Isabela releu o nome do pai tantas vezes que as letras começaram a perder o sentido.
Antônio Oliveira Martins.
Não estava à margem.
Não estava marcado como denunciante.
Estava no centro da lista.
Ao lado de Augusto Ferraz.
Ao lado de Otávio Montenegro.
Ela levantou os olhos para Dante.
"Isso está errado."
Dante não respondeu de imediato.
Continuava olhando para os documentos espalhados sobre a mesa reservada do banco.
"Pode estar incompleto."
"Não."
Isabela apontou para o nome do pai.
"Está errado."
A voz dela endureceu.
"Meu pai investigava essas pessoas."
Dante puxou outra folha.
"Talvez."
"Talvez?"
"Talvez ele tenha investigado depois."
Isabela ficou imóvel.
Dante virou a folha para ela.
Havia datas.
Valores.
Empresas.
E três códigos que se repetiam.
Um associado a Augusto.
Outro a Otávio.
O terceiro a Antônio.
Isabela sentiu a respiração ficar curta.
"Não."
Dante falou com cuidado.
"Isa..."
"Não me chama assim."
Ele parou.
Ela pegou a folha.
"Isso não prova que meu pai fez alguma coisa."
"Não sozinho."
"Então pronto."
"Mas também não prova que ele era inocente."
A frase doeu mais do que deveria.
Isabela o encarou.
"Você está gostando disso?"
Dante franziu a testa.
"Do quê?"
"De descobrir que meu pai pode ter sido tão sujo quanto o seu?"
O silêncio ficou pesado.
Dante não reagiu com raiva.
Isso irritou Isabela ainda mais.
"Responde."
"Não."
Ele apoiou as duas mãos sobre a mesa.
"Eu preferia descobrir que nenhum dos dois tinha relação com isso."
"Mas você sempre achou que seu pai era vítima."
"Sim."
"E agora?"
Dante olhou para o nome de Otávio.
"Agora eu não sei."
A sinceridade desmontou parte da raiva dela.
Só parte.
Isabela respirou fundo e voltou aos papéis.
Havia registros de transferências feitas quinze anos antes por empresas que já não existiam.
Transportadoras.
Consultorias.
Empresas de fachada.
Contas abertas e encerradas em períodos muito curtos.
Bruno havia conseguido autorização para digitalizar parte do material.
Naquela mesma tarde, os três seguiram para o escritório de Dante na Avenida Paulista.
Isabela não queria ir.
Mas também não queria deixar os documentos fora de vista.
Passou horas diante de telas, planilhas e arquivos antigos.
Quanto mais procuravam, pior ficava.
Bruno finalmente encontrou uma conexão.
"Olha isso."
Dante se aproximou.
Isabela permaneceu do outro lado da mesa.
Bruno ampliou um documento digitalizado.
"Essa empresa aqui, Atlântico Participações, recebeu três transferências da Montenegro Logística."
"Quanto?"
"Somando tudo, pouco mais de oito milhões de reais na época."
Isabela sentiu o estômago apertar.
"E depois?"
"Quase o mesmo valor foi redistribuído para outras quatro empresas."
Dante apontou para uma delas.
"Ferraz Serviços Patrimoniais."
Bruno assentiu.
"Sim."
"E Antônio?"
Bruno abriu outro arquivo.
"Era um dos responsáveis por aprovar a conferência interna."
Isabela respirou melhor.
"Então ele estava auditando."
Bruno não respondeu.
Esse silêncio foi suficiente.
"O que mais?"
Ele hesitou.
Dante percebeu.
"Mostra."
Bruno abriu uma autorização bancária antiga.
Três assinaturas apareciam no rodapé.
Otávio Vasconcelos Montenegro.
Augusto Ferraz.
Antônio Oliveira Martins.
Isabela ficou sem reação.
"Não."
Ela pegou o documento.
"Essa assinatura pode ser falsa."
"Pode."
Bruno falou com cuidado.
"Mas encontramos outras."
Abriu uma segunda autorização.
Depois uma terceira.
Depois uma quarta.
Em todas, o nome de Antônio aparecia.
Isabela recuou.
"Ele não faria isso."
Dante não disse nada.
"Meu pai não roubava."
Ninguém respondeu.
Ela olhou para Dante.
"Fala."
