《Ela Empurrou Minha Mãe Da Escada… Sem Saber Quem Ela Realmente Era》Parte 9

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Vitória Albuquerque pediu para falar com o delegado na manhã seguinte.

Até então, tinha seguido a orientação do advogado.

Respondia apenas o necessário.

Negava qualquer planejamento.

Insistia que a queda de Helena tinha sido resultado de uma discussão que saíra do controle.

Naquela manhã, porém, alguma coisa mudou.

"Eu quero fazer um novo depoimento."

O advogado virou-se imediatamente.

"Vitória, não."

Ela nem olhou para ele.

"Eu quero falar."

"Você não vai melhorar sua situação inventando histórias."

Vitória apertou as mãos.

"Eu não vou inventar."

O delegado permaneceu em silêncio.

Ela respirou fundo.

"Ricardo Montenegro me colocou perto do Alexandre."

O advogado fechou os olhos.

A sala ficou imóvel.

O delegado se inclinou para frente.

"Comece do início."

Vitória conhecera Ricardo quase um ano antes de conhecer Alexandre.

Não num jantar beneficente.

Não nos Jardins.

Não por acaso.

O primeiro encontro tinha acontecido num escritório discreto próximo à Avenida Brigadeiro Faria Lima.

Ricardo sabia quem ela era.

Sabia das dívidas que Vitória escondia.

Sabia que a família Albuquerque já não possuía nem uma fração do patrimônio que aparentava ter.

Sabia que ela precisava de dinheiro.

"Ele disse que podia mudar minha vida."

"O que ele ofereceu?"

"Dinheiro."

"Em troca de quê?"

Vitória abaixou os olhos.

"De aproximação."

"Com Alexandre?"

"Sim."

Ricardo explicou os hábitos do sobrinho.

Restaurantes.

Eventos.

Amigos.

Pessoas em quem confiava.

Até o tipo de mulher que normalmente fazia Alexandre perder o interesse.

"Ele disse para eu não parecer interessada."

O delegado fez uma anotação.

"E por que Ricardo queria você perto do sobrinho?"

Vitória hesitou.

"Para conseguir acesso."

"A quê?"

"À casa."

"Mais especificamente."

Vitória respirou fundo.

"A documentos."

Ricardo acreditava que alguns registros antigos relacionados a Helena ainda estavam em poder de Alexandre ou guardados na mansão.

Ele não sabia exatamente onde.

Precisava de alguém dentro da casa.

Alguém que pudesse entrar em quartos privados sem despertar suspeitas.

Alguém que, com o tempo, tivesse acesso a senhas.

Chaves.

Cofres.

Computadores.

"Você aceitou."

"Sim."

"Por dinheiro?"

"No começo."

"E depois?"

Vitória ficou em silêncio.

O delegado repetiu.

"E depois?"

"Eu me envolvi com Alexandre."

O advogado a observou.

"Se apaixonou?"

Vitória demorou.

"Eu achei que sim."

Mas até ela já não sabia onde terminava o sentimento e começava a ambição.

Alexandre tinha tudo que ela desejava.

Poder.

Respeito.

Um sobrenome que abria portas.

Uma casa em Jardim Europa.

Férias em lugares que apareciam em revistas.

Jantares onde as pessoas mais influentes de São Paulo o cumprimentavam primeiro.

Vitória começou a imaginar aquela vida como sua.

Não como missão.

Como futuro.

"Ricardo percebeu."

"O quê?"

"Que eu queria ficar."

"E o que ele disse?"

Vitória soltou uma risada amarga.

"Que era melhor ainda."

Ricardo fez uma promessa.

Se Vitória conseguisse se casar com Alexandre, ninguém conseguiria tirá-la daquele mundo.

Mas existia um problema.

Helena.

No início, Vitória riu.

"Eu perguntei o que uma senhora aposentada podia fazer contra mim."

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O delegado levantou os olhos.

"E ele respondeu?"

"Disse que eu não fazia ideia de quem Helena realmente era."

Foi assim que Vitória descobriu os documentos.

O casamento com Eduardo.

O terreno de Antônio Ferreira.

O aporte de capital.

A antiga participação societária.

E uma série de direitos que nunca tinham sido completamente encerrados.

"Ricardo disse que precisava de uma última declaração."

"Qual?"

"Uma renúncia definitiva."

"Assinada por Helena?"

"Sim."

O delegado colocou uma cópia da declaração sobre a mesa.

Vitória reconheceu.

"Essa."

"Helena assinou?"

"Não."

