Eliza não respondeu. O silêncio empurrou Sienna para longe da porta.
— Ele me ajudou quando eu estava numa fase ruim — continuou. — Eu devia dinheiro. Garrett conhecia gente. No começo achei que era amizade.
— Vocês ficaram juntos?
Sienna tirou os óculos. Os olhos estavam inchados, e a maquiagem escura se acumulara nas pálpebras.
— Algumas vezes.
— Antes de ele me conhecer?
— Sim.
Eliza sentou na ponta da cama de Margaret. O colchão afundou no mesmo lugar onde a mãe passara as últimas tardes lendo relatórios. Sienna permaneceu de pé junto à janela.
— E depois?
A irmã olhou as rosas.
— Uma vez, depois que vocês começaram a sair.
Eliza retirou a aliança, examinou a marca clara no dedo e tornou a colocá-la. Ainda precisava que Garrett acreditasse no casamento até a reunião de segunda-feira.
— Por que ele se aproximou de mim?
Sienna começou a chorar. O som veio baixo, preso na garganta.
— Ele dizia que você era boa. Que tinha passado por muita coisa. Eu juro que no início não achei que fosse por dinheiro.
— Quando percebeu?
— Quando começou a perguntar sobre a empresa. Sobre o fundo, as casas, quem herdaria se a mamãe morresse.
— E você contou.
Sienna enfiou a mão no bolso e retirou um papel dobrado. Colocou-o sobre o banco aos pés da cama.
— Eu estava devendo a ele.
Era um comprovante de transferência. Garrett quitara parte de uma dívida com cobradores informais e registrara o valor como empréstimo pessoal. Juros mensais apareciam numa planilha anexada.
— Ele transformou isso numa coleira — Sienna disse. — Queria informações. Dizia que, quando você recebesse tudo, nós duas estaríamos protegidas.
— Como?
— Você colocaria o patrimônio numa estrutura administrada por ele. Depois ele me ajudaria.
Eliza dobrou o comprovante na marca original.
— A ligação de quarta era com você?
— Não.
A resposta veio rápida. Sienna deu um passo na direção da cama.
— Eu estava no pátio. Fui falar com ele, mas ouvi parte da conversa antes. Ele chamou a pessoa de Mason.
— Mason Cole?
Sienna franziu a testa.
— Acho que sim.
— Por que você riu?
— Garrett disse que você nunca lia contratos quando estava triste. Falou como se fosse uma piada interna. Eu ri de nervoso. Depois fui embora.
Eliza pegou o telefone.
— Você vai contar isso a Harrison.
Sienna recuou.
— Ele vai mandar tudo para a polícia.
— Você prefere que Garrett assine por mim?
— Não.
— Então escolhe.
Sienna cobriu o rosto com as mãos. Eliza não a abraçou. Durante anos, fizera isso antes que a irmã terminasse de admitir o dano. Esperou.
— Eu conto — Sienna disse.
— Tudo.
— Tudo que eu souber.
Eliza ligou para Harrison diante dela. O advogado ouviu o nome Mason e pediu que não discutissem mais detalhes por telefone. Marcou encontro numa sala do programa de recuperação, longe da casa.
Quando as duas desceram, Garrett estava na cozinha. A pasta da procuração desaparecera da mesa, mas Harrison já conservara cópia integral.
— Resolveram? — ele perguntou.
— Ainda não — Eliza respondeu.
Sienna vestiu os óculos. Garrett tentou tocar o braço dela quando passou. A irmã desviou e saiu pela porta principal.
— Ela pediu dinheiro? — Garrett perguntou.
— Pediu tempo.
— Você sabe como ela fica quando está desesperada.
— Sei.
Ele observou o carro desaparecer na chuva.
— Margaret fez a coisa certa com as condições.
Eliza virou o rosto para ele. Na leitura do testamento, Garrett correra atrás de Sienna para garantir que ela ficasse bem. Agora aprovava a trava que poderia usar contra ela.
— Você mudou de opinião.
— Estou tentando proteger você.
— Claro.
Na manhã seguinte, Sienna entregou a Harrison mensagens antigas, comprovantes e dois endereços de e-mail. Garrett aparecia usando frases de cuidado que terminavam em pedido de informação. Mason surgia copiado numa conversa sobre "arquitetura pós-sucessória".
Harrison reconheceu a empresa.
— Mason Cole foi sócio de Garrett numa aquisição imobiliária. A sociedade encerrou atividades depois de ações de investidores.
Renato entrou por chamada de vídeo e confirmou que o e-mail de recuperação usado nas tentativas de acesso pertencia a uma empresa atual de Mason.
— Segunda-feira, Garrett vai trazer a procuração — Eliza disse.
Harrison alinhou os papéis.
— Teremos dois curadores do fundo presentes. A gravação da sala será autorizada por todos, exceto ele até que entre. Ao entrar, será informado.
— Se souber que está sendo gravado, talvez não fale.
— O documento fala por ele.
Sienna apertou o comprovante da dívida.
— Eu preciso estar lá.
Eliza olhou para a irmã.
— Para quê?
— Para contar antes que ele conte por mim.
Na segunda-feira, às nove e cinquenta e nove, a recepcionista avisou que Garrett subia com uma pasta de couro.
Sienna entrou na sala lateral e fechou a porta.
Harrison revisou o protocolo. Os curadores assinariam como observadores. Renato falaria somente sobre registros técnicos. Eliza conduziria as perguntas sobre o casamento.
— Se ele se levantar? — Sienna perguntou pela fresta.
— A segurança está avisada — Harrison respondeu. — Você pode sair a qualquer momento.
Eliza foi até a sala lateral. A irmã segurava o comprovante da dívida com as duas mãos.
— Você não precisa enfrentá-lo para provar que está do meu lado.
— Preciso falar por mim.
— Então entre quando estiver pronta, não quando ele mandar.
Sienna assentiu. Eliza retornou ao assento, alinhou uma folha em branco e apoiou os pés no chão. Garrett costumava notar mãos trêmulas. Ela as manteve sob a mesa e esperou.
Renato entregou a Harrison um resumo impresso dos registros. Três colunas separavam fato confirmado, inferência técnica e informação ainda pendente. Eliza pediu uma cópia para Sienna.
— Ela não faz parte da empresa — um curador observou.
— Faz parte do evento investigado — Eliza respondeu.
Sienna recebeu o documento pela fresta e leu o próprio nome ligado ao e-mail de recuperação que Garrett usara anos antes. Reconheceu um endereço secundário e o marcou a caneta.
— Ele criou isso quando pagou minha dívida.
Renato verificou o domínio. A conta aparecia como contato administrativo de uma empresa de Mason. O vínculo que faltava à procuração agora tinha origem documentada.
Harrison guardou a folha no envelope de evidências e lacrou diante das duas irmãs. Ninguém poderia dizer depois que o dado surgira após a reunião.
Eliza ouviu a maçaneta principal girar.