Leo apareceu no monitor sem olhar para a câmera.
A sala reservada tinha paredes claras, uma mesa pequena e a porta presa por um calço de borracha. Sara se sentava fora do enquadramento. Sua mão permanecia aberta sobre a cadeira, e Leo podia alcançá-la quando quisesse.
Camila começou com perguntas sobre a escola e a idade. A voz chegava pelo alto-falante sem eco. Leo puxava um fio solto do suéter azul.
No plenário, Davi mantinha os olhos na tela. Elisa vestia um conjunto cinza. Os cabelos estavam perfeitamente alinhados. Parecia assistir a uma gravação que não lhe dizia respeito.
— Leo, você se lembra de acordar no quarto escuro? — Camila perguntou.
Ele assentiu.
— Pode contar o que sua tia falou?
O menino olhou para a mão de Sara. Encostou dois dedos nela.
— Disse que meu pai e minha mãe não me queriam mais.
Um ruído atravessou a plateia. A juíza pediu silêncio.
Davi sentiu a unha entrar na própria palma. Queria alcançar a tela, porém permaneceu sentado. Qualquer movimento seu poderia virar distração para o filho.
— Ela explicou por quê?
— Eu era barulhento. Quebrava regras. Ela era minha mãe nova.
— O que acontecia se você fizesse barulho?
Leo parou de puxar o fio. Seus olhos se fixaram numa marca da mesa.
— Os homens maus vinham me buscar.
Uma jurada limpou o rosto. Outro jurado fechou a boca com força. Elisa ajeitou a manga.
O advogado de defesa se levantou para objetar, alegando indução. A juíza negou. Camila esperou até Leo respirar de modo regular.
— Você saía daquele quarto?
— Uma vez.
— Conte só o que conseguir.
— Tinha polícia em cima. Ela colocou uma agulha no meu braço. Quando acordei, deu um bolinho de baunilha. Disse que eu era bom porque ninguém ouviu.
Sara apertou os dedos dele. Leo não retirou a mão.
Camila mostrou a imagem de um cronograma apreendido. Não pediu que o menino lesse tudo. Apontou apenas para a coluna de "avaliação".
— O que acontecia nessa hora?
— Eu tinha que falar que meu nome era Gabriel.
Elisa enfim ergueu o queixo.
— Meu nome é Leo — o menino disse, agora olhando para a câmera.
Davi ouviu alguém soluçar atrás dele. Não se virou.
A defesa questionou Leo por intermédio da juíza. Queria saber se ele recebera orientação dos pais, se sonhava com o quarto, se tinha certeza de datas. Camila se opôs quando as perguntas repetiam o trauma. A juíza limitou a abordagem.
— Sua tia cuidava da sua comida? — o advogado perguntou.
— Dava comida.
— Livros?
— Dava.
— Então ela também fazia coisas boas?
Leo franziu a testa.
— Ela fechava a porta depois.
A resposta percorreu o plenário com mais força do que um discurso. O advogado encerrou.
Quando o vídeo foi desligado, Sara levou o filho diretamente para uma sala tranquila. Maia o esperava com a lanterna. Leo não perguntou se fora corajoso. Pediu água e disse que queria voltar para casa.
No plenário, a defesa perdeu a serenidade. Um psiquiatra admitiu que Elisa ocultara compras, enganara policiais e ajustara doses para manter a criança inconsciente durante buscas. Camila perguntou se alguém incapaz de entender consequências eliminaria tantos rastros. O homem respondeu que não podia afirmar.
Davi observou Elisa. Ela não olhava para os peritos nem para o monitor apagado. Seus olhos estavam presos às portas do fundo. Um sorriso pequeno surgiu.
Ele se virou.
Um homem alto, de boné e óculos, saía antes do intervalo. Davi chamou Nogueira, mas o desconhecido já atravessava o corredor. Câmeras externas o registraram entrando num carro por aplicativo e trocando de veículo duas quadras depois.
Naquela noite, Nogueira ligou.
— Confirmamos a identidade de Gilberto Ramos. E o laboratório encontrou DNA masculino na lona.
