Isabela demorou alguns segundos para conseguir falar.
"Salvar quem?"
Vitória Montenegro não respondeu.
A mulher que, poucos minutos antes, parecia controlar cada centímetro daquela mansão agora evitava os olhos do próprio filho.
Dante deu um passo em direção a ela.
"Mãe."
Vitória fechou a pasta sobre a mesa.
"Já falei demais."
"Não."
A voz de Isabela saiu firme.
"Você falou exatamente o suficiente para tornar impossível parar agora."
Vitória a encarou.
Isabela não recuou.
"Meu pai tentou salvar Otávio?"
A pergunta pareceu lógica.
Antônio procurara Otávio pouco antes de morrer.
Os dois estavam ligados às contas.
Talvez Antônio tivesse descoberto que Augusto Ferraz preparava alguma coisa contra o pai de Dante.
Mas Vitória respondeu:
"Não."
Dante franziu a testa.
"Então quem?"
A mãe olhou para ele.
Dessa vez, demorou.
"Você."
O silêncio caiu sobre a sala.
Dante não se moveu.
Isabela sentiu um arrepio.
"Ele tentou salvar o Dante?"
Vitória assentiu lentamente.
"Há quinze anos, Dante tinha vinte e três anos."
Ela caminhou até a janela.
"Otávio já preparava tudo para colocá-lo em posições importantes no grupo."
Dante continuava imóvel.
"Eu me lembro."
"Não de tudo."
Vitória se virou.
"Seu pai fez questão disso."
Dante endureceu.
"O que ele escondeu de mim?"
Vitória soltou o ar.
"Naquela época, o Grupo Montenegro estava expandindo as operações logísticas para Santos, Guarulhos e parte do interior."
Isabela escutava atentamente.
"Havia muito dinheiro circulando."
"Dinheiro que passava pelas contas paralelas?"
Vitória olhou para ela.
"Sim."
Dante fechou a mão.
"Então meu pai sabia."
"Otávio sabia que o sistema existia."
"Isso não responde."
"Porque a resposta não é simples."
Dante riu sem humor.
"Essa família parece gostar dessa frase."
Vitória ignorou.
"Augusto Ferraz tinha criado uma rede de empresas para movimentar valores sem aparecer diretamente."
"Com ajuda do meu pai."
"E de Antônio."
Isabela sentiu o golpe, mas não desviou.
Já não podia fingir que aquela parte não existia.
Vitória continuou:
"Antônio conhecia cada caminho daquele dinheiro porque ajudou a construir parte do sistema."
"Até tentar sair."
"Sim."
Dante se aproximou da mesa.
"Por quê?"
"Porque Augusto quis fazer algo diferente."
Vitória olhou para o filho.
"Algo que colocaria você no centro."
Dante ficou sério.
"Como?"
"Uma operação de quase quarenta milhões de reais."
Isabela prendeu a respiração.
"Há quinze anos?"
Vitória assentiu.
"O dinheiro sairia de três empresas, passaria por uma subsidiária da Montenegro Logística e terminaria em contas controladas por pessoas ligadas a Augusto."
Dante perguntou:
"E onde eu entrava?"
Vitória demorou a responder.
"Na autorização."
Ele ficou imóvel.
"Minha assinatura."
"Sim."
Dante balançou a cabeça.
"Eu nunca autorizei uma operação desse tamanho."
"Antônio sabia."
Vitória voltou até a mesa.
"Foi por isso que procurou Otávio."
Isabela começou a entender.
"Alguém pretendia falsificar a assinatura de Dante."
"Não exatamente."
Vitória respondeu.
"Era pior."
Dante a encarou.
"Explica."
"Naquela época, você assinava dezenas de documentos preparados pela diretoria."
Ele ficou pálido.
"Queriam colocar a autorização no meio."
Vitória assentiu.
"Você assinaria sem saber o que realmente estava aprovando."
Isabela sentiu o estômago se contrair.
"E depois?"
"Se a operação fosse descoberta, haveria uma assinatura verdadeira."
Dante completou:
"A minha."
"Ninguém precisaria falsificar nada."
Vitória baixou a voz.
"Você teria assinado."
Dante se afastou.