"Eu não sei o que aconteceu."
"Mas está pensando alguma coisa."
"Estou pensando que os três controlavam o mesmo sistema."
Isabela sentiu raiva novamente.
"Você está acusando meu pai."
"Estou lendo os documentos."
"É fácil quando não é o seu."
Dante puxou uma folha e colocou diante dela.
A assinatura de Otávio estava lá também.
"É exatamente o meu."
Isabela ficou em silêncio.
Pela primeira vez, percebeu que Dante não estava tentando proteger a memória do próprio pai.
Aquilo parecia custar a ele tanto quanto custava a ela.
Bruno passou para outro arquivo.
"Tem mais uma coisa."
Dante soltou o ar.
"Claro que tem."
"Os primeiros registros são de quase dezessete anos atrás."
Isabela franziu a testa.
"Mas meu pai morreu há quinze."
"Exato."
Bruno mostrou a linha do tempo.
"Antônio participou durante pelo menos um ano e meio."
A palavra participou fez Isabela fechar os olhos.
"Depois?"
"As assinaturas dele desaparecem."
"Quando?"
"Quatro meses antes da morte."
Dante se inclinou.
"E as transferências?"
"Continuam."
"Quem autoriza?"
"Otávio e Augusto."
Isabela abriu os olhos.
"Então ele saiu."
Bruno assentiu.
"Parece que sim."
"Por quê?"
"Não sabemos."
Dante caminhou até a janela.
Do alto, São Paulo parecia organizada.
Linhas de carros.
Prédios.
Luzes.
Mas dentro daquele escritório, quinze anos de certezas estavam desmoronando.
"Meu pai dizia que Ferraz tinha destruído tudo."
Isabela virou-se para ele.
"Ele falou isso?"
"Pouco antes de morrer."
Dante manteve os olhos na cidade.
"Otávio passou os últimos anos dizendo que Augusto tinha usado empresas do Grupo Montenegro para operações que ele nunca autorizou."
"E você acreditou."
"Sim."
"Por quê?"
Dante demorou.
"Porque era meu pai."
A resposta atingiu Isabela.
Era exatamente o mesmo motivo pelo qual ela queria acreditar em Antônio.
"Então nós dois estamos fazendo a mesma coisa."
Dante olhou para ela.
"Talvez."
"Protegendo mortos."
"Talvez."
Isabela sentou-se.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Bruno voltou aos documentos.
"Existe uma movimentação importante aqui."
Ele ampliou outra página.
"Antônio encerrou acesso a duas contas."
"Quando?"
"Três meses antes de morrer."
"E depois?"
"Uma delas foi reaberta com outra autorização."
Dante perguntou:
"De quem?"
Bruno leu.
"Augusto."
"Otávio?"
"Não aparece."
Dante ficou pensativo.
Isabela percebeu.
"Isso significa que seu pai também tentou sair?"
"Talvez."
Bruno abriu outro registro.
"Tem algo ainda mais estranho."
Uma transferência enorme havia sido bloqueada temporariamente.
Responsável pelo bloqueio:
Antônio Oliveira Martins.
Dois dias depois, o bloqueio foi retirado.
Responsável:
Augusto Ferraz.
Isabela sentiu esperança.
"Está vendo?"
Apontou para a tela.
"Meu pai tentou impedir."
Bruno assentiu.
"Sim."
Dante, porém, continuou sério.
"Mas antes disso ele ajudou a construir o sistema."
Isabela perdeu a esperança tão rápido quanto a encontrou.
"Então o que ele era?"
Ninguém respondeu.
"Criminoso?"
Sua voz baixou.
"Arrependido?"
Ela engoliu em seco.
"Informante?"
Dante se aproximou.
"Talvez tenha começado de um jeito e terminado de outro."
Isabela olhou para ele.
"Isso muda alguma coisa?"
"Muda."
"Como?"
"Porque sair de uma estrutura assim costuma ser mais perigoso do que entrar."
A frase ficou entre eles.
Isabela lembrou do pai olhando pela janela.
Dos documentos escondidos.
Da caixa.
Do livro.
Da chave.
Talvez Antônio não tivesse deixado provas porque sempre fora um herói.
Talvez tivesse deixado porque tentou se tornar um.
No início da noite, Bruno recebeu outra informação.