"Mas a assinatura está aqui."

"Ricardo disse que resolveria."

O delegado ficou sério.

"Como?"

"Eu não perguntei."

"Você sabia que era falsa?"

Vitória apertou os lábios.

"Eu suspeitava."

"Isso significa sim?"

"Significa que eu não queria saber."

O advogado passou a mão pelo rosto.

Vitória continuou.

Sua função era fazer Helena assinar uma nova versão.

Uma assinatura legítima encerraria qualquer discussão futura.

Mas Helena nunca aceitava.

Vitória tentou apresentar o papel como mera atualização cadastral.

Helena leu.

Recusou.

Tentou dizer que Alexandre precisava organizar documentos familiares.

Helena respondeu que falaria diretamente com o filho.

Tentou deixar folhas misturadas entre outros papéis.

Helena percebeu.

Cada tentativa fracassada aumentava a pressão de Ricardo.

E o ressentimento de Vitória.

"Eu comecei a odiar aquela mulher."

O delegado perguntou:

"Por quê?"

Vitória olhou para as próprias mãos.

"Porque ela não precisava de nada."

A resposta surpreendeu até o advogado.

Vitória continuou.

"Eu tinha vestido de vinte mil reais."

Sua voz começou a tremer.

"Ela aparecia com uma bolsa velha."

"Eu chegava de carro importado."

"Ela vinha de ônibus."

"Eu conhecia empresários, artistas, políticos."

"Ela conversava com os funcionários da cozinha."

Vitória engoliu em seco.

"E mesmo assim, quando ela entrava naquela casa, eu sentia que era mais importante do que eu."

O delegado não interrompeu.

"Alexandre mudava perto dela."

"Como?"

"Ele ficava diferente."

Vitória riu, mas havia lágrimas em seus olhos.

"Comigo, ele estava sempre olhando o celular."

"Com ela, guardava."

"Comigo, falava de negócios."

"Com ela, perguntava se tinha comido."

Vitória apertou as mãos.

"Eu tinha tudo que deveria fazer alguém como eu parecer superior."

"Mas?"

"Mas ela não competia."

Essa era a parte que Vitória mais odiava.

Helena nunca perguntava o preço de seus vestidos.

Nunca demonstrava inveja.

Nunca tentava impressionar Alexandre.

Nunca disputava espaço.

Ela simplesmente existia.

E isso bastava.

"Ricardo dizia que ela era uma velha simples."

Vitória enxugou uma lágrima.

"Mas não era."

"O que ela era?"

Vitória ficou alguns segundos em silêncio.

"A única pessoa naquela casa que não precisava do dinheiro do Alexandre para ter valor para ele."

A frase ficou no ar.

Depois, o delegado voltou ao ponto principal.

"O que aconteceu no dia da queda?"

Vitória fechou os olhos.

Ela tinha recebido uma ligação de Ricardo naquela manhã.

Ele estava irritado.

A investigação sobre documentos antigos podia começar a qualquer momento.

A declaração precisava ser assinada.

"Ele disse que era minha última chance."

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"Última chance para quê?"

"Para resolver Helena antes que Alexandre descobrisse."

Vitória foi até a mansão decidida a pressioná-la.

Mas Helena apareceu inesperadamente.

Com um bolo numa sacola.

Roupas simples.

Sem motorista.

Sem joias.

Vitória olhou para ela e sentiu raiva antes mesmo de começarem a conversar.

"Eu queria que ela fosse embora."

"Por isso mandou ela entrar pela porta de serviço?"

Vitória abaixou a cabeça.

"Sim."

"Por isso a humilhava?"

"Sim."

"Por ordem de Ricardo?"

"Algumas vezes."

"E outras?"

Vitória fechou os olhos.

"Porque eu queria."

O delegado permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez, Vitória não tentou se justificar.

"Naquele dia, ela percebeu."

"O quê?"

"Que eu estava com medo."

Vitória lembrou do alto da escadaria.

Helena diante dela.

Calma.

Sem gritar.

Sem ameaçar.

Aquilo a deixava ainda mais furiosa.

"Ela disse que eu não amava Alexandre."

"E você respondeu?"

"Disse que aquela casa era dele, não dela."

Vitória começou a chorar.

"Então ela olhou para mim."

A voz falhou.

"E disse uma coisa."

O delegado esperou.

Vitória respirou fundo.

"Você pode conquistar a casa dele. Nunca vai conquistar o coração dele desse jeito."

Ela cobriu o rosto.

"Eu perdi o controle."

