A chave não entrava na fechadura havia mais de vinte anos.
Alexandre sabia disso porque crescera ouvindo a mesma frase.
"Aquele quarto era da sua avó. Não há nada lá dentro."
Vitória repetira aquilo durante toda a infância dele.
O terceiro andar da mansão Montenegro tinha cinco quartos.
Quatro haviam sido reformados.
Um permanecera intocado.
Porta escura.
Maçaneta antiga.
Cortinas sempre fechadas.
Nem as funcionárias entravam.
Alexandre nunca questionara.
Até agora.
Bruno ficou parado diante da porta com um molho de chaves antigas nas mãos.
Isabela estava alguns passos atrás.
Mariana também havia ido.
Alexandre olhou para Bruno.
"Você tem certeza?"
"Tenho."
"Esse quarto era de Adriana?"
"Era."
Alexandre sentiu raiva só de olhar para a porta.
"Minha mãe disse durante trinta anos que era da mãe do Augusto."
Bruno abaixou a cabeça.
"Foi o que mandaram dizer."
"Quem mandou?"
Bruno hesitou.
"Seu pai sabia."
Alexandre ficou tenso.
"Augusto?"
"Sim."
A resposta incomodou.
Cada vez que acreditava compreender Augusto, surgia uma nova sombra.
Alexandre estendeu a mão.
"Abre."
Bruno escolheu a terceira chave.
Girou.
A fechadura resistiu.
Depois cedeu com um estalo seco.
O cheiro veio primeiro.
Madeira fechada.
Poeira.
Tecido envelhecido.
Bruno acendeu a luz.
Nada aconteceu.
"Deve estar desligada."
Isabela ligou a lanterna do celular.
A claridade atravessou o quarto.
Era como entrar em uma fotografia congelada.
Uma cama de madeira.
Uma penteadeira coberta por um lençol.
Livros antigos.
Duas malas.
Uma poltrona próxima à janela.
Na parede, ainda havia uma fotografia de Adriana.
Alexandre se aproximou.
Era a mesma mulher da foto que Bruno havia mostrado.
Mais jovem.
Sorrindo.
Ela não parecia alguém que abandonaria tudo sem deixar vestígios.
Isabela passou os dedos sobre uma escrivaninha.
"Por que ninguém mexeu em nada?"
Bruno respondeu:
"Depois da morte dela, o quarto foi trancado."
Alexandre virou bruscamente.
"Então todo mundo sabia que ela morreu?"
"Alguns."
"E deixaram a família inteira acreditar que ela estava em Portugal?"
Bruno respirou fundo.
"Foi decidido assim."
"Decidido por quem?"
Silêncio.
Alexandre se aproximou.
"Bruno."
O segurança levantou os olhos.
"Augusto."
Alexandre sentiu um desconforto profundo.
"Meu pai mandou esconder a morte da própria irmã?"
"Mandou dizer que ela tinha ido embora."
"Por quê?"
"Eu nunca soube."
Isabela percebeu o rosto de Alexandre.
"Antes de concluir qualquer coisa, descobre o que aconteceu."
Ele assentiu.
Bruno permaneceu perto da porta.
Parecia inquieto.
Mariana percebeu.
"Você sabe mais."
"Eu sei o que vi."
Alexandre virou para ele.
"Então conta."
Bruno ficou alguns segundos sem falar.
Quando começou, parecia retornar a uma noite que tentara esquecer durante décadas.
"Eu tinha vinte e três anos."
Era um dos seguranças mais novos da mansão.
Naquela época, Augusto ainda oferecia jantares frequentes para investidores e políticos.
Adriana aparecia muito na casa.
Ela não morava permanentemente ali.
Mas tinha aquele quarto.
"Ela discutia muito com Dona Vitória."
Alexandre perguntou:
"Sobre Henrique?"
Bruno assentiu.
"Também."
"Ela sabia do caso?"
"Sabia."
Isabela cruzou os braços.
