Isabela ampliou a fotografia até os rostos perderem definição.
Depois diminuiu.
Ampliou novamente.
Nada mudava.
Antônio Oliveira Martins estava ali.
E Dante também.
A data impressa no canto inferior correspondia à noite em que seu pai morreu.
Isabela levantou os olhos.
"Você estava lá."
Dante não respondeu.
Bruno olhou para ele.
"Dante?"
Isabela colocou o celular sobre a mesa.
"Eu disse que você estava lá."
"Eu estava."
A resposta atingiu Isabela com mais força do que uma negação.
Ela se levantou.
"Você sabia."
"Sim."
"Desde quando?"
"Desde aquela noite."
Isabela sentiu o rosto esquentar.
"Eu perguntei se você sabia alguma coisa sobre a morte do meu pai."
"Eu sei."
"E você mentiu."
"Eu omiti."
Ela soltou uma risada amarga.
"Não faz isso."
"O quê?"
"Não troca a palavra para parecer menos feio."
Dante ficou em silêncio.
"Você mentiu."
Dessa vez, ele assentiu.
"Sim."
Bruno recuou alguns passos.
A conversa já não pertencia a ele.
Isabela apontou para a fotografia.
"O que aconteceu naquela noite?"
Dante respirou fundo.
"Antônio me ligou."
"Como ele conseguiu seu número?"
"Ele trabalhava no grupo."
"E por que ligou para você?"
"Disse que precisava me mostrar uma coisa."
"Que coisa?"
"Eu não sabia."
Isabela cruzou os braços.
"Continua."
"Ele pediu que eu fosse sozinho."
"Você foi?"
"Sim."
Dante olhou para a fotografia.
"Encontrei Antônio num posto perto da entrada da Imigrantes."
A lembrança parecia pesar fisicamente sobre ele.
"Ele estava nervoso."
"Com medo?"
"Sim."
Isabela sentiu o peito apertar.
"Ele falou de mim?"
"Não."
"Falou da minha mãe?"
"Não."
"Então falou do quê?"
Dante demorou.
"Da minha assinatura."
Isabela ficou imóvel.
"Ele disse que alguém estava preparando documentos para colocar meu nome numa operação que eu não conhecia."
"Augusto?"
"Ele não disse."
"Meu pai tinha a prova?"
"Disse que tinha."
"Onde?"
"Não me contou."
Isabela sentiu a raiva crescer.
"Então você já sabia da prova antes de abrirmos aquele cofre."
"Eu sabia que existiu alguma coisa."
"E ficou calado."
"Sim."
"Por quê?"
Dante desviou os olhos.
Aquele pequeno gesto foi suficiente.
"Havia mais alguém."
"Não no posto."
"Depois."
Dante não respondeu.
Isabela se aproximou.
"O que aconteceu depois que você falou com meu pai?"
"Antônio foi embora."
"E você?"
"Voltei para o carro."
"Depois?"
"Meu pai ligou."
O ar pareceu ficar mais pesado.
"Otávio."
"Sim."
"Como ele sabia onde você estava?"
Dante apertou a mandíbula.
"Essa é uma pergunta que eu deveria ter feito há quinze anos."
Isabela não gostou da resposta.
"O que ele disse?"
"Mandou que eu voltasse para casa."
"Só isso?"
"Não."
Dante respirou fundo.
"Ele perguntou se Antônio tinha me entregado algum documento."
Isabela gelou.
"Então Otávio sabia."
"Sabia que ele ia me encontrar."
"Você contou alguma coisa?"
"Disse que não tinha recebido nada."
"E seu pai?"
"Mandou que eu esquecesse a conversa."
Isabela sentiu náusea.
"Você obedeceu?"
Dante olhou para ela.
"Naquela noite, sim."
"Naquela noite?"
"Na manhã seguinte, descobri que Antônio tinha morrido."
Isabela fechou os olhos.
Por alguns segundos, só conseguiu ouvir a própria respiração.
"Você foi à polícia?"
Silêncio.
Ela abriu os olhos.
"Dante."
"Não."
Uma única palavra.
Mas foi suficiente para quebrar alguma coisa.
