A voz de Ricardo Montenegro continuou ecoando na cabeça de Alexandre mesmo depois que Bruno desligou o áudio.
"Então faça a velha desaparecer."
Alexandre permaneceu imóvel diante da tela.
Por alguns segundos, ninguém na sala de segurança ousou falar.
Então ele arrancou o celular do bolso.
Mariana segurou seu braço.
"Não."
Alexandre virou-se lentamente.
"Solta."
"Você não vai ligar para ele."
"Ele mandou fazer minha mãe desaparecer."
"Eu ouvi."
"Então solta meu braço."
Mariana não soltou.
"Se você procurar Ricardo agora, vai avisar que descobrimos."
"Eu quero que ele saiba."
"Isso seria exatamente o que ele precisa."
Alexandre respirava com dificuldade.
Bruno observava em silêncio.
Mariana continuou.
"Temos um áudio recuperado de um sistema que sofreu exclusão. Precisamos preservar a cadeia de evidências, identificar data, contexto e provar que a voz é dele."
"Eu conheço a voz do meu tio."
"Você conhece. Um juiz vai exigir mais."
Alexandre bateu a mão sobre a mesa.
"Ele estava falando da minha mãe!"
"Provavelmente."
"Provavelmente?"
Mariana sustentou o olhar.
"É assim que precisamos pensar até provar."
Alexandre se afastou.
Queria atravessar São Paulo naquela mesma noite.
Queria entrar na casa de Ricardo e obrigá-lo a explicar cada palavra.
Mas alguma coisa o impediu.
Talvez a frase de Helena.
Ricardo nunca fazia nada sem pensar no que aconteceria depois.
"Entregue uma cópia à polícia."
Mariana assentiu.
"E o original fica preservado."
"Bruno?"
"Já fiz uma cópia técnica."
Alexandre olhou novamente para a tela.
"Descubra tudo que ele apagou."
"Vou descobrir."
Na manhã seguinte, Ricardo fez o primeiro movimento.
Às oito e dezessete, os membros do conselho do Grupo Montenegro receberam uma convocação extraordinária.
Assunto urgente.
Governança.
Risco institucional.
Alexandre leu a mensagem dentro do carro.
Mariana estava ao lado dele.
"Ele sabe."
"Talvez."
"Convocação de emergência um dia depois de encontrarmos o áudio?"
"Pode ser coincidência."
Alexandre olhou para ela.
Mariana suspirou.
"Eu também não acredito."
Quando chegaram à sede da Faria Lima, havia mais carros do que o normal na garagem executiva.
Diretores.
Conselheiros.
Advogados.
Ricardo tinha reunido todos.
Alexandre entrou na sala de reuniões às nove em ponto.
Seu tio já estava sentado.
Terno azul-marinho.
Gravata discreta.
Cabelos perfeitamente alinhados.
Nenhum sinal de preocupação.
Ricardo se levantou.
"Alexandre."
Ele não respondeu ao cumprimento.
Sentou na cabeceira.
Ricardo percebeu a frieza.
"Como está Helena?"
A pergunta quase fez Alexandre perder o controle.
Mariana tocou discretamente a pasta diante dele.
Um aviso.
Ainda não.
"Se recuperando."
"Fico aliviado."
Alexandre olhou diretamente para o tio.
"Fica?"
O silêncio mudou.
Ricardo inclinou a cabeça.
"Claro."
Um dos conselheiros pigarreou.
"Podemos começar?"
Ricardo abriu a reunião.
Falou sobre a exposição pública causada pela prisão de Vitória.
Sobre as reportagens.
Sobre especulações envolvendo patrimônio familiar.
Sobre a necessidade de proteger o grupo.
Durante quase dez minutos, evitou dizer o verdadeiro motivo da convocação.
Então chegou ao ponto.
"Estamos diante de uma crise de liderança."
Alexandre ergueu os olhos.
Ricardo continuou.
"Meu sobrinho está vivendo uma situação pessoal extremamente dolorosa."
"Escolha bem as próximas palavras."
Ricardo ignorou.
"Todos lamentamos o que aconteceu com Helena."
"Não use o nome dela."
Alguns conselheiros se entreolharam.
Ricardo respirou fundo.
"É justamente essa reação que me preocupa."
Alexandre entendeu.
Aquilo estava preparado.
