"Vitória não ficou com todo o dinheiro."
Alexandre permaneceu diante de Henrique sem piscar.
Aquela era a última coisa que esperava ouvir.
"Você tem cinco segundos para explicar."
Henrique puxou uma cadeira e sentou.
Dessa vez, Alexandre não tentou impedi-lo.
"Os cento e vinte milhões que você encontrou são apenas parte das movimentações."
"Eu sei."
"Não. Você não sabe."
Henrique colocou o celular sobre a mesa.
"Porque está procurando o dinheiro como se Vitória e eu tivéssemos dividido tudo."
"E não dividiram?"
"Não."
Alexandre soltou uma risada amarga.
"Então agora você virou inocente?"
"Eu não disse isso."
Henrique sustentou o olhar dele.
"Eu ajudei sua mãe a esconder operações."
"Quais?"
"Pagamentos sem justificativa. Empresas usadas como intermediárias. Contratos que não deveriam ter sido aprovados."
Alexandre sentiu a raiva crescer.
"Você está confessando fraude."
"Estou dizendo que participei."
"Qual é a diferença?"
"Nenhuma para a Justiça."
Henrique respirou fundo.
"Mas existe uma diferença para o que você está tentando descobrir."
Alexandre cruzou os braços.
"Continua."
"Vitória precisava de alguém que entendesse a estrutura jurídica do fundo. Eu fiz isso."
"Por dinheiro?"
"Por medo."
"De quem?"
Henrique hesitou.
"Da família Montenegro."
Alexandre quase riu.
"Você engravidou a esposa de Augusto, deixou outro homem criar seu filho e depois passou décadas administrando o patrimônio dele. Não me venha falar de medo."
Henrique recebeu as palavras sem reagir.
"Você tem direito de me odiar."
"Não tenho energia para odiar você."
Alexandre apontou para a porta.
"Tenho energia para descobrir o que fizeram."
Henrique desbloqueou o celular.
Abriu uma fotografia de um documento antigo.
"Então olha."
Alexandre pegou o aparelho.
Era um comprovante bancário.
Valor: R$ 12,8 milhões.
Depois outro.
R$ 19 milhões.
Outro.
R$ 8,5 milhões.
Todos tinham um código em comum.
AM-04.
"Que código é esse?"
"Beneficiário final."
"Quem?"
Henrique olhou para ele.
"A.M."
Alexandre sentiu o corpo endurecer.
"A.M."
"Sim."
"Augusto Montenegro."
Henrique não respondeu.
Alexandre encarou novamente os documentos.
Por um instante, tudo pareceu encaixar.
Talvez Augusto estivesse desviando dinheiro.
Talvez a investigação descrita na carta fosse uma mentira.
Talvez o homem que Alexandre acabara de reconstruir como pai tivesse escondido outra vida.
Mas Henrique balançou a cabeça.
"Não era Augusto."
"Como sabe?"
"Porque algumas dessas transferências aconteceram depois que ele morreu."
Alexandre congelou.
Voltou às datas.
Henrique estava certo.
Uma das operações havia ocorrido quatro anos antes.
Augusto morrera seis anos atrás.
"Então quem é A.M.?"
Henrique se levantou.
"Essa é a pergunta que você deveria fazer para sua mãe."
"Você sabe."
"Eu sei uma parte."
"Fala."
Henrique pegou o celular de volta.
"Não sem proteção."
Alexandre perdeu a paciência.
"Proteção?"
"Se eu entregar tudo o que tenho, não vou sair disso como homem livre."
"Talvez não devesse."
Henrique assentiu.
"Talvez."
Caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se.
"Procure os registros anteriores à morte de Augusto."
"Por quê?"
"Porque A.M. já recebia dinheiro naquela época."
Henrique abriu a porta.
"E, Alexandre..."
Ele parou.
"Nem todo dinheiro que saiu do fundo foi roubado."
A porta se fechou.
Na manhã seguinte, Mariana recebeu as cópias dos documentos.
