《Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada》Capítulo 7

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Na manhã da assembleia extraordinária, o céu de São Paulo estava cinza.

Às oito e meia, os primeiros carros começaram a entrar na garagem da sede do Grupo Montenegro Urbanismo, na Avenida Faria Lima.

Conselheiros, acionistas, advogados e diretores subiam em silêncio para o último andar.

Todos sabiam que aquela reunião decidiria o futuro da empresa.

E, para muitos, também decidiria o fim definitivo de Beatriz Montenegro Sampaio como mulher mais poderosa do grupo.

Camila chegou cedo.

Vestia um tailleur bege, cabelo preso e um broche de ouro que pertencera à avó.

Entrou na sala principal como se o lugar já fosse dela.

Sérgio Tavares caminhava ao lado, carregando duas pastas.

Augusto apareceu vinte minutos depois.

Dessa vez, de terno.

Não sorria.

Camila olhou para ele.

"Está nervoso?"

"Por quê?"

"Você parece."

"Eu só quero terminar isso."

Ela se aproximou.

"Depois da votação, o jurídico libera a operação."

Augusto baixou a voz.

"E o dinheiro?"

"Você vai receber o que combinamos."

"Quero isso por escrito."

Camila soltou um suspiro.

"Você sempre foi paranoico."

"E você sempre foi mentirosa."

Ela sorriu.

"Por isso trabalhamos tão bem juntos."

Augusto não devolveu o sorriso.

Na outra ponta do corredor, Otávio Braga entrou na sala sem cumprimentar nenhum dos dois.

Camila percebeu.

"Bom dia, Otávio."

"Bom dia."

"Só isso?"

Ele abriu a pasta.

"Hoje eu prefiro falar quando tiver alguma coisa importante para dizer."

Camila estreitou os olhos.

Mas não respondeu.

Às nove em ponto, Roberto Falcão abriu a reunião.

"Declaro iniciada a assembleia extraordinária do Grupo Montenegro Urbanismo."

As portas foram fechadas.

Mais de vinte pessoas estavam presentes.

Outras participavam por videoconferência.

No centro da mesa permanecia vazia a cadeira de Beatriz.

Camila olhou para ela por alguns segundos.

Depois falou:

"Antes de iniciarmos a votação, acredito que todos precisam entender a gravidade do estado da minha mãe."

Sérgio conectou um computador ao telão.

As luzes diminuíram.

Apareceu uma gravação.

Beatriz estava deitada na cama da Clínica Santa Cecília.

Olhos fechados.

Corpo imóvel.

Uma enfermeira ajustava o soro.

Camila olhou para os conselheiros.

"Minha mãe não fala."

Outra imagem.

Beatriz na cadeira de rodas.

"Não anda."

Outra.

Beatriz aparentemente sem reação durante uma avaliação.

"E não possui, neste momento, condições de exercer qualquer decisão executiva ou societária."

Roberto interveio.

"O quadro foi declarado permanente?"

Sérgio respondeu:

"A equipe responsável considera improvável uma recuperação funcional rápida."

Otávio ergueu os olhos.

"Qual equipe?"

Camila olhou para ele.

"Dr. Álvaro Meireles."

"Henrique Valverde não concorda."

"Henrique não é mais o médico responsável."

Otávio encostou na cadeira.

"Conveniente."

Camila endureceu o rosto.

"Tem algo que queira dizer?"

"Ainda não."

Sérgio continuou.

"Diante da incapacidade da controladora, propomos a nomeação de Camila Montenegro Sampaio como presidente executiva interina, com poderes ampliados até nova avaliação médica."

Augusto mexeu na própria caneta.

Roberto olhou para ele.

"Você apoia a proposta?"

Augusto hesitou apenas um instante.

"Apoio."

Camila respirou discretamente.

O voto começou.

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Um por um.

Sim.

Sim.

Abstenção.

Sim.

Quando o último acionista votou, Sérgio fez a contagem.

"Proposta aprovada."

Camila fechou os olhos por um segundo.

Depois caminhou até a cadeira da mãe.

Sentou-se.

Augusto observou.

Não parecia feliz.

Parecia apenas aliviado.

Camila colocou diante de si o documento que formalizaria a decisão.

Pegou uma caneta.

"Então vamos continuar."

Foi quando se ouviu um som do lado de fora.

Passos.

Firmes.

Regulares.

Depois o som nítido de saltos altos sobre o piso de mármore.

Camila parou.

Augusto ergueu a cabeça.

Otávio não se moveu.

As portas se abriram.

Primeiro entrou Lívia.

Depois Marina.

Logo atrás, dois investigadores da Polícia Civil.

E então Beatriz apareceu.

Em pé.

Vestindo um conjunto preto perfeitamente ajustado.

Cabelos penteados.

Olhar firme.