Pela primeira vez desde que Isabela o conhecera, ele parecia verdadeiramente abalado.
Não irritado.
Não ameaçador.
Abalado.
"Antônio descobriu?"
"Sim."
"Como?"
"Ele viu a autorização antes de entrar no lote de documentos."
Isabela olhou para a pasta.
"Então meu pai retirou o papel."
"Foi o que Otávio me contou."
"Ele guardou?"
Vitória assentiu.
"Antônio fez uma cópia."
Dante virou-se rapidamente.
"Por isso o cofre."
"Provavelmente."
"E a lista."
"Sim."
Isabela sentiu os olhos arderem.
Seu pai não era o homem perfeitamente inocente que imaginara.
Tinha participado do sistema.
Tinha assinado documentos.
Tinha ajudado a construir alguma coisa que jamais deveria ter existido.
Mas, em algum momento, havia parado.
E quando alguém tentou colocar um jovem de vinte e três anos no centro daquilo, Antônio escolheu impedir.
"Ele sabia que corria risco?"
Vitória olhou para Isabela.
"Sabia."
"Então por que fez?"
"Eu não sei."
"Você conversou com ele?"
"Uma vez."
Dante ergueu a cabeça.
"Quando?"
"Poucos dias antes da morte."
Vitória fechou os olhos.
"Antônio apareceu aqui."
A sala pareceu diminuir.
Isabela perguntou:
"Nesta casa?"
"Sim."
"Para falar com Otávio?"
"Primeiro."
"Depois?"
Vitória encarou Dante.
"Ele perguntou por você."
Dante ficou imóvel.
"O que ele queria comigo?"
"Entregar uma coisa."
"Que coisa?"
"Não sei."
Dante soltou uma risada amarga.
"Você nunca sabe."
Vitória reagiu.
"Porque Otávio não deixou."
"O quê?"
"Seu pai mandou Antônio embora."
"Por quê?"
"Disse que cuidaria de tudo."
Dante se aproximou.
"E cuidou?"
Vitória não respondeu.
Ele bateu a mão na mesa.
"Ele cuidou?"
"Não."
A palavra saiu quebrada.
Vitória respirou fundo.
"Três dias depois, Antônio morreu."
Isabela sentiu as lágrimas chegarem.
Não chorou.
"Meu pai morreu três dias depois de vir aqui?"
"Sim."
"Minha mãe nunca soube."
"Provavelmente não."
Isabela olhou para Dante.
Ele parecia incapaz de sustentar o olhar dela.
"Você sabia de alguma coisa?"
"Não."
"Tem certeza?"
Dante finalmente a encarou.
"Se eu soubesse que seu pai tentou impedir que colocassem meu nome naquela operação, teria procurado você antes mesmo de Marcelo aparecer naquele restaurante."
Isabela acreditou.
E odiou perceber que acreditava.
Vitória pegou a bolsa.
"Isso precisa parar."
Dante virou-se.
"Não vai parar."
"Você não entende o que pode acontecer."
"Então, pela primeira vez, pare de esconder informação."
Vitória apertou os lábios.
"Eu perdi seu pai por causa dessa história."
"E Isabela perdeu o dela."
Vitória olhou para a jovem.
Depois saiu sem responder.
O som da porta fechando ecoou pela sala.
Isabela se encolheu involuntariamente.
Dante percebeu.
Seu primeiro impulso foi se aproximar.
Ele chegou a levantar a mão.
Mas parou antes de tocá-la.
Isabela viu.
"Você pode parar de fazer isso."
Dante abaixou a mão.
"Fazer o quê?"
"Me observar como se eu fosse quebrar."
"Não acho que você vá quebrar."
"Então não me trate como se precisasse me proteger de tudo."
Dante ficou em silêncio.
"Seu pai morreu tentando me proteger."
"Meu pai fez uma escolha."
"E morreu por ela."
"Isso não transforma você em responsável por mim."
"Eu não disse que transforma."
"Mas está pensando."
Dante desviou o olhar.
Ela percebeu.
"Eu conheço esse comportamento."
A frase o fez voltar a encará-la.
"Que comportamento?"
"Homens dizendo que sabem o que é melhor para mim."