Ela e Rafael passaram horas cruzando registros bancários, contratos e cadastros empresariais.
Isabela acompanhava parte da investigação à distância.
Ainda evitava a mansão Montenegro.
Não queria Sofia perto de Vitória.
E não queria que a investigação fosse confundida com uma reconciliação com Alexandre.
No meio da tarde, Mariana encontrou a primeira inconsistência.
"Rafael."
Ele se aproximou.
"O quê?"
"Olha a data de abertura desta empresa."
Era uma holding antiga.
Alvorada Administração e Participações.
Aberta havia vinte e quatro anos.
O representante original aparecia apenas por iniciais.
A.M.
Rafael pesquisou o CNPJ histórico.
"Empresa encerrada."
"Continua."
Vieram alterações societárias.
Procurações.
Contas vinculadas.
Mariana encontrou uma transferência antiga.
Depois outra.
Somando os registros identificados até aquele momento, quase setenta milhões de reais haviam passado por estruturas ligadas ao mesmo beneficiário.
Rafael franziu a testa.
"Setenta milhões."
"Mais ou menos."
"E ninguém sabe quem é A.M."
Mariana olhou para a tela.
"Talvez saibamos."
Ela havia encontrado uma procuração digitalizada.
O documento era antigo.
A imagem estava ruim.
Mas o nome aparecia inteiro.
Mariana ampliou.
Adriana Montenegro.
Rafael leu em silêncio.
"Quem é Adriana Montenegro?"
Mariana pegou o telefone.
"É exatamente o que vamos descobrir."
Alexandre chegou ao escritório vinte minutos depois.
Mariana colocou a procuração diante dele.
"Reconhece esse nome?"
Ele leu.
Adriana Montenegro.
"Não."
"Tem certeza?"
"Nunca ouvi."
"Ela aparece em documentos ligados ao patrimônio da sua família."
Alexandre franziu a testa.
"Montenegro é um sobrenome grande."
"Não neste caso."
Mariana abriu uma certidão antiga.
"Augusto Montenegro tinha uma irmã."
Alexandre ficou imóvel.
"Meu pai era filho único."
"Não."
"Era."
"Foi isso que te contaram."
Mariana girou a tela.
Certidão de nascimento.
Adriana Maria Montenegro.
Pais idênticos aos de Augusto.
Nascida quatro anos depois dele.
Alexandre sentou.
"Isso é impossível."
Rafael colocou outro documento sobre a mesa.
"Não é."
Havia registros escolares.
Uma antiga matrícula universitária.
Uma participação societária no início da história do Grupo Montenegro.
Adriana não era uma parente distante.
Era irmã de Augusto.
E participara dos negócios da família.
"Por que nunca ouvi falar dela?"
Ninguém respondeu.
Alexandre já sabia quem poderia responder.
Voltou à mansão no Jardim Europa antes do anoitecer.
Vitória estava na biblioteca.
Quando ele entrou, colocou uma pasta sobre a mesa.
"Quem é Adriana?"
Vitória não reagiu imediatamente.
"Adriana quem?"
Alexandre abriu a pasta.
"Montenegro."
A mão de Vitória parou sobre o copo.
Foi um movimento mínimo.
Mas Alexandre viu.
"Quem é Adriana Montenegro?"
Vitória se levantou.
"Não sei onde você está conseguindo essas coisas."
"Ela era irmã de Augusto."
Silêncio.
"Por que você nunca me contou?"
"Porque não havia motivo."
Alexandre riu.
"Meu pai tinha uma irmã e não havia motivo para eu saber?"
"Ela saiu da família."
"Como?"
Vitória caminhou até a janela.
"Adriana sempre foi complicada."
"Isso não responde."
"Ela não concordava com Augusto sobre os negócios."
"E?"
"Foi embora."
"Para onde?"
"Portugal."
Alexandre observou o rosto da mãe.
"Quando?"
"Há mais de vinte anos."