Nenhuma cadeira de rodas.

Nenhum andador.

Nenhum braço segurando o dela.

Ela entrou caminhando.

Sozinha.

O silêncio foi tão profundo que o ruído do ar-condicionado pareceu alto demais.

Augusto ficou branco.

Levantou-se tão rápido que bateu na mesa.

"Mãe...?"

Camila não respirava.

A caneta escapou dos dedos.

Caiu sobre o tampo de vidro.

Beatriz não olhou para mais ninguém.

Caminhou diretamente até a filha.

Camila tentou se levantar.

"Isso..."

Beatriz parou diante dela.

"Continue."

Camila abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

Beatriz inclinou levemente a cabeça.

"Quero ver você roubar minha empresa olhando nos meus olhos."

Sérgio fechou a pasta imediatamente.

Roberto se levantou.

"Beatriz?"

Ela virou.

"Bom dia, Roberto."

"Você está..."

"Perfeitamente consciente."

Camila recuperou a voz.

"Você mentiu."

Beatriz olhou de volta.

"Sim."

"Para todos nós."

"Sim."

"Você fingiu estar paralisada?"

"Fingi."

Augusto passou as mãos pelos cabelos.

"Que porra é essa?"

Beatriz virou lentamente.

"Não use esse tom comigo."

Ele deu um passo para trás por reflexo.

Por alguns segundos, Beatriz viu novamente o menino que obedecia quando ela apenas levantava uma sobrancelha.

Depois a raiva voltou ao rosto dele.

"Você armou isso."

"Eu observei."

"Você nos colocou numa armadilha."

Beatriz quase sorriu.

"Eu não mandei ninguém roubar setenta e dois milhões."

O rosto de Augusto mudou.

Camila virou para ele.

Beatriz percebeu.

Era a primeira rachadura real.

Ela fez um sinal.

Otávio se levantou.

Abriu o notebook.

"Vou apresentar uma sequência de operações realizadas nos últimos vinte e dois meses."

No telão apareceu o nome da Vértice Participações.

Alguns conselheiros começaram a cochichar.

Camila se levantou.

"Isso não está na pauta."

Beatriz respondeu:

"Agora está."

Otávio continuou.

"Terrenos pertencentes ao Grupo Montenegro foram vendidos abaixo do valor potencial para empresas intermediárias."

Apareceu o primeiro contrato.

Depois o segundo.

"Pouco tempo depois, esses ativos foram revendidos com margens muito superiores."

Sérgio fechou o computador dele.

"Isso precisa ser analisado juridicamente antes de qualquer acusação."

Uma das investigadoras deu um passo à frente.

"Vai ser."

Camila olhou para a mulher.

"Quem é você?"

"Delegada Fernanda Reis."

Dois policiais apareceram no corredor.

"Enquanto essa reunião acontece, ninguém sai deste andar."

Augusto se levantou.

"Isso é prisão?"

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"Não."

Fernanda respondeu sem alterar o tom.

"Ainda."

Otávio abriu outro arquivo.

"Os beneficiários finais das operações aparecem por meio de participações indiretas."

Na tela apareceu um nome.

Camila Montenegro Sampaio.

Todos olharam para ela.

Camila ficou imóvel.

Depois surgiu o segundo.

Augusto Montenegro Sampaio.

Augusto apontou imediatamente.

"Foi ela."

Camila virou.

"O quê?"

"Você criou a estrutura."

"Seu nome está aí."

"Porque você disse que era seguro."

Camila soltou uma risada incrédula.

"Você recebeu milhões."

"E você ficou com o controle."

"Você sabia de tudo."

"Não sabia da metade."

"Mentiroso."

Augusto bateu a mão na mesa.

"Você me disse que eram operações internas."

"E você nunca perguntou por que o dinheiro entrava nas suas empresas?"

"Você cuidava disso!"

Camila apontou para ele.

"Você assinou."

"Porque você mandou!"

Beatriz observava os dois.

Era quase fascinante.

Durante anos, brigaram diante dela como inimigos.

Agora, diante das provas, não demoraram nem cinco minutos para tentar destruir um ao outro.

Lívia entrou completamente na sala.

Camila percebeu.

Seu rosto mudou.

"Claro."

Lívia parou.

"Claro o quê?"

"Você."

Camila apontou para os documentos.

"Foi você que montou isso."

Lívia quase riu.

"Eu?"

"Você teve acesso ao financeiro."

"Porque sou diretora."

"E todos os contratos têm suas credenciais."

Alguns olhares se voltaram para Lívia.

Camila percebeu a oportunidade.

"Está vendo?"

Ela virou para os conselheiros.

"Enquanto todo mundo estava preocupado com minha mãe, ela controlava documentos, médicos, funcionários e acesso à empresa."

Lívia permaneceu calma.

Camila continuou.