"Você empurrou Helena."

"Sim."

A palavra saiu finalmente sem desculpa.

Sem acidente.

Sem equilíbrio perdido.

"Eu empurrei."

No mesmo horário, Mariana estava reunida com Alexandre e peritos financeiros na sede do Grupo Montenegro.

Os cálculos sobre a participação de Helena tinham sido atualizados.

Alexandre olhou para os números.

"Isso não pode estar certo."

"Está."

Mariana apontou para os registros.

A participação original havia sido diluída, convertida e redistribuída ao longo de décadas.

Mas se as procurações e renúncias fossem consideradas fraudulentas, algumas operações posteriores poderiam ser questionadas.

"Qual seria o impacto?"

"Grande."

"Quanto?"

Mariana respirou fundo.

"Grande o suficiente para alterar a estrutura de controle do grupo."

Alexandre ficou imóvel.

"E Ricardo sabia."

"Provavelmente desde o início."

Agora tudo fazia sentido.

Vitória não precisava apenas tirar Helena da vida de Alexandre.

Precisava impedir que ela recuperasse a posição jurídica que poderia destruir o poder de Ricardo.

O telefone de Mariana tocou.

Era o delegado.

Ela ouviu por vários minutos.

Alexandre observava.

Quando desligou, ela parecia surpresa.

"Vitória falou."

"O quê?"

"Tudo."

Alexandre ficou de pé.

Mariana contou sobre os pagamentos.

Sobre a aproximação planejada.

Sobre os documentos.

Sobre a declaração.

E sobre Ricardo.

Alexandre não disse nada.

A confirmação não trouxe alívio.

Trouxe nojo.

"Então meu relacionamento inteiro começou como um plano."

"Segundo ela, sim."

"E Ricardo organizou."

"Sim."

Alexandre caminhou até a janela.

"Quero ele longe da empresa."

"Talvez seja mais do que isso."

"Como assim?"

Mariana olhou para o celular.

"A polícia conseguiu autorização para aprofundar a investigação financeira."

"E?"

"Encontraram pagamentos para Vitória, para o intermediário da declaração e para um antigo funcionário do cartório."

Alexandre virou-se.

"Todos ligados à mesma estrutura?"

"Sim."

"Ricardo?"

"Os caminhos levam até ele."

Naquela tarde, investigadores chegaram à sede do Grupo Montenegro.

A notícia se espalhou pelos corredores.

Funcionários pararam.

Diretores fecharam portas.

Ricardo saiu de sua sala acompanhado de dois advogados.

Ao ver Alexandre no fim do corredor, parou.

Os dois se encararam.

Ricardo tentou sorrir.

"Está satisfeito?"

Alexandre caminhou até ele.

"Não."

"Você está destruindo a empresa do seu pai."

Alexandre ficou a poucos passos.

"Não."

Sua voz estava calma.

"Estou descobrindo o que você fez com ela."

Ricardo perdeu o sorriso.

Um investigador se aproximou.

"Senhor Ricardo Montenegro, precisamos que o senhor nos acompanhe."

"Com base em quê?"

"Fraude documental, movimentações financeiras suspeitas e possível participação em crimes relacionados à investigação de Vitória Albuquerque."

Ricardo olhou para Alexandre.

"Você não sabe com quem está mexendo."

Alexandre não desviou os olhos.

"Sei."

Os investigadores conduziram Ricardo ao elevador.

Antes que a porta fechasse, ele olhou mais uma vez para o sobrinho.

E sorriu.

Não era o sorriso de um homem derrotado.

Era o sorriso de alguém que ainda guardava alguma coisa.

Minutos depois, Mariana apareceu correndo pelo corredor.

"Alexandre."

Ele virou.

"O que aconteceu?"

Ela segurava uma pasta encontrada no escritório de Ricardo durante a busca.

"Você precisa ver isso."

Alexandre abriu.

Dentro havia cópias de documentos antigos, movimentações societárias e uma lista com nomes de conselheiros.

Ao lado de alguns nomes havia percentuais.

Mariana apontou para a última página.

"Ricardo convocou uma nova assembleia."

"Quando?"

"Amanhã de manhã."

Alexandre franziu a testa.

"Ele está sendo investigado."

"Não importa."

"Qual é a pauta?"

Mariana olhou para ele.

"Retirar você definitivamente do comando do Grupo Montenegro."

Alexandre fechou a pasta.

"E ele tem votos?"

Mariana respirou fundo.

"Se essa lista estiver correta..."

Ela fez uma pausa.

"Tem."

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