《A Casa Perfeita da Minha Irmã Escondia Meu Filho》Capítulo 6

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Quatro meses depois, Leo ainda deixava todas as portas abertas.

A família se mudara para uma casa nos arredores de Campinas. Não havia porão. As paredes tinham janelas largas, e o quintal podia ser visto da cozinha. Davi verificara a planta, acompanhara a inspeção do solo e observara cada funcionário que instalou o alarme.

Leo escolhera o quarto menor porque possuía duas saídas: a porta e uma janela baixa para o jardim. Dormia com luz acesa, sem meias, e guardava uma lanterna debaixo do travesseiro.

As manhãs começavam com um quadro de escolhas. Escola em casa ou aula curta. Mingau ou pão. Terapia na sala ou no jardim. Renata continuava o atendimento por vídeo, acompanhada por uma terapeuta local.

O menino recuperara peso. O cabelo fora cortado. Ainda se encolhia quando o liquidificador ligava e parava de falar diante de cheiro de baunilha.

Maia sentava perto sem pedir explicações. Quando ele congelava, batia duas vezes em alguma superfície. O novo código significava "você decide".

Do lado de fora, equipes de televisão esperavam uma imagem. Um podcast publicou trechos falsos do diário. Influenciadores invadiram o condomínio. A foto escolar de Leo apareceu em camisetas.

Davi contratou uma advogada para retirar o material. Sara escreveu uma única declaração: o filho estava vivo, em tratamento, e não era personagem de entretenimento.

A aproximação do julgamento aumentou a pressão. A defesa de Elisa apresentou três psiquiatras. Todos relacionavam o aborto, o divórcio e uma possível ruptura psicótica. Um deles recomendava internação em clínica privada em vez de prisão.

Camila reuniu a família na cozinha.

— Planejamento não exclui doença — explicou. — Precisamos provar que ela sabia esconder, enganar e evitar punição.

— A casa prova — Davi disse.

— A defesa chama a casa de delírio materializado. Os diários ajudam, mas o júri precisa entender o controle diário.

Sara cruzou os braços.

— Você quer que Leo fale.

— Quero apresentar opções. Ele pode usar vídeo fechado, sem entrar na sala, com psicóloga e um de vocês ao lado. Também pode recusar.

— Ele tem nove anos.

— Por isso a decisão não será tomada hoje.

Davi olhou para o quintal. Leo e Maia construíam uma pista de carrinhos. O menino alinhava cada peça com cuidado excessivo. Quando uma curva saiu do lugar, ele apertou os dentes. Maia desmontou a pista toda e começou de novo, transformando o erro em brincadeira.

— Não vou colocar meu filho diante dela — Davi afirmou.

— Nem eu quero — Camila respondeu. — Mas a defesa pedirá que o júri enxergue uma mãe doente. Sem a experiência de Leo, talvez consiga.

A conversa terminou sem decisão. Naquela noite, Davi ouviu passos no corredor. Encontrou Leo sentado diante da porta dos pais.

— Vocês estavam falando do tribunal.

Davi se sentou no chão.

— Estávamos.

— A tia vai voltar?

— O juiz vai decidir.

— Ela conta mentira bonito.

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— Conta.

Leo puxou os joelhos contra o peito.

— Se eu falar, ela escuta?

— Pode escutar. Você não precisa olhar para ela.

— E se minha voz parar?

— A gente para junto.

Nos dias seguintes, a terapeuta mostrou o equipamento de vídeo. Leo testou o microfone, escolheu a cadeira e marcou com fita a posição da porta. Sara ficaria fora da câmera, segurando sua mão. Nenhuma pergunta poderia ser feita sem aprovação prévia.

Camila treinou frases simples. Não pediu que ele memorizasse respostas. Quando Leo se calava, aguardava.

— A tia dizia que silêncio era bom — ele contou numa preparação.

— Aqui, silêncio também pode ser uma escolha — Camila respondeu.

Ele pareceu considerar a diferença.

A promotora apresentou outra notícia. A polícia achara restos humanos numa área de cerrado perto de Formosa. A arcada dentária indicava Gilberto Ramos. O corpo fora envolvido numa lona usada em obras.