"Ela sempre quis provar que pertencia a essa família."

Beatriz se moveu.

Mas Lívia levantou a mão.

"Deixa."

Abriu o próprio notebook.

"Você tem razão em uma coisa."

Camila franziu a testa.

"Minhas credenciais aparecem."

Lívia projetou o relatório.

"Mas os acessos foram feitos enquanto eu estava fora de São Paulo."

Datas.

Horários.

Registros.

"Neste dia, eu estava numa vistoria em Salvador."

Abriu outra linha.

"Nesta madrugada, meu acesso foi utilizado no décimo sexto andar desta sede."

Camila perdeu a expressão.

Lívia continuou.

"Mais especificamente, numa estação vinculada à diretoria executiva."

O telão mostrou o terminal.

Gabinete de Camila Montenegro Sampaio.

A sala ficou em silêncio.

Augusto virou lentamente para a irmã.

Camila não olhou para ele.

Lívia abriu mais um arquivo.

"E existe mais."

Sérgio falou rapidamente.

"Minha cliente não vai responder sem análise completa."

Beatriz olhou para ele.

"Sua cliente?"

Sérgio percebeu o erro.

Beatriz sorriu sem humor.

"Interessante."

Marina então se aproximou.

Entregou uma pasta à delegada.

"Exames toxicológicos."

Camila olhou para ela.

Marina continuou.

"Uma prescrição foi alterada depois que dona Beatriz voltou para casa."

Fernanda abriu o documento.

"Quem autorizou?"

Marina respondeu:

"Camila."

Camila deu um passo.

"Eu autorizei um médico. Não autorizei crime nenhum."

Beatriz falou:

"Você autorizou Álvaro."

"Para tratar você."

"Para me tratar ou para me manter incapaz?"

Camila não respondeu.

Marina entregou outro arquivo.

"Também temos uma gravação."

Augusto olhou para a irmã.

Camila empalideceu.

A voz dela saiu pelo sistema de som da sala.

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"Minha mãe está reagindo demais."

Algumas pessoas se entreolharam.

Depois veio a segunda frase.

"Eu preciso que ela continue exatamente como está."

Camila fechou os olhos.

Augusto afastou-se da irmã.

"Você fez isso?"

Ela virou para ele.

"Não começa."

"Você tentou dopar a mamãe?"

"Você está se fazendo de inocente?"

"Eu não sabia disso."

"Mas sabia do dinheiro."

"Isso é diferente."

"Claro. Porque roubar é aceitável, só não pode parecer feio na frente da polícia."

Augusto ficou vermelho.

"Você ficou maluca."

Camila apontou para ele.

"E você sabia que ela não podia se recuperar antes da assembleia."

"Eu sabia que isso atrapalharia o acordo."

"E não perguntou por quê."

"Porque eu confiei em você."

Camila soltou uma risada amarga.

"Esse talvez tenha sido seu primeiro erro."

Beatriz bateu a mão sobre a mesa.

"Chega."

Os dois se calaram.

Ela ficou no centro da sala.

Olhou primeiro para Camila.

Depois para Augusto.

"Vocês acharam que eu não podia ouvir."

Ninguém se moveu.

"Então falaram."

Beatriz aproximou-se do filho.

"Você negociou minha casa."

Depois da filha.

"Você negociou minha cadeira."

Olhou para os dois.

"E juntos negociaram minha empresa."

Augusto baixou os olhos.

Camila permaneceu ereta.

Beatriz continuou.

"Eu pensei que o pior seria descobrir que meus filhos queriam meu dinheiro."

Sua voz falhou por um instante.

"Eu estava errada."

Respirou fundo.

"O pior foi descobrir que vocês só precisavam acreditar que eu não podia impedir."

Fernanda se aproximou.

"Senhora Beatriz, precisamos conversar sobre a intoxicação."

Camila rapidamente respondeu:

"Eu não envenenei ninguém."

Augusto virou.

"Eu também não."

Beatriz olhou para os dois.

Pela primeira vez naquela manhã, sua expressão mudou.

Aquela pergunta ainda estava aberta.

Ela tinha encontrado o dinheiro.

A fraude.

As assinaturas falsas.

O plano para mantê-la sedada.

Mas tudo aquilo havia começado depois de ela cair.

Beatriz olhou para Fernanda.

Depois para os filhos.

E perguntou:

"Quem colocou veneno na minha taça naquela noite?"

Ninguém respondeu.

Camila ficou imóvel.

Augusto também.

Beatriz percebeu algo que não tinha querido admitir até aquele momento.

Ela sabia quem aproveitou sua doença.

Sabia quem tentou roubá-la.

Sabia quem queria mantê-la incapaz.

Mas ainda não sabia quem havia dado início a tudo.

E talvez a pessoa que tentou envenená-la não estivesse do outro lado daquela mesa.

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