"Vitória e Henrique ainda estavam juntos?"
"Eu não sei."
Bruno olhou para Alexandre.
"Mas Dona Adriana dizia que Henrique nunca tinha saído de verdade da vida da sua mãe."
Alexandre sentiu o maxilar endurecer.
"E o dinheiro?"
Bruno respirou fundo.
"Foi o outro motivo."
Adriana começara a aparecer com documentos.
Fazia perguntas ao setor financeiro.
Conversava com funcionários.
Pedia cópias de contratos antigos.
Uma noite, Bruno a ouviu discutindo com Henrique perto da garagem.
"Você está roubando meu irmão."
Henrique respondera alguma coisa que Bruno não conseguiu escutar.
Adriana gritou novamente.
"Eu vou contar tudo ao Augusto."
Dois dias depois, ela morreu.
O silêncio dentro do quarto ficou pesado.
Alexandre perguntou:
"Como?"
Bruno olhou para o corredor.
"A escada principal."
Isabela sentiu um arrepio.
"Ela caiu?"
"Foi o que disseram."
"Você viu?"
"Vi parte."
Bruno fechou os olhos.
Naquela noite havia uma tempestade forte em São Paulo.
Poucos funcionários estavam na mansão.
Bruno fazia ronda no corredor do térreo quando ouviu gritos vindos do andar superior.
Uma mulher.
Depois uma voz masculina.
"Quem?"
Bruno balançou a cabeça.
"Não consegui identificar."
"Henrique?"
"Talvez."
"Augusto?"
Bruno demorou.
"Também poderia ser."
Alexandre ficou imóvel.
Bruno continuou.
"Quando cheguei perto da escada, vi Dona Adriana no alto."
"Ela estava sozinha?"
"Não."
"Havia alguém com ela?"
"Uma pessoa."
"Quem?"
"Eu só vi parte do corpo."
A luz havia oscilado com a tempestade.
Bruno viu Adriana gesticulando.
Viu outra pessoa diante dela.
Ouviu uma frase.
Depois Adriana recuou.
E caiu.
"Você viu alguém empurrá-la?"
"Não."
Alexandre se aproximou.
"Tem certeza?"
"Eu vi o corpo dela perder o equilíbrio."
"Isso não é a mesma coisa."
"Eu sei."
Bruno engoliu em seco.
"Quando cheguei à escada, ela já estava no chão."
"Quem estava lá em cima?"
"Não havia mais ninguém."
Mariana perguntou:
"A polícia investigou?"
"Pouco."
"Acidente?"
"Foi registrado assim."
"Queda doméstica?"
"Sim."
Alexandre sentiu a raiva ferver.
"E você ficou calado."
Bruno recebeu a acusação sem se defender.
"Fiquei."
"Por vinte anos."
"Eu tinha uma filha pequena."
"Isso justifica?"
"Não."
A resposta direta desarmou parte da raiva.
Bruno continuou.
"No dia seguinte, Augusto me chamou."
Alexandre levantou os olhos.
"O que ele disse?"
"Que eu não tinha visto nada."
"Ele te ameaçou?"
"Não."
"Então por que obedeceu?"
Bruno demorou para responder.
"Porque ele parecia destruído."
Alexandre franziu a testa.
"Destruído?"
"Eu nunca tinha visto Augusto Montenegro daquele jeito."
Bruno olhou para a antiga fotografia de Adriana.
"Ele chorou."
Isso confundiu ainda mais tudo.
Se Augusto não tinha nada a esconder, por que abafara o caso?
Se tinha, por que chorava daquela forma?
Isabela começou a examinar o quarto.
Abriu gavetas.
Pastas.
Livros.
A maioria estava vazia.
"Se Adriana investigava as contas, devia ter guardado alguma coisa."
Mariana assentiu.
"Provavelmente fora do lugar óbvio."
Alexandre olhou para a penteadeira.
"Ninguém entrou aqui desde a morte?"
Bruno respondeu:
"Vitória entrou uma vez."