— Marcos?
— Sim. O ex-marido da sua irmã.
Davi se apoiou na bancada.
— Foi ele no tribunal.
— A imagem facial tem baixa qualidade, mas a altura e a cicatriz na mão coincidem. Marcos ajudou a construir a cela, participou do sequestro e eliminou Gilberto quando ele ameaçou falar.
Sara aproximou-se. Leo dormia com Maia no quarto, as duas portas abertas.
— Ele sabe onde estamos? — ela perguntou.
— Estamos verificando. Não saiam.
Camila solicitou proteção reforçada e adiamento da sessão. A juíza manteve o julgamento, mas fechou o acesso público. A descoberta do cadáver entrou como prova de conspiração após uma audiência emergencial.
No interrogatório seguinte, Elisa negou conhecer o paradeiro do ex-marido. Camila mostrou as mensagens recuperadas.
"Gabriel precisa da mãe e do pai."
"Gilberto está nervoso."
"Resolva antes que estrague nossa família."
Elisa pediu para falar com o advogado. O sorriso sumiu.
A promotora deixou a última mensagem projetada para o júri. A data era dois dias anterior ao desaparecimento de Gilberto.
No fim da tarde, Nogueira voltou a telefonar. Sua voz estava mais rápida.
— Marcos alugou um SUV cinza ontem com documento falso. O GPS ainda transmite.
— Onde ele está?
Houve um clique de teclado.
— A última posição fica a dois quilômetros da sua casa.
Nogueira enviou a placa, a fotografia do veículo e uma palavra de segurança. Caso alguém ligasse fingindo ser policial, Davi deveria exigir "Ipê-amarelo". Patrulhas se deslocaram para a clínica e para a casa.
Sara estacionou num posto movimentado antes de seguir à delegacia. Disse às crianças que havia um problema com o alarme. Leo percebeu a meia verdade.
— É o homem da voz?
Sara segurou o volante.
— A polícia procura Marcos perto de casa.
O menino soltou o cinto e tentou abrir a porta. Maia segurou sua mão, sem impedir o movimento.
— A gente pode sair junto — falou.
Sara abriu as travas, saiu com os dois e entrou na loja iluminada. Um policial à paisana chegou minutos depois. Leo escolheu uma mesa de onde via as duas saídas.
Na residência, Davi recebeu imagens do pedágio mostrando Marcos com um boné diferente e barba falsa. O homem comprara combustível, fita, comida infantil e um cobertor. Cada item ampliava o risco.
— Ele pode querer fugir com Leo — Nogueira disse.
— Não vai chegar perto.
— Então siga minhas ordens. Sua raiva é útil apenas se mantiver você atento.
Davi percorreu os quartos, conferiu que não havia ninguém e levou para a sala uma fotografia recente dos filhos. Colocou-a virada para baixo. Marcos não entraria e não veria a vida que tentava destruir.
Às 23h36, o cachorro do vizinho latiu. Às 23h41, uma câmera perdeu sinal. Às 23h45, o jardim acendeu.
Antes de se posicionar, Davi enviou a Nogueira uma fotografia do painel de alarme e ativou a gravação do telefone. Também destrancou a porta frontal para a entrada da equipe. Cada escolha diminuía a chance de um policial confundi-lo com o invasor.
O treinamento recebido durante o processo ajudou a conter impulsos. Ele manteve distância do vidro, identificou a área segura e repetiu mentalmente que Sara e as crianças estavam longe. Sua função era ganhar tempo.
No posto, Leo observava a localização do pai no celular de Sara. O ponto permanecia imóvel. Maia apoiou a cabeça no ombro do irmão e contou carros vermelhos no estacionamento. Quando a conexão caiu por causa do bloqueador de Marcos, o menino começou a bater três vezes na mesa.
Sara respondeu a cada sequência. Continuou até o sinal voltar e a mensagem de Nogueira aparecer: "Davi está seguro. Suspeito detido." Leo fechou os olhos e manteve a mão sobre a madeira.