"Que reação?"
"Você não está conseguindo separar família de empresa."
"Minha família não está em discussão aqui."
"Está quando investigações pessoais começam a atingir o grupo."
Mariana abriu a boca, mas Alexandre levantou a mão.
"Continua, tio."
Ricardo percebeu o veneno na última palavra.
Mesmo assim, prosseguiu.
"Você cancelou reuniões."
"Minha mãe estava hospitalizada."
"Suspendeu negociações."
"Por quarenta e oito horas."
"Ordenou investigações internas sem aprovação do conselho."
"Porque encontrei irregularidades."
Ricardo sorriu levemente.
"Ou porque está procurando inimigos."
Alexandre se inclinou.
"Talvez eu tenha encontrado."
A sala ficou silenciosa.
Por um instante, o sorriso de Ricardo desapareceu.
Depois voltou.
"É exatamente disso que estou falando."
Ele olhou para os outros conselheiros.
"Alexandre está emocionalmente comprometido."
"Você quer me afastar?"
"Ninguém falou isso."
"Então fale."
Ricardo cruzou as mãos.
"Estou propondo uma licença temporária da presidência executiva até que essa situação familiar seja esclarecida."
Um murmúrio percorreu a mesa.
Alexandre soltou uma risada.
"Você convocou o conselho para me tirar da empresa."
"Temporariamente."
"E quem assumiria?"
Ricardo não respondeu.
Não precisava.
Alexandre recostou-se.
"Você."
"Se o conselho entender que é necessário."
"Claro."
Mariana observava cada movimento.
Ricardo tinha pressa.
Isso era importante.
Alguma coisa o estava assustando.
Um conselheiro mais velho levantou a mão.
"Ricardo, há alguma questão concreta relacionada à empresa?"
"Há."
Ele abriu uma pasta.
"Nas últimas horas, Alexandre passou a questionar estruturas patrimoniais encerradas há mais de três décadas."
Alexandre ficou atento.
"Como você sabe?"
Ricardo ignorou.
"Essas acusações podem gerar insegurança jurídica."
"Que acusações?"
"Supostos direitos de Helena Ferreira sobre participações antigas."
A sala ficou em silêncio.
Alexandre percebeu imediatamente.
Ricardo sabia exatamente o que Mariana estava investigando.
"Curioso."
Ricardo olhou para ele.
"O quê?"
"Eu não contei a você sobre essa investigação."
O tio não se abalou.
"Advogados conversam."
"Os meus não."
Mariana permaneceu impassível.
Ricardo fechou a pasta.
"Não importa."
"Importa para mim."
"Então talvez isso encerre o assunto."
Ele retirou um documento.
Alexandre reconheceu o formato.
Era uma declaração formal.
Ricardo entregou cópias aos conselheiros.
"Helena renunciou expressamente a qualquer direito relacionado à antiga estrutura societária."
Alexandre pegou sua cópia.
O texto era direto.
Helena Ferreira declarava reconhecer que não possuía direitos sobre participações, créditos ou ativos relacionados à Montenegro Empreendimentos e seus sucessores.
Havia uma data.
Uma identificação.
E uma assinatura.
Alexandre congelou.
"De onde veio isso?"
"Dos arquivos jurídicos."
Mariana puxou a folha.
Analisou rapidamente.
"Esse documento não estava no inventário que recebemos."
"Talvez sua busca não tenha sido tão completa."
Alexandre continuava olhando para a assinatura.
Conhecia aquele traço.
Tinha visto a mãe assinar boletins escolares.
Cheques.
Cartões de aniversário.
Autorizações.
Parecia verdadeira.
Ricardo percebeu sua reação.
"Eu sei que é difícil aceitar."
Alexandre levantou os olhos.
"Não fala comigo como se estivesse me consolando."
"Estou tentando evitar que você destrua a reputação da própria mãe."
"Como?"
"Transformando uma decisão que ela tomou em juventude numa acusação de fraude."
Alexandre se levantou.
"Minha mãe disse que nunca abriu mão desses direitos."
"Talvez não se lembre."
A cadeira de Alexandre se moveu violentamente.
Mariana se levantou também.
"Alexandre."
Ele apontou para Ricardo.
"Nunca mais fale da memória dela."
Ricardo não recuou.
"Você mesmo disse que ela sofreu uma lesão na cabeça."