Alexandre virou.
"Quando?"
"No dia seguinte."
"Sozinha?"
"Com Henrique."
Todos ficaram em silêncio.
Isabela olhou para Mariana.
"Então, se havia documentos visíveis, já desapareceram."
Ela continuou andando.
Passou pela parede próxima à cama.
Parou.
Voltou.
Bateu com os dedos.
Som sólido.
Dois passos adiante.
Bateu novamente.
Som diferente.
Oco.
"Alexandre."
Ele se aproximou.
"O quê?"
Isabela bateu outra vez.
"Tem espaço atrás."
Bruno trouxe uma ferramenta.
Depois de alguns minutos, conseguiram soltar parte do painel de madeira.
Atrás havia uma pequena cavidade.
E uma caixa metálica.
Isabela ficou sem respirar por um instante.
"Achamos."
Alexandre retirou a caixa.
A fechadura estava enferrujada.
Bruno forçou.
Abriu.
Dentro havia fotografias.
Extratos bancários.
Cópias de cheques.
Cartões de empresas que ninguém reconheceu.
E quatro fitas cassete.
Mariana pegou um envelope.
"Tem nomes aqui."
Alexandre examinou os documentos.
Henrique aparecia em alguns.
Vitória em outros.
Empresas.
Valores.
Datas.
Tudo muito anterior aos cento e vinte milhões que haviam encontrado.
Isabela ergueu uma fotografia.
Vitória e Henrique estavam dentro de um carro.
A imagem parecia ter sido tirada de longe.
Atrás havia uma data.
Um mês antes da morte de Adriana.
"Ela estava seguindo os dois."
Alexandre encontrou um bloco pequeno.
Algumas páginas haviam sido arrancadas.
Na última folha escrita havia apenas uma frase.
Ele leu em silêncio.
Depois entregou para Isabela.
Ela empalideceu.
Mariana se aproximou.
A frase estava escrita à mão.
"Se alguma coisa acontecer comigo, Vitória sabe por quê."
Alexandre sentiu um arrepio percorrer o corpo inteiro.
"Ela sabia que estava em perigo."
Mariana guardou o papel cuidadosamente.
"Isso precisa ser preservado."
Isabela apontou para as fitas.
"Precisamos ouvir."
Bruno encontrou um aparelho antigo em um armário do quarto.
Surpreendentemente, ainda funcionava depois que trocaram as pilhas.
Alexandre colocou a primeira fita.
Chiado.
Depois silêncio.
Então a voz de Adriana.
"Registro número um. As transferências começaram antes do que eu imaginava."
Alexandre e Isabela se entreolharam.
Adriana citava empresas.
Datas.
Valores.
Na segunda fita, falava sobre Vitória.
"Ela continua encontrando Henrique escondida."
Na terceira, o tom mudava.
Adriana parecia nervosa.
"Augusto ainda não sabe de tudo."
Alexandre franziu a testa.
"Ela estava protegendo ele."
Mariana respondeu:
"Ou escondendo alguma coisa dele."
Chegaram à quarta fita.
A etiqueta estava quase apagada.
Havia apenas uma data.
Três dias antes da morte de Adriana.
Alexandre colocou.
Primeiro veio um barulho de porta.
Depois a voz dela.
"Você sabia?"
Uma voz masculina respondeu ao fundo.
Baixa.
Difícil de entender.
Adriana parecia furiosa.
"Há dinheiro saindo das empresas há anos."
O homem falou novamente.
Dessa vez mais perto.
Alexandre congelou.
Conhecia aquela voz.
Tinha ouvido durante toda a infância.
Nas reuniões.
No jantar.
Nos conselhos que recebia antes de dormir.
Era Augusto.
Isabela olhou imediatamente para ele.
Na gravação, Adriana falou:
"Eu vou contar tudo."
Houve um ruído.
Passos.
Então a voz de Augusto apareceu com clareza.
"Adriana, ninguém pode descobrir isso."