"Qual cidade?"
Vitória virou.
"O quê?"
"Lisboa? Porto? Coimbra?"
"Eu não lembro."
"Você lembra de cada convidado que entrou nesta casa nos últimos trinta anos, mas não lembra para onde foi a única irmã do seu marido?"
Vitória endureceu.
"Não use esse tom comigo."
"Ela está viva?"
A pergunta mudou tudo.
Vitória não respondeu.
Alexandre se aproximou.
"Minha mãe acabou de esquecer como falar?"
"Adriana não faz parte dessa família há muito tempo."
"Eu perguntei se ela está viva."
Vitória desviou os olhos.
Alexandre sentiu um arrepio.
"Você disse que ela foi para Portugal."
"Foi o que Augusto dizia."
"Você acabou de mudar a frase."
Vitória percebeu o erro.
Tarde demais.
"Primeiro você disse que ela foi embora. Agora diz que era o que Augusto dizia."
"Você está procurando contradições onde não existem."
"Existem setenta milhões de reais ligados ao nome dela."
Vitória empalideceu.
Alexandre viu.
"Agora você ficou com medo."
"Não estou com medo."
"Está."
Ele colocou as duas mãos sobre a mesa.
"Quem era Adriana?"
"Já respondi."
"Por que o dinheiro do fundo passou por contas ligadas a ela?"
"Não sei."
"Henrique sabe."
Vitória virou bruscamente.
"Você falou com Henrique?"
A reação foi instantânea.
Alexandre quase sorriu.
"Agora eu sei que estou perto."
"Você não faz ideia do que está fazendo."
"Então me conta."
Vitória se aproximou.
"Escuta uma coisa. Algumas histórias foram enterradas porque precisavam ser enterradas."
Alexandre sentiu o sangue gelar.
"Enterradas?"
Vitória percebeu novamente o peso da própria palavra.
"É uma maneira de falar."
"Então fala de outra maneira."
Ela pegou a bolsa.
"Eu não vou continuar essa conversa."
Vitória saiu da biblioteca.
Alexandre permaneceu sozinho.
Ouviu passos no corredor.
Pensou que a mãe tivesse voltado.
Mas era Bruno Santos.
O chefe da segurança estava parado junto à porta.
Tinha o rosto tenso.
"Senhor Alexandre."
"Agora não, Bruno."
"É sobre Dona Adriana."
Alexandre virou imediatamente.
"Você conheceu Adriana?"
Bruno hesitou.
"Conheci."
Alexandre sentiu o coração acelerar.
"Minha mãe disse que ela foi morar em Portugal."
Bruno baixou os olhos.
"Foi isso que mandaram todos dizer."
"Quem mandou?"
"Seu pai."
"Augusto?"
"Sim."
Alexandre se aproximou.
"Por quê?"
Bruno olhou para o corredor, certificando-se de que estavam sozinhos.
Depois fez um gesto.
"Venha comigo."
Os dois desceram até uma pequena sala ao lado da antiga garagem.
Bruno abriu um armário de metal.
No fundo havia uma caixa de fotografias.
Ele retirou uma.
A imagem estava envelhecida.
Quatro pessoas apareciam diante da mansão Montenegro.
Augusto, ainda jovem.
Vitória.
Henrique.
E uma mulher de cabelos escuros, com pouco mais de trinta anos.
Bruno entregou a fotografia.
Alexandre olhou para o rosto desconhecido.
Havia algo familiar nos olhos dela.
"Quem é?"
Bruno apontou para a mulher.
"Essa é Adriana."
Alexandre ergueu os olhos.
"Ela foi para Portugal?"
Bruno ficou em silêncio.
Depois balançou lentamente a cabeça.
"Não."
Alexandre sentiu o peito apertar.
"Então onde ela está?"
Bruno olhou para a fotografia mais uma vez.
Quando respondeu, sua voz saiu quase como um sussurro.
"E ela morreu dentro desta casa."