Alexandre avançou um passo.
"Repete."
"Chega."
Mariana entrou entre os dois.
Os conselheiros observavam em choque.
Ricardo arrumou o paletó.
"É isso que estou tentando mostrar."
Ele olhou ao redor.
"Alexandre não está em condições de liderar."
Alexandre riu.
"Você provoca e depois usa minha reação como prova."
"Eu não preciso provocar."
Ricardo apontou para o documento.
"Tenho fatos."
Mariana pegou a declaração.
"Quero o original."
"Está no arquivo."
"Quero agora."
Ricardo sorriu.
"Você receberá pelos canais adequados."
Alexandre encarou o tio.
"Vamos buscar outra confirmação."
"De quem?"
"Da mulher cujo nome está aí."
Ricardo perdeu o sorriso.
Alexandre percebeu.
Pouco mais de uma hora depois, Dona Helena entrou na sede do Grupo Montenegro pela primeira vez em muitos anos.
Seu braço ainda estava imobilizado.
Alexandre tentou convencê-la a não ir.
Ela recusou.
"Se estão usando meu nome, eu quero ouvir."
Quando entrou na sala, alguns conselheiros se levantaram.
Outros ficaram constrangidos.
Ricardo permaneceu sentado.
Helena olhou para ele.
Trinta anos pareciam existir naquele silêncio.
"Ricardo."
"Helena."
Alexandre colocou a declaração diante da mãe.
"Preciso que você veja."
Ela pegou a folha com a mão direita.
Leu devagar.
A expressão não mudou até chegar ao final.
Então parou.
Alexandre se aproximou.
"Mãe?"
Helena continuou olhando para a assinatura.
"Você reconhece?"
Ela não respondeu.
Ricardo falou do outro lado da mesa.
"Não precisamos transformar isso num interrogatório."
Helena ergueu os olhos para ele.
"Eu consigo responder sozinha."
Ricardo ficou quieto.
Alexandre apontou para a assinatura.
"É sua?"
Helena olhou novamente.
Os segundos ficaram pesados.
Então respondeu.
"Essa assinatura é minha."
Um murmúrio percorreu a sala.
Alexandre sentiu o chão desaparecer.
Mariana franziu a testa.
Ricardo recostou-se na cadeira.
Pela primeira vez naquela manhã, parecia tranquilo.
"Como eu disse."
Alexandre não conseguiu desviar os olhos da mãe.
"Você assinou?"
Helena levantou uma mão.
"Espera."
Ela aproximou o documento do rosto.
Observou o traço.
Depois a posição da assinatura.
A data.
O texto.
Seu rosto mudou.
"Eu conheço essa assinatura."
Ricardo ficou atento.
Helena fechou os olhos por alguns segundos.
Quando abriu, havia raiva.
Não medo.
"Eu sei de onde ela saiu."
Alexandre se aproximou.
"De onde?"
Helena olhou diretamente para Ricardo.
"De um documento que você me deu para assinar depois da morte do Eduardo."
O rosto dele endureceu.
"Isso foi há décadas."
"Eu lembro."
"Você estava em luto."
"Eu estava."
Helena colocou a folha sobre a mesa.
"Mas não estava morta."
Ricardo levantou.
"Está insinuando o quê?"
Helena também tentou se levantar completamente, apesar da dor.
Alexandre segurou seu braço.
Ela não tirou os olhos de Ricardo.
"Essa assinatura é minha."
Todos permaneceram em silêncio.
Helena bateu o dedo sobre a declaração.
"Mas eu nunca assinei este documento."
Ricardo ficou imóvel.
Alexandre olhou para a mãe.
"Então como sua assinatura foi parar aí?"
Helena respirou fundo.
"Porque alguém guardou uma folha que eu assinei há mais de trinta anos."
Mariana pegou o documento imediatamente.
"Para usar depois."
Helena assentiu.
Ricardo deu um passo para trás.
E, pela primeira vez, Alexandre viu medo no rosto do tio.
Mas Mariana ainda observava a assinatura.
De repente, ela parou.
Virou a folha contra a luz.
"Alexandre."
Ele olhou.
"O quê?"
Mariana apontou para uma pequena marca quase invisível junto à assinatura.
"Isso pode nos dizer exatamente de qual documento ela foi retirada."