"Eu não sou Marcelo."
"Então não aja como ele."
Dante endureceu.
Isabela não recuou.
"Eu passei dois anos ouvindo que tudo era para o meu bem."
"Não estou tentando controlar você."
"Então não tente decidir onde eu fico, com quem eu falo, se posso investigar ou quando isso termina."
Dante respirou fundo.
"Existe alguém procurando você."
"Eu sei."
"Invadiram seu apartamento."
"Eu sei."
"Seu pai pode ter sido morto por causa desses documentos."
"Eu sei."
"Então existe um risco real."
Isabela se aproximou.
"Eu não preciso de outro homem decidindo minha vida."
A frase ficou entre os dois.
Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois assentiu.
"Está bem."
Isabela franziu a testa.
"Está bem?"
"Sim."
Ela esperava resistência.
"É só isso?"
"Você disse o que quer."
"Você não vai discutir?"
"Não."
Dante abriu a pasta.
Retirou as cópias que Bruno havia preparado.
Colocou diante dela.
"O que está fazendo?"
"Entregando a você."
Isabela olhou para os documentos.
"Isso é tudo?"
"Tudo o que encontramos até agora."
"Você confia em mim com isso?"
Dante respondeu:
"Não é uma questão de confiança."
"Então é o quê?"
"Seu pai deixou essas provas."
Ele empurrou a pasta na direção dela.
"Você decide o que fazer com elas."
Isabela não tocou imediatamente.
"Se eu quiser entregar à polícia?"
"Entregamos."
"Se eu quiser continuar investigando?"
"Continuamos."
"Se eu quiser sair daqui e nunca mais olhar para você?"
Dante sustentou o olhar.
"Eu não impeço."
Ela ficou sem resposta.
Dante recuou.
Pela primeira vez em muito tempo, alguém poderoso estava lhe oferecendo uma escolha sem cobrar a resposta desejada.
Isso a assustava de uma maneira diferente.
"Eu quero continuar."
Dante assentiu.
"Então continuamos."
Na manhã seguinte, Isabela encontrou Bruno no escritório da Avenida Paulista.
Dante havia pedido acesso aos registros de assinatura de quinze anos antes.
Desta vez, não mandou que ela esperasse em outro lugar.
Colocou tudo diante dela.
Havia cópias de autorizações assinadas por Dante aos vinte e três anos.
Contratos.
Ordens de pagamento.
Documentos internos.
Isabela comparou as datas.
"Esta é a semana em que meu pai procurou Otávio."
Bruno assentiu.
"Sim."
Dante examinou um formulário.
"Essa assinatura é minha."
Isabela olhou.
"E esta?"
"Também."
"Você lembra?"
"Não."
Bruno colocou outro documento ao lado.
"Mas a operação de quarenta milhões não aparece."
Dante franziu a testa.
"Antônio realmente tirou."
Isabela sentiu um nó na garganta.
Talvez aquela fosse a prova mais concreta até então.
Antônio tinha impedido a autorização.
Tinha protegido Dante.
E três dias depois de tentar entregar alguma coisa, morreu.
O celular de Isabela vibrou.
Ela congelou por um instante.
Depois respirou e pegou o aparelho.
Número desconhecido.
Uma mensagem.
"Dante está mentindo para você."
Isabela ficou imóvel.
Dante percebeu.
"Marcelo?"
"Não sei."
Outra mensagem chegou.
"Pergunta onde ele estava na noite em que seu pai morreu."
O coração dela acelerou.
Dante se aproximou apenas o suficiente para ver sua expressão.
"Que foi?"
Isabela não respondeu.
Uma imagem apareceu na conversa.
Fotografia antiga.
Noturna.
Granulada.
Um posto de combustível à margem de uma estrada.
Ao fundo, dois carros.
Mais perto da câmera, Antônio.
Isabela reconheceu o pai imediatamente.
A data impressa no canto da fotografia era a mesma noite de sua morte.
Mas havia outra pessoa na imagem.
Um homem muito mais jovem.
Vinte e três anos.
Cabelos escuros.
Camisa branca.
Isabela ampliou a fotografia.
Seu sangue gelou.
Dante olhou para a tela.
E empalideceu.
Era ele.