"Você sabia que meu pai tinha acabado de tentar impedir uma operação ilegal."
"Sim."
"Sabia que ele estava com medo."
"Sim."
"Sabia que seu pai tinha ordenado que você ficasse calado."
"Sim."
"E quando Antônio apareceu morto, você não falou nada?"
"Não."
Isabela recuou.
Dante deu um passo.
Ela imediatamente levantou a mão.
"Não chega perto."
Ele parou.
"Isabela..."
"Não."
A voz dela tremeu, mas não de medo.
"Você me deixou sentar diante de você e falar da minha mãe, do meu pai, da minha vida inteira."
"Eu sei."
"Você me viu descobrir que Antônio talvez tivesse morrido por causa disso."
"Eu sei."
"E continuou calado."
"Sim."
"Por quê?"
Dante demorou a responder.
"Porque eu tinha vinte e três anos e acreditava no meu pai."
"Isso explica aquela noite."
Ela apontou para ele.
"Não explica agora."
Dante não tentou se defender.
"Não."
Isabela ficou surpresa.
Talvez preferisse uma desculpa.
Seria mais fácil odiá-lo.
"Depois da morte de Antônio, confrontei Otávio."
"E?"
"Ele disse que Augusto estava tentando destruir nossa família."
"Conveniente."
"Sim."
"Você acreditou."
"Por muito tempo."
Isabela riu sem humor.
"Todo mundo nessa história acreditou exatamente no que precisava acreditar."
Dante abaixou os olhos.
"Provavelmente."
Ela pegou a bolsa.
"Onde você vai?"
"Embora."
"Você não pode voltar para seu apartamento."
Isabela parou.
Virou-se lentamente.
Dante percebeu o erro.
"Não foi uma ordem."
"Pareceu."
"Eu quis dizer que não é seguro."
"E eu vou decidir onde fico."
"Está bem."
"Não me segue."
"Está bem."
"Não manda Bruno atrás de mim."
Bruno desviou os olhos.
Dante assentiu.
"Está bem."
Isabela esperou alguma resistência.
Não veio.
Isso tornou tudo mais difícil.
"Você não matou meu pai."
Dante sustentou o olhar.
"Não."
"Mas deixou o silêncio proteger quem matou."
Ele não respondeu.
Isabela abriu a porta.
Antes de sair, ouviu:
"Eu sinto muito."
Ela parou.
Não se virou.
"Eu também."
Horas depois, Isabela estava num quarto simples de hotel em Bela Vista.
Não contou a Dante.
Não contou à mãe.
Só Camila sabia.
Sentou-se na cama e abriu a pasta de documentos.
Pela primeira vez, estava sozinha com tudo.
Antônio.
Otávio.
Augusto.
Dante.
Marcelo.
Vitória.
Nomes que se cruzavam havia quinze anos.
E todos pareciam esconder alguma coisa.
O celular vibrou.
Isabela olhou.
Marcelo.
Desta vez, não congelou.
A mensagem dizia:
"Agora você sabe."
Ela respondeu:
"Sei o quê?"
Marcelo digitou quase imediatamente.
"Que Dante não é o homem que você pensa."
Isabela ficou olhando.
Depois escreveu:
"Quero conversar."
A resposta demorou menos de um minuto.
"Finalmente."
Isabela sentiu o estômago apertar.
Mas suas mãos não tremiam.
Ela abriu o gravador do celular.
Testou.
Depois ligou para Camila.
"Preciso que você faça uma coisa."
"Não gostei desse começo."
"Vou encontrar Marcelo."
"Você ficou maluca?"
"Talvez."
"Isabela."
"Eu vou mandar minha localização."
"Chama a polícia."
"Ainda não tenho o suficiente."
"E vai conseguir como?"
Isabela olhou para o gravador.
"Fazendo ele acreditar que venceu."
Marcelo escolheu uma cafeteria em Higienópolis.
Movimentada.
Cheia de gente.
Exatamente como Isabela queria.
Ela chegou primeiro.
Sentou perto do balcão.
Ativou o gravador e colocou o celular dentro da bolsa, deixando o zíper parcialmente aberto.