— A causa provável é estrangulamento — Nogueira explicou por vídeo. — Estamos analisando material biológico preso à lona.

— Elisa fez isso? — Sara perguntou.

— Gilberto pesava quase cem quilos. Pode ter havido participação de outra pessoa.

Marcos voltou ao centro da investigação. Contas antigas revelaram transferências para Gilberto e aluguel de um galpão. Uma câmera de posto mostrava o ex-marido de Elisa dirigindo a caminhonete encontrada.

Davi fechou o notebook.

— Então prendam-no antes do julgamento.

— Estamos tentando.

A polícia distribuiu a fotografia atualizada de Marcos. Mesmo assim, ele parecia desaparecer entre cidades, chips descartáveis e documentos falsos.

Na véspera da audiência, Leo teve uma crise ao sentir o cheiro de cupcake vindo da casa vizinha. Escondeu-se debaixo da mesa e cobriu os ouvidos. Sara sentou no chão a dois metros. Davi abriu as portas da cozinha.

Maia levou um limão cortado para mudar o cheiro.

Depois de vinte minutos, Leo saiu sozinho.

— Eu não consigo falar amanhã — disse.

Davi sentiu alívio e frustração ao mesmo tempo, mas não mostrou nenhum deles.

— Então não fala.

Leo olhou para a irmã, para a porta aberta e para as próprias mãos.

— Se eu não falar, ela conta por mim.

— Você não deve nada a ninguém.

— Quero contar do quarto. Quero que saibam que eu fiz barulho e estava vivo.

Na manhã seguinte, antes de entrar na sala de vídeo, Leo entregou a lanterna a Maia.

— Guarda para mim.

As luzes do tribunal acenderam. Elisa ocupou o banco dos réus com os cabelos presos e um sorriso calmo.

Antes de sair de casa, Leo pediu para escolher a própria roupa. Rejeitou a camisa branca separada por Sara e vestiu o suéter azul porque a malha não apertava os pulsos. Colocou os sapatos sem meias. Ninguém comentou.

No carro, ele contou postes até o fórum. Maia foi autorizada a acompanhá-lo até a entrada reservada. Entregou a lanterna e escreveu num papel: "Duas batidas: você decide." Leo guardou o bilhete no bolso.

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Uma equipe de televisão tentou filmá-los pela grade. Marcos Nascimento, o segurança designado, abriu um guarda-chuva grande e protegeu o rosto das crianças. Davi sentiu vontade de confrontar o cinegrafista, mas Leo segurou sua manga.

— Vamos entrar.

Dentro do prédio, Camila mostrou as rotas de saída. Leo testou o microfone e pediu que retirassem um relógio barulhento. A equipe técnica o fez sem questionar.

Elisa chegou algemada por outra garagem. Sua advogada distribuíra uma nota descrevendo o depoimento como exploração de uma criança fragilizada. Camila leu o texto e o guardou.

— Ela quer que a discussão seja sobre quem faz Leo falar — explicou. — Nossa obrigação é deixar claro que ele escolheu.

Davi entrou no plenário. Sara permaneceu com o filho. Antes de a porta fechar, Leo chamou o pai.

— Se eu parar, você ainda acredita?

— Acreditei quando ouvi a primeira batida.

O menino assentiu. Sentou na cadeira marcada, colocou os pés descalços no apoio e esperou que a tela acendesse.

No instante anterior à transmissão, a técnica perguntou se ele queria ver o plenário. Leo recusou. A imagem seria de mão única; o tribunal o enxergaria, mas ele veria somente Camila numa tela pequena.

Sara pediu que todos evitassem a palavra "coragem". Leo não precisava representar força para merecer proteção. A equipe concordou. Quando o sinal vermelho acendeu, ele apertou a mão da mãe e informou o próprio nome completo.

Do outro lado, Davi ouviu a defesa sussurrar que a criança parecia ensaiada. Camila solicitou que o comentário fosse registrado. A juíza advertiu o advogado.

Elisa mantinha os olhos baixos, mas seus lábios acompanhavam as respostas do menino antes que ele terminasse. Ela conhecia as frases que o obrigara a repetir. Davi viu o movimento e entendeu que a calma da irmã era tentativa de continuar dirigindo Leo atrás de uma mesa distante.

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