《De Mendigo a Rei: A Queda dos Intocáveis》Capítulo 9

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O vento uivava com uma violência ensurdecedora no topo da torre da Procuradoria-Geral da República, fustigando as estruturas de vidro e aço com rajadas gélidas.

A tempestade que despencara sobre Brasília transformara a Esplanada dos Ministérios em um espelho escuro de asfalto molhado e luzes de sirenes distantes.

Enzo estava postado na borda do terraço aberto, com a silhueta magra firmemente ancorada contra o vendaval que rasgava a madrugada.

Ele vestia o mesmo casaco escuro e desgastado, mas agora trazia nos ombros o peso silencioso de um império financeiro totalmente reorganizado.

O som de passos cautelosos ecoou pelo piso de cimento molhado, quebrando o ritmo monótono da chuva que respingava nas lajes de concreto.

Matheus aproximou-se lentamente, vestindo o uniforme da Polícia Federal com os distintivos e as insígnias de identificação já arrancados do peito.

O jovem recruta, recém-afastado e desonrado pela corregedoria por ter tentado salvar o garoto na estação dois anos antes, manteve a postura firme.

Ele parou a poucos metros do menino, respirando fundo o ar carregado de ozônio e fumaça que subia das ruas da capital federal.

Sem dizer uma palavra de bajulação, Matheus ergueu a mão direita e prestou um continência militar impecável, rígida e carregada de uma reverência silenciosa.

"Eu fui despedido há exatos vinte minutos por relatórios imprecisos, moleque... quero dizer, chefe", murmurou Matheus com um sorriso triste nos lábios.

"Mas eu queria te agradecer pessoalmente antes de entregar a arma e o distintivo definitivo na portaria central deste maldito prédio."

Enzo não virou o rosto de imediato, mantendo o olhar fixo na imensidão cinzenta da cidade que ele acabara de sacudir até os fundamentos.

"Você nunca pertenceu àquele chiqueiro, Matheus", disse o garoto com a voz abafada pelo som estridente do vento que fustigava o parapeito.

"A sua farda estava limpa demais para a sujeira que eles queriam que você acobertasse nos porões da delegacia da Esplanada."

Matheus assentiu com a cabeça, sentindo um peso invisível desabar de seus ombros após anos de angústia e subordinação corrompida.

"Obrigado por limpar esta porcaria toda, Espectro", sussurrou o ex-policial, dando meia-volta e sumindo pela escada de serviço sem olhar para trás.

Quase no mesmo instante em que a porta metálica bateu abafando os passos de Matheus, um leve arrastar de solas finas cortou o terraço.

Luciana emergiu da penumbra da casa de máquinas, carregando nos braços uma bolsa de viagem de lona cinzenta e pesada.

O vestido branco de inocência dera lugar a uma calça escura de lã e a um sobretudo largo que a fazia parecer ainda mais frágil e solitária.

A menina parou a poucos passos de Enzo, com os olhos verdes brilhando em meio às lágrimas que o vento teimava em secar em sua face.

"Eles levaram o meu pai para o presídio de segurança máxima há pouco tempo", disse Luciana com a voz embargada e trêmula.

"Minha mãe fugiu para a Europa com o pouco dinheiro que sobrou nas contas secundárias que você não bloqueou na Suíça."

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Enzo virou-se lentamente para encará-la, deixando que o capuz do casaco caísse sobre os ombros e revelasse o seu rosto pálido e cortante.

Ele não demonstrou piedade piegas, mas nos olhos de um azul-marinho profundo havia uma humanidade que ele só revelava para aquela garota.

"Você escolheu o caminho certo, Luciana", respondeu o garoto, estendendo a mão direita para segurar a alça da bolsa pesada.

"Aquele sangue não define quem você é, e a sua coragem hoje foi mais letal do que qualquer código que eu pudesse ter escrito."

De dentro do bolso interno do casaco, Enzo retirou um envelope pardo lacrado contendo uma passagem de trem e uma conta bancária internacional.

Ele também puxou um cartão de crédito preto sem limite, emitido por um banco privado em Zurique, e o colocou sobre a palma da mão da menina.

"Leve isso com você", ordenou Enzo em tom firme, mas extremamente suave.

"Vá para a região sul do país, mude de nome, recomece em uma cidade onde ninguém conheça o sobrenome dos criminosos que governavam este país."

Luciana olhou para os papéis e para o cartão de metal pesado, sentindo as lágrimas transbordarem e escorrerem livremente por suas bochechas rosadas.

"E você, Enzo? O que vai ser de você agora que a sua vingança terminou e os jornais do mundo inteiro estão caçando o seu paradeiro?", perguntou ela.

O menino deu um passo à frente, aproximando-se da garota trêmula na beirada do terraço fustigado pelas rajadas implacáveis da tempestade de Brasília.

Com um gesto rápido e delicado, ele ajeitou o colarinho do casaco grosso de Luciana para protegê-la do vento cortante daquela madrugada.

"A minha guerra está apenas na metade, Luciana", respondeu o garoto, lembrando-se do pendrive de Genebra que mencionava o pai dela.

"Ainda existem monstros escondidos em ilhas onde a lei brasileira jamais vai conseguir alcançar com uma simples caneta de promotor."

Luciana engoliu em seco, compreendendo perfeitamente que o destino daquele menino não pertencia aos trilhos comuns da paz burguesa.

Ela deu um passo para trás, dobrou o corpo em uma reverência profunda e respeitosa, aceitando o fardo e a liberdade que ele lhe dera.

"Obrigada por não ter me deixado virar um monstro igual a eles, Enzo", sussurrou a garota antes de virar as costas em direção à escada.

Enzo permaneceu imóvel na borda do terraço, enfiando a mão no bolso para tatear um objeto de tecido macio e esquecido pelo tempo.

Era o velho lenço branco bordado com as iniciais da família Dos Santos que ela deixara cair na lama da Estação da Luz dois anos atrás.

Ele retirou o tecido do forro, sentindo o cheiro fraco de lavanda desbotada misturar-se ao cheiro de chuva e pólvora daquela noite memorável.

Uma rajada de vento mais forte arrancou o lenço de sua mão calejada, elevando-o aos céus em uma dança caótica sobre a Esplanada.

Enzo não tentou segurá-lo; apenas observou o pequeno pedaço de tecido branco sumir na escuridão, engolido pelas nuvens da tempestade.

Enquanto isso, na saída de serviço do edifício, Matheus aguardava sob um grande guarda-chuva preto para escoltar a menina até o táxi seguro.

A porta do veículo fechou-se com um baque abafado, e o carro sumiu na neblina da madrugada, levando embora a única inocência daquela história.

Enzo deu meia-volta, ajustou a gola alta do casaco e caminhou sozinho para a penumbra da casa de máquinas, pronto para o próximo alvo.

No entanto, antes que ele pudesse alcançar o elevador privativo que descia aos subsolos, o terminal em seu pulso vibrou com um alerta criptografado.

A tela acendeu-se com uma coordenada GPS exata e uma imagem de satélite em tempo real capturada em uma mansão isolada nas Bermudas.

A mensagem exibia o rosto sorridente de um homem que todos julgavam estar morto havia anos, acompanhado de uma frase curta e desafiadora:

"O jogo de verdade começa agora, garoto... vamos ver se o seu código é forte o suficiente para queimar o verdadeiro arquiteto."

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