Garrett entrou sorrindo e deixou a pasta sobre a mesa. O olhar percorreu os dois curadores, Renato ao fundo e Harrison diante de uma pilha de documentos.
— Não sabia que seria uma reunião tão formal.
— O fundo exige formalidade — Harrison respondeu. — A sala possui gravação de segurança com áudio. Se preferir, podemos suspender.
Garrett olhou para Eliza.
— Você está confortável com isso?
— Estou.
Ele assinou o consentimento. Sentou na cadeira em frente à esposa e abriu a pasta.
— É bem limitado. Só pagamentos, contratos urgentes e movimentações necessárias.
Harrison recebeu o documento e começou a ler. Garrett tentou comentar cada página. O advogado ergueu uma mão.
— Deixe-me terminar.
O relógio avançou sete minutos. Eliza manteve as mãos no colo. Renato observava os registros no computador sem tocar no teclado.
Harrison virou a página marcada.
— Curioso.
— O quê?
— A cláusula permite transferências para entidades afiliadas ao procurador.
Garrett inclinou-se.
— Linguagem padrão.
— Não consta nos modelos usuais de procuração operacional.
— O advogado que preparou pode explicar.
— Nome?
Garrett fechou a pasta com a palma.
— Um conhecido.
Eliza retirou a cópia do e-mail enviado sete meses antes do casamento e a colocou sobre o documento.
— Mason Cole?
O rosto de Garrett mudou por um instante. A boca conservou a forma do sorriso; os olhos ficaram imóveis.
— Não faço ideia de quem seja.
Harrison colocou outra página ao lado. O cabeçalho mostrava a mensagem de Garrett para Mason, perguntando sobre controle administrativo de patrimônio por meio de casamento, incapacidade ou procuração.
— Este e-mail saiu da sua conta — o advogado disse.
— Fora de contexto.
— Qual contexto explica a data? — Eliza perguntou. — Você pesquisou meu patrimônio antes de se casar comigo.
Garrett girou a aliança no dedo.
— Sua mãe estava paranoica no fim. Você sabe disso.
A mão de Eliza saiu do colo e pousou sobre a mesa.
— Não fale da doença dela para explicar seus e-mails.
— Margaret nunca gostou de mim.
Harrison ativou o tablet. A fotografia de Garrett e Sienna apareceu.
Garrett empurrou a cadeira para trás.
— Isso não prova nada.
A porta lateral se abriu.
Sienna entrou sem óculos. Caminhou até a mesa e parou dois metros atrás de Eliza.
— O que você está fazendo aqui? — Garrett perguntou.
— Contando a verdade antes que você conte por mim.
Ele riu e apontou para o comprovante que ela segurava.
— Você vai acreditar nela? Depois de tudo que Margaret escreveu sobre a recuperação dela?
Sienna encolheu os ombros. O papel tremeu em sua mão.
— Conte o que sabe — Eliza disse, sem virar.
A irmã respirou fundo. Falou do relacionamento anterior, do encontro depois que Garrett começou a namorar Eliza, da dívida paga e das perguntas sobre o fundo. Entregou as mensagens a Harrison e identificou Mason.
Garrett esperou que ela terminasse.
— Está tentando salvar os quinhentos mil — disse.
Sienna colocou o comprovante sobre a mesa.
— Estou tentando parar de ser comprada.
Renato se levantou ao fundo.
— Eu também tenho algo.
Virou o notebook. Na tela havia os registros das tentativas de acesso ao portal administrativo da Sullivan Vineyards. As credenciais pertenciam a um consultor externo inativo. O endereço de recuperação estava ligado à empresa de Mason.
Garrett não olhou para o computador.
— Isso não tem relação comigo.
— A primeira tentativa ocorreu vinte minutos depois da leitura do testamento — Renato informou. — A segunda, após o senhor pedir a Eliza uma procuração.
— Coincidência.
— Preservamos origem, horário e identificação do dispositivo.
Um dos curadores fechou a pasta. O outro retirou a caneta da frente de Garrett. Renato puxou o computador de volta para seu lado.
O marido de Eliza percorreu a sala com os olhos. Pela primeira vez, ninguém esperava que ele decidisse o próximo passo.
— Vocês estão montando uma história — disse. — Tudo isso porque Margaret nunca gostou de mim.
— Ela gostou — Eliza respondeu. — Até descobrir que você pesquisava meu patrimônio.
— Eu estava tentando nos proteger.
— Por que escondeu Sienna?
— Você entenderia errado.
— E a procuração?
— Para ajudar.
— E Mason?
— Um contato profissional.
Eliza retirou o celular da bolsa e o colocou no centro da mesa.
— E a ligação que gravei?
Garrett recostou-se e pediu água. Harrison apontou para a garrafa diante dele, sem servi-lo. Garrett abriu a tampa e derramou algumas gotas sobre a mesa.
— Uma conversa privada não prova intenção.
— Ainda não ouviu a gravação — Eliza respondeu.
— Não preciso. Sei o que falei.
— Então diga para todos.
Um curador anotou a frase. Renato ampliou o horário da primeira tentativa de acesso. Sienna permaneceu atrás de Eliza, visível no reflexo da janela.
— Eu estava preocupado com a continuidade da família.
— Qual família? — Sienna perguntou. — A que você manteve separada para cada uma contar uma versão?
Garrett virou a cadeira na direção dela. Eliza moveu o celular para o centro da mesa e colocou o dedo sobre o botão de reprodução.
Harrison pediu que Garrett confirmasse se reconhecia a conta remetente do e-mail. Ele respondeu que muitas pessoas haviam usado os sistemas da antiga empresa.
Renato ampliou os metadados. O envio partira de um dispositivo registrado no nome de Garrett e fora autenticado por código recebido no telefone pessoal dele.
— Roubaram meu aparelho? — Garrett perguntou.
— O senhor respondeu à mensagem dois minutos depois — Renato disse.
O advogado colocou a resposta sobre a mesa. Garrett chamara Mason pelo apelido e pedira que não mencionasse Sienna em documento algum.
Sienna leu por cima do ombro de Eliza.
— Você disse que meu nome nunca entraria nisso.
— Eu estava protegendo você.
— Usou minha dívida, meu e-mail e minha irmã.
Garrett tentou recuperar a folha. Harrison a retirou do alcance e colocou numa capa transparente.
— Você teve três oportunidades nesta sala para dizer a verdade — Eliza falou.
— E já decidiu em quem acreditar.
— Decidi olhar o que vocês deixaram registrado.
Um curador confirmou que a procuração não seria aceita. O outro anotou a suspensão preventiva de qualquer solicitação ligada a Garrett ou Mason. A reunião ainda não terminara, e o plano já perdera a única porta de que precisava.
Harrison lacrou a procuração diante de todos e registrou o horário no envelope.
Garrett perdeu o sorriso.