriz abriu os olhos.

Pela primeira vez desde que se levantara diante dos filhos na Faria Lima, não parecia a mulher que havia recuperado o controle.

Parecia alguém que acabara de ver uma porta do passado se abrir.

Lívia olhou para a assinatura outra vez.

Camila tinha roubado o Grupo Montenegro usando uma estrutura criada muito antes dela ter poder suficiente para inventá-la.

A filha não tinha criado aquele método.

Tinha aprendido.

E a primeira pessoa da família Montenegro a colocar o próprio nome naquela engrenagem tinha sido Beatriz.

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