Nora não entrou no quarto.
— A mãe de Léo?
Luca assentiu. Pegou a fotografia e limpou a poeira com a manga.
— Isadora. Ela comprou o boneco quando estava grávida.
— Augusto disse que a última candidata tentou entrar no seu quarto.
— Tentou vender fotografias daqui. A janela era no térreo. Augusto prefere versões educativas.
Nora quase riu, mas o rosto de Luca impediu.
— O que aconteceu naquela noite?
Ele recolocou a foto.
— Uma família rival invadiu a casa de praia. Eu estava numa reunião. Isadora escondeu Léo num armário e correu para afastar os homens. Morreu no corredor. Ele ouviu tudo.
— E você trancou o andar.
— Tranquei qualquer pessoa que lembrasse ela do lado de fora.
— Inclusive seu filho.
Luca fechou os olhos por um segundo.
— Helena diz o mesmo.
— Ela está certa.
— Você sempre fala assim com homens armados?
— Só com os que pedem honestidade e entregam relatório censurado.
Luca encostou na cômoda. A postura perdeu a rigidez.
— Quando Léo recusa comida, eu volto para o quarto onde o encontrei. Quando ele atravessou o portão com você, passei uma hora esperando uma ligação dizendo que alguém tinha levado os dois.
— Você podia ter contado.
— Contar torna o risco real.
— O risco já é real.
Nora tocou o bolso onde guardava o anel.
— Se quer um casamento verdadeiro, começa com informação verdadeira. Quero saber quais áreas são seguras, quem pode chegar perto de Léo e que plano existe se algo acontecer. Helena participa. Augusto também. Nada de homens entrando armados na ala da criança.
— Você está impondo condições.
— Estou escolhendo se fico.
Luca endireitou-se.
— Amanhã, oito da manhã. Reunião de segurança. Você recebe tudo.
— Sem monitorar meu computador.
— Sem monitorar seu computador.
Nora entrou no quarto e abriu as cortinas. A luz da manhã alcançou a cama coberta.
— Léo deve escolher o que fazer com as coisas da mãe.
— Ainda não.
— Com Helena presente.
Luca olhou a fotografia.
— Com Helena presente.
A reunião durou três horas. Nora descobriu rotas de saída, nomes de seguranças e protocolos. Retirou câmeras do interior do seu quarto e do de Léo. Exigiu que qualquer ameaça fosse comunicada em linguagem apropriada à criança.
Helena aprovou a abertura gradual do terceiro andar. Léo entrou segurando as mãos dos dois. Parou diante da fotografia e reconheceu o boneco.
— Era dela?
— Era seu — disse Luca. — Ela comprou para você.
Léo colocou o herói ao lado da moldura.
— Pode ficar aqui de noite e comigo de dia.
Luca se ajoelhou e abraçou o filho. Léo permaneceu rígido por alguns segundos, depois envolveu o pescoço do pai.
Nora saiu para dar privacidade. No corredor, apoiou a cabeça na parede.
Quando voltou do primeiro dia de trabalho no centro, estava com febre. Tentou subir sem ser vista, mas Luca a encontrou agarrada ao corrimão.
— Você está doente.
— Cansada.
Ele encostou a mão na testa dela.
— Trinta e oito, no mínimo.
— Desde quando é termômetro?
Luca a levou até o sofá, chamou o médico e preparou uma bebida quente na cozinha. Nora observou o homem mais temido de São Paulo rasgar um sachê de antigripal com os dentes.
— Isso é seguro?
— Eu sei seguir instruções.
— Evidência insuficiente.
Ele entregou a caneca e puxou uma manta sobre as pernas dela.
— Durma.
Nora acordou horas depois no próprio quarto. Luca estava na poltrona, trabalhando em silêncio. Léo dormia ao lado dela com máscara infantil para não pegar gripe.
— Vocês não precisam ficar.
— Ele insistiu — disse Luca.
— E você?
— Também.
Nora bebeu água. O anel estava sobre a mesa de cabeceira. Luca devia tê-lo encontrado no bolso ao ajudá-la a trocar o casaco.
— Não coloquei de volta — disse ele.
— Eu vi.
— Quero que use quando decidir.
Luca levantou e saiu antes que ela respondesse.
Na manhã seguinte, Nora encontrou uma mensagem de Sebastião: Estou no portão. Saia ou entro.
Ela desceu para impedir uma cena. Sebastião esperava junto à calçada, sem paletó, olheiras marcadas.
No dia anterior, Nora levara Léo à primeira visita curta à escola. Ele escolheu uma carteira próxima da porta e colocou o herói dentro da mochila. Quando a professora fechou a sala, sua mão procurou a maçaneta.
Nora abriu novamente e perguntou se ele preferia uma fresta. Léo deixou dois dedos de espaço. Ficou oito minutos, desenhou a família e saiu antes da crise.
Luca esperava no carro. Ao ver o desenho, perguntou por que aparecia longe dos outros dois.
— Você trabalha — respondeu Léo.
Naquela noite, Luca cancelou uma reunião de jantar. Sentou no tapete e pediu ao filho que desenhasse de novo. Na segunda folha, as três figuras ficaram sob o mesmo teto.
Nora guardou os dois desenhos. O primeiro mostrava o medo que ainda existia; o segundo, a possibilidade que Luca começava a construir. Na manhã seguinte, ele levou Léo à escola sem comboio visível e esperou na calçada. Quando o menino saiu, Luca não perguntou se tivera medo. Perguntou qual brinquedo escolhera. Léo respondeu por cinco minutos.
Durante a abertura do terceiro andar, Helena pediu que Luca descrevesse a mãe de Léo sem falar da morte. Ele contou que Isadora cantava mal, escondia doces no piano e havia comprado o herói antes de saber se teria menino ou menina. Léo ouviu sentado no tapete.
— Ela tinha medo? — perguntou.
— Tinha — respondeu Luca. — E mesmo assim colocou você no lugar mais seguro que encontrou.
Helena explicou que coragem podia existir junto do medo. Léo escolheu uma fotografia para o quarto e outra para a sala. Pediu que o restante continuasse ali até estar pronto.
Nos dias seguintes, Nora e Luca alternaram as visitas ao terceiro andar. Nenhum dos dois transformou o espaço em prova de amor. Léo entrava, fazia uma pergunta e saía. À noite, os pesadelos diminuíram.
Luca também compareceu a uma sessão individual. Voltou irritado, deixou o telefone na gaveta e passou vinte minutos montando o mesmo quebra-cabeça com o filho. Nora não perguntou o que Helena dissera. Quando Léo terminou a borda, Luca encostou a testa na dele e ficou assim até o menino rir.
— Você acabou com minha empresa.
— Saia daqui.
Ele agarrou o pulso dela.
— Você volta comigo hoje.
A porta da mansão se abriu. Léo correu pelos degraus.
— Solta a minha mãe!