Marcelo apareceu cinco minutos depois.
Sorrindo.
"Sabia que você ia entender."
Isabela não se levantou.
"Senta."
Ele arqueou uma sobrancelha.
"Você mudou."
"Talvez."
Marcelo sentou.
"Então?"
"Você tinha razão sobre Dante."
O sorriso dele aumentou.
"Eu avisei."
"Ele estava com meu pai naquela noite."
Marcelo fingiu surpresa.
"Estava?"
"Você sabia."
"Eu suspeitava."
"De onde veio a foto?"
Marcelo pegou o cardápio.
"Chegou até mim."
"De quem?"
"Isso importa?"
"Importa."
Ele colocou o cardápio de lado.
"Você ainda está fazendo perguntas para as pessoas erradas."
Isabela respirou fundo.
"Então me dá as respostas certas."
Marcelo sorriu.
"Volta comigo."
Ela esperava isso.
"Primeiro me conta a verdade."
"Depois."
"Não."
O sorriso dele enfraqueceu.
"Isa..."
"Você passou dois anos procurando informações sobre meu pai."
Marcelo ficou imóvel.
"Quem te disse isso?"
"Dante."
"Claro."
"É mentira?"
Ele não respondeu.
Isabela inclinou-se.
"Você me conheceu por acaso?"
Marcelo passou a língua pelos dentes.
"Você está ficando paranoica."
A velha estratégia.
Dessa vez, não funcionou.
"Então responde."
"Eu gostei de você."
"Não foi o que perguntei."
Marcelo ficou irritado.
"Você sempre teve essa mania."
"Qual?"
"De complicar tudo."
Isabela sentiu uma memória antiga tentar puxá-la de volta.
Engoliu.
"Meu pai deixou alguma coisa."
Marcelo parou.
Foi pequeno.
Mas ela viu.
"Que coisa?"
"Você sabe."
"Não faço ideia."
"Então por que invadiram meu apartamento?"
"Está me acusando?"
"Estou perguntando."
Marcelo se inclinou.
"Você deveria tomar cuidado com acusações."
Isabela sustentou o olhar.
"Meu pai descobriu o que Augusto e Otávio faziam."
O nome do pai fez Marcelo mudar.
"Não fala do Augusto."
"Por quê?"
"Porque você não sabe de nada."
"Então me explica."
"Não tenho que explicar."
"Meu pai morreu por isso."
Marcelo perdeu parte do controle.
"Seu pai fez escolhas."
"Que escolhas?"
"Escolhas ruins."
"Como tentar sair?"
Ele riu.
"Você transformou Antônio num santo rápido demais."
Isabela apertou os dedos sob a mesa.
"Ele guardou provas."
Marcelo ficou sério.
"Você encontrou?"
Ela não respondeu.
"Isabela."
Agora havia urgência.
"Você encontrou alguma coisa?"
Ela percebeu.
Era isso que ele queria.
Desde o início.
"Por que importa?"
"Porque você não sabe o que tem nas mãos."
"Então você sabe."
Marcelo respirou fundo.
"Seu pai devia ter entregado aquilo quando teve chance."
Silêncio.
Isabela sentiu o coração disparar.
Mas manteve o rosto imóvel.
"Entregado para quem?"
Marcelo percebeu tarde demais.
Tentou recuar.
"Esquece."
"Foi você?"
Ele a encarou.
Depois começou a rir.
Baixo.
Quase incrédulo.
"Eu?"
Isabela não desviou.
"Foi você que matou meu pai?"
Marcelo aproximou o rosto.
"Eu tinha dezenove anos."
"Isso não é uma resposta."
"É a única que você vai ter."
"Então quem foi?"
Marcelo recostou-se.
A arrogância voltou.
"Você realmente acha que Dante contou tudo?"
"Não estamos falando dele."
"Estamos falando exatamente dele."
"Quem matou Antônio?"
Marcelo olhou ao redor.
Depois sorriu.
"Quer saber quem pode responder?"
Isabela esperou.
Marcelo levantou-se.
"Pergunte à mãe do Dante."