Davi olhou pela janela da cozinha.
A rua estava vazia. Um entregador passava de bicicleta, e uma vizinha recolhia roupas do varal. A normalidade pareceu uma encenação frágil.
— Sara levou as crianças à terapeuta — ele disse. — Fica a uma hora daqui.
— Ligue para ela e mande seguir direto ao posto policial — Nogueira ordenou. — Uma equipe está indo para você.
Davi telefonou. Sara entendeu pelo tom e não fez perguntas diante dos filhos. Mudou a rota, avisou à terapeuta que chegaria depois e compartilhou a localização.
— Não volte para casa — ele falou.
— Você vem também.
— A polícia está chegando.
— Davi.
— Cuide deles agora.
Ele encerrou antes que a voz falhasse.
O aplicativo de segurança mostrava todas as câmeras. A imagem do portão congelou por três segundos e retornou. Davi verificou a conexão. Um alerta informou interferência no sensor lateral.
Marcos já estava perto.
Davi fechou as cortinas dos quartos, mas deixou livre a parede de vidro da sala. Apagou as luzes externas pelo painel e desligou as internas. A casa mergulhou na sombra da noite.
No quarto, abriu o cofre biométrico. Retirou uma pistola registrada, conferiu o carregador e guardou o telefone no bolso. Suas mãos lembraram o peso do atiçador, o sangue e o braço de Leo emergindo do buraco.
Ele não queria matar Marcos. Queria impedir que o homem atravessasse outra porta.
Nogueira manteve a ligação por fone.
— A equipe estadual está a onze minutos. Não procure contato.
— Ele veio até minha família.
— E será preso se você permanecer vivo para reconhecê-lo.
Davi se sentou na poltrona voltada para a varanda. A arma descansava contra a coxa, apontada para o chão. A geladeira produziu um estalo. O relógio marcava 23h41.
Quatro minutos depois, a luz de movimento acendeu no jardim.
Uma sombra passou entre as árvores. O homem usava jaqueta cinza e carregava um pé de cabra. Caminhava curvado, testando as janelas. Quando chegou ao vidro, ergueu o rosto.
Era Marcos.
Os anos haviam afinado suas feições. A barba estava irregular, os olhos inquietos. Ele tentou enxergar o interior e tocou a ponta da ferramenta na fechadura.
Davi não se moveu.
Marcos retirou do bolso um pequeno aparelho. As câmeras apagaram ao mesmo tempo. A linha com Nogueira chiou, mas não caiu.
— Visual confirmado — Davi murmurou.
— Não se exponha.
O invasor levantou o pé de cabra.
Davi saiu da poltrona e entrou no feixe de luar. Apontou a pistola para baixo, visível. Marcos congelou do outro lado.
— A casa está vazia — ele disse através do vidro. — Eu só quero conversar.
Davi não respondeu. Puxou o ferrolho. O som metálico atravessou a sala.
Marcos olhou para os lados.
— Elisa perdeu o controle. Eu tentei parar.
— Largue. Agora.
O pé de cabra caiu na grama.
— Ela me obrigou. Depois do bebê, enlouqueceu. Disse que Leo era nosso filho voltando.
— Ajoelhe.
— Posso explicar o empreiteiro.
Davi manteve a arma estável.
Marcos baixou os joelhos. Começou a chorar antes que as sirenes surgissem. Falava rápido, oferecendo nomes, contas e locais.
— Gilberto ia contar. Elisa disse que ele destruiria Gabriel. Eu só queria assustar, mas ele lutou. Foi um acidente.
— Você enterrou um homem.
— Ela fez o plano.
— Você carregou meu filho.
Marcos fechou os olhos.
— Ele estava dormindo.
A frase quase rompeu o controle de Davi. O dedo permaneceu fora do gatilho. Ele pensou em Leo perguntando se a porta ficaria aberta e recusou transformar a casa nova em outra cena de sangue.
Luzes vermelhas e azuis cortaram a rua. Agentes cercaram o jardim. Davi colocou a arma no chão e ergueu as mãos quando ordenaram. Marcos deitou na grama, chorando.
Nogueira chegou minutos depois. Recolheu o bloqueador de sinal, o pé de cabra e uma mochila. Dentro havia passaportes falsos, dinheiro, sedativos, fotografias da família e uma planta impressa da casa.