"Encontrei um relatório interno apagado do arquivo principal."
Dante virou-se.
"Recuperado de onde?"
"Backup antigo."
Bruno abriu.
"Antônio pediu desligamento formal do setor financeiro."
"Data?"
"Noventa e dois dias antes do acidente."
Isabela aproximou-se.
"Havia justificativa?"
Bruno leu.
"Motivos pessoais."
Dante soltou uma risada curta, sem humor.
"Nunca é motivos pessoais."
Bruno continuou.
"Doze dias depois, ele enviou uma comunicação privada para a diretoria."
"Conteúdo?"
"Não está anexado."
"Destinatário?"
Bruno parou.
Dante já sabia que não gostava da resposta.
"Otávio Montenegro."
Isabela olhou para ele.
"Seu pai."
"Sim."
"O meu pai procurou o seu."
"Sim."
"Para quê?"
Bruno fechou o arquivo.
"Isso não aparece."
Isabela começou a caminhar.
"Então Antônio tenta sair, bloqueia dinheiro, procura Otávio e morre três meses depois."
Dante completou:
"E depois os registros são enterrados."
Ela parou.
"Quem tinha poder para enterrar?"
Dante não respondeu.
Isabela percebeu.
"A sua família."
"Sim."
A resposta veio pesada.
"Ou alguém dentro dela."
Dante pegou o celular.
"Bruno."
"Sim?"
"Quero tudo sobre a diretoria daquela época."
Bruno assentiu.
"Otávio, Augusto, conselheiros, jurídico..."
"Todo mundo."
Dante olhou novamente para as assinaturas.
"Principalmente quem teve acesso ao arquivo depois da morte de Antônio."
Isabela sentiu um arrepio.
"Você acha que sua família pode ter feito alguma coisa com meu pai."
Dante demorou a responder.
Quando respondeu, não desviou o olhar.
"Agora eu acho que seria irresponsável não considerar."
Naquela noite, Isabela foi com Dante até a mansão Montenegro, no Jardim Europa.
Não porque quisesse.
Bruno havia encontrado caixas físicas de documentos antigos guardadas num arquivo particular da família.
Dante insistira que ela tivesse acesso.
"Você não precisa ficar."
"Eu vou ficar."
A casa era silenciosa demais.
Pé-direito alto.
Obras de arte.
Mármore.
Fotografias antigas.
Isabela parou diante de uma delas.
Otávio Montenegro aparecia mais jovem, ao lado de Dante e de uma mulher elegante.
"Minha mãe."
Dante percebeu o olhar dela.
"Vitória."
Como se o nome tivesse chamado a própria pessoa, passos surgiram no corredor.
Vitória Montenegro entrou.
Sessenta e poucos anos.
Postura impecável.
Cabelos perfeitamente arrumados.
Ela olhou primeiro para Dante.
Depois para Isabela.
Depois para a caixa de documentos aberta sobre a mesa.
Seu rosto endureceu.
"O que está acontecendo?"
Dante respondeu:
"Estou revendo arquivos antigos."
"Eu consigo ver."
Vitória caminhou até a mesa.
Leu um dos papéis.
A cor de seu rosto mudou.
"De onde você tirou isso?"
"De um cofre."
Ela ergueu os olhos.
"Que cofre?"
Isabela respondeu:
"Do meu pai."
Vitória olhou para ela pela primeira vez com verdadeira atenção.
"Quem era seu pai?"
"Antônio Oliveira Martins."
O silêncio foi imediato.
Dante percebeu.
"Mãe?"
Vitória continuou olhando para Isabela.
"Você é filha do Antônio?"
"Sou."
Ela fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, havia medo.
"Você precisa ir embora."
Isabela ficou imóvel.
"Não."
Dante deu um passo.
"Mãe."
Vitória virou-se para ele.
"Você não deveria ter reaberto isso."
"Por quê?"
"Porque algumas coisas foram enterradas por um motivo."
Isabela sentiu a raiva subir.
"Meu pai também foi enterrado."
Vitória se voltou para ela.
"Você não faz ideia do que está desenterrando."
Isabela sustentou o olhar.
"Então me conte."
Vitória ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando falou, sua voz já não tinha frieza.
Tinha peso.
"Seu pai morreu porque tentou salvar um Montenegro."