O bloco vermelho caiu da torre e acertou o sapato de Luca.
Léo riu. Nora pegou a peça e colocou sobre a mesa.
— Não sei andar nos seus eventos.
— Ande ao meu lado.
— Isso não é instrução suficiente.
— Na minha vida, costuma ser.
Nora olhou para Helena. A psicóloga fechou a pasta.
— Não sou consultora de gala. Como tarefa familiar, aprovo que Léo veja os dois saírem e voltarem juntos no horário prometido.
— Traição — disse Nora.
Helena sorriu e foi embora.
No dia seguinte, uma equipe de cinco pessoas ocupou o closet. Vestidos chegaram em capas, joias em maletas e sapatos em caixas. Uma estilista levantou um modelo preto diante de Nora.
— Esse afina.
Nora tocou o tecido.
— Não quero afinar.
— É uma forma de dizer.
— Diga outra coisa.
Ela escolheu um vestido vinho, de cintura marcada e mangas transparentes. Não escondia o corpo nem o apertava. A estilista tentou trocar por um modelo mais discreto. Nora recusou.
Quando Luca entrou no salão, parou no primeiro passo. Usava smoking preto, sem a tatuagem visível. Nora colocou o brinco diante do espelho.
— Está errado?
— Não.
— Você ficou olhando.
— Estou olhando.
Augusto apareceu com um estojo. Dentro havia um colar antigo da família.
— Não preciso disso — disse Nora.
Luca pegou a peça.
— Vire.
Ela reuniu o cabelo. Os dedos dele roçaram a nuca ao fechar o gancho. Nora prendeu a respiração. Luca demorou um instante a mais para retirar as mãos.
— O colar não combina com contrato de três meses — falou ela.
— Combina com o vestido.
Léo entrou de pijama, carregando o boneco.
— Nora está bonita.
— Está — respondeu Luca.
— Voltam antes da história?
Nora ajoelhou.
— Antes das onze. Se atrasarmos, ligamos.
O menino tocou o colar.
— Pode chamar ela de mamãe? — perguntou Luca.
Léo escondeu o rosto no ombro de Nora.
— Quando quiser — disse ela. — Nora está bom.
O evento ocupava o salão de um hotel na Avenida Paulista. Empresários, políticos e homens que evitavam fotografias se aproximaram de Luca. Nora reconheceu sobrenomes de hospitais, construtoras e bancos.
— Don Castellano, quem é a senhora? — perguntou um conselheiro.
Nora se antecipou.
— Sou amiga do Luca.
A mão dele encontrou a dela.
— Minha esposa, Nora.
O conselheiro mudou de postura. Outras pessoas se aproximaram. Convites, elogios e pedidos de conversa caíram sobre ela.
Nora puxou Luca para perto.
— Você não precisava anunciar.
— Está com vergonha de ser minha mulher?
— Eu achei que você teria vergonha de mim.
O olhar dele escureceu.
— Só homem fraco sente vergonha da própria esposa.
A frase abriu espaço no barulho. Nora soltou a mão para buscar uma bebida.
Sebastião estava junto à torre de champanhe.
— Quase não reconheci você.
— Continue assim.
— Minha irmã ligou sem minha autorização. Eu não queria que saísse de verdade.
— Você colocou minha mala na chuva.
— Para ensinar uma lição. Você deveria ter pedido desculpas e voltado.
Nora pegou uma taça.
— Eu aprendi.
— Então vamos conversar.
— Aprendi a não voltar.
Sebastião segurou o pulso dela. Nora desprendeu a mão.
— A Ferraz Capital perdeu dois contratos dos Castellano — disse ele. — Você está fazendo isso para me punir.
— Não sabia.
— Pare de fingir. Diga ao seu patrão para reverter.
— Marido — corrigiu Luca atrás dele.
Sebastião virou-se com o cartão de visita já na mão.
— Don Castellano. Justamente quem eu queria encontrar. Podemos corrigir qualquer falha do mandato.
Luca nem olhou o cartão.
— Nora, devo dar outra chance a ele?
Sebastião soltou uma risada sem humor.
— Ela não entende de finanças. Era dona de casa.
— Ele pediu que eu não interferisse — disse Nora. — Seria indelicado interferir.
— Então minha mulher não aprova — concluiu Luca. — O contrato continua encerrado.
O rosto de Sebastião perdeu cor.
Luca colocou o braço sobre os ombros de Nora e a conduziu para longe. No palco, anunciou a doação de uma coleção avaliada em milhões para um hospital infantil. A placa traria o nome de Nora Batista Castellano.
— Por que meu nome?
— Você fez meu filho comer.
— Isso ainda não vale milhões.
— Para mim, vale.
Na volta, ambos tinham bebido mais do que pretendiam. Nora agradeceu pela defesa. Luca virou o rosto para ela.
— Pare de agradecer. Somos marido e mulher.
— No papel.
Ele ergueu a mão e inclinou o queixo dela. O polegar passou devagar junto à mandíbula.
— E se eu não quiser mais um casamento de papel?
Nora ficou imóvel. A boca dele estava perto, a respiração quente e irregular.
— Você bebeu demais.
Luca retirou a mão.
— Tem razão. Desculpe.
O carro seguiu em silêncio. Na porta da mansão, Léo esperava com o livro apertado contra o peito.
Nora o pegou e subiu sem olhar para trás. Depois de colocá-lo na cama, abriu o notebook e começou a preencher uma candidatura para o centro de nutrição infantil.
Na manhã seguinte, recebeu uma mensagem de Luca.
Traga café ao terceiro andar.
Nora não dormiu bem. Às três da manhã, encontrou Luca na cozinha bebendo água. Nenhum dos dois mencionou o carro. Ele colocou duas fatias de pão na torradeira e queimou ambas.
— O grande Don não sabe fazer torrada.
— Tenho funcionários.
— Resposta de homem indefeso.
Luca raspou a parte preta com uma faca. Dividiu a fatia menos ruim e empurrou metade para ela. Comeram de pé, em silêncio, enquanto o relógio avançava. Quando Nora subiu, percebeu que aquela fora a primeira refeição dos dois sem contrato, criança ou plateia entre eles.
No hotel, antes de irem embora, uma diretora de hospital abordou Nora. Perguntou se ela aceitava visitar a ala pediátrica depois da doação. Sebastião assistia à distância, cercado por homens que antes o procuravam e agora desviavam.
Nora marcou a visita sem consultar Luca. Ele recebeu a informação e apenas colocou o compromisso na agenda familiar.
— Não vai perguntar se pode? — provocou ela.
— Você acabou de decidir.
No carro, depois do quase beijo, Luca cumpriu a promessa de chegar antes das onze. Léo estava acordado, mas não em pânico. Olhou o relógio, conferiu o horário e mostrou o livro.
Nora entendeu que cada retorno pontual desmontava um pouco da noite em que a mãe do menino não voltara.