Uma rota em vermelho ligava a janela de Leo à estrada.
Davi precisou se sentar.
— Ele vinha buscar meu filho de novo.
— Agora temos tentativa, perseguição e material para a conspiração — Nogueira respondeu.
No posto policial, Sara abraçou Davi com os olhos abertos. Leo permaneceu atrás dela até ver que o pai não estava ferido.
— O homem mau veio? — perguntou.
— Veio.
— Entrou?
— Não.
Leo deu dois passos e encostou a testa no peito dele. Davi não fechou os braços até sentir as mãos do filho em sua cintura.
Marcos começou a colaborar antes do amanhecer. Indicou o local onde queimara roupas, entregou a senha de um cofre digital e descreveu o sequestro. Admitiu dirigir o carro de apoio no churrasco e instalar a câmera da cela.
Também confirmou que Elisa sugerira matar Gilberto. O acordo não evitaria décadas de prisão, mas retirava a última dúvida sobre a capacidade dela de distinguir crime e consequência.
Camila recebeu a confissão gravada. No tribunal, pediu que o júri visse apenas os trechos necessários. Elisa assistiu ao ex-marido dizer que os dois queriam substituir o bebê perdido.
— Ela sabia que Leo tinha pais — Marcos declarou. — Era por isso que precisava esconder.
Elisa deixou cair a caneta.
Pela primeira vez desde a prisão, olhou para Davi. A ternura falsa dera lugar a ódio.
— Você tirou meu filho — disse, antes que o microfone fosse desligado.
Davi não respondeu.
Na manhã seguinte, a juíza entregou as perguntas finais aos jurados. Horas depois, uma campainha anunciou que haviam chegado a um veredito.
Antes da campainha, Marcos assinou o acordo diante de Camila e de um defensor público. Exigiu proteção contra Elisa, embora ela estivesse presa em outro estado. O medo que alegava sentir da ex-mulher não impediu que tentasse obedecê-la outra vez.
— Por que foi à casa? — Camila perguntou.
— Ela mandou uma mensagem por intermédio do advogado antigo. Disse que Leo precisava ser retirado antes do veredito.
— Você levou sedativos.
— Para ele não sofrer na viagem.
Camila encerrou o depoimento por alguns minutos. Quando voltou, colocou a fotografia da cela diante dele.
— Isso é sofrimento.
Marcos baixou a cabeça e confirmou o local de todas as contas. A polícia recuperou vídeos que Elisa pretendia usar para criar uma identidade falsa de Gabriel. Em um deles, Leo repetia uma data de nascimento inventada enquanto a voz do casal corrigia cada palavra.
Davi decidiu não assistir. Autorizou que a promotoria usasse os metadados e um trecho sem imagem da criança. A recusa também fazia parte de protegê-lo.
Na sessão final, Camila falou por menos de vinte minutos. Colocou no centro do plenário a planta clandestina, o frasco de sedativo e a folha com os nomes riscados.
— Delírio não instala isolamento acústico, apaga câmera e prepara passaporte — concluiu. — Eles sabiam que uma família procurava Leo. Construíram silêncio para vencê-la.
O júri saiu. Elisa permaneceu imóvel, mas seus dedos amassaram um lenço até rasgá-lo. Quando a campainha tocou, tentou se levantar antes dos agentes.
Sara recebeu a notícia da confissão com raiva silenciosa. Marcos admitira que visitara a casa durante as buscas, levando filtros e alimentos pela lavanderia enquanto voluntários distribuíam cartazes na rua. Também confirmara que Elisa monitorava os pais por perfis falsos.
— Eles alimentavam nosso desespero para saber onde procuraríamos — Sara disse.
Camila assentiu. A acusação acrescentou mapas encontrados no cofre digital. Regiões riscadas correspondiam às pistas falsas enviadas à polícia. O casal desviara equipes para longe de Brasília repetidas vezes.
Davi quis saber se poderiam responder por cada dia perdido. A promotora explicou que a pena não contaria a dor em unidades perfeitas. O processo provaria crimes, e a família teria de construir significado fora dele.
Antes de retornar ao plenário, Davi telefonou para Leo. Não falou sobre expectativa de condenação.
— O que está fazendo?
— Um vulcão de papel com a Maia.
— Guarde para eu ver.
Essa conversa comum foi a última coisa que ouviu antes do veredito.