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《O Avô Que Ela Nunca Conheceu》Capítulo 7

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Ricardo chegou quinze minutos adiantado e ocupou a cadeira na cabeceira.

Lúcia pediu que mudasse de lugar. A mesa do escritório não pertencia a nenhuma das partes; não haveria cabeceira. Ricardo sorriu para os próprios advogados e sentou onde ela indicou.

Helena entrou com Antônio. Deixou a cadeira entre ela e o pai vazia. Ricardo colocou a fotografia de Sofia naquele espaço.

—Ela está sofrendo.

Helena virou a foto para si.

—Ela está sendo acompanhada.

—Por causa do que vocês fizeram.

—Fale dos documentos.

Ricardo apoiou as mãos na mesa.

—Eu fiz tudo para proteger você.

Lúcia ligou o gravador.

Helena retirou o primeiro envelope. O carimbo da empresa ficou voltado para Ricardo.

—Você interceptou as cartas.

—Minha equipe pode ter recebido correspondência.

Ela colocou o laudo de assinatura sobre o envelope.

—Você falsificou a carta que mostrou ao meu pai.

—Damião manipulava arquivos.

A terceira peça foi o extrato bancário. A linha de crédito da oficina saía para a Ponte Norte e voltava como aquisição de ativo.

—Você comprou a empresa dele com dinheiro tirado dela.

—Essas operações salvaram empregos.

Antônio falou pela primeira vez:

—Doze pessoas perderam o trabalho.

Ricardo apontou para o antigo patrão.

—Você ia perder tudo de qualquer forma.

—Então por que precisou da minha assinatura?

O advogado de Ricardo pediu pausa. Helena não se moveu.

—Você me isolou para decidir por mim —disse ela.

Ricardo baixou a voz.

—Seu pai teria impedido nosso futuro.

—Meu futuro ou sua empresa?

—A família inteira se beneficiou.

—Eu não conhecia o preço.

Ele tocou a fotografia.

—Pense em Sofia.

Helena puxou a foto para longe da mão dele.

—Não use nossa filha como cláusula.

A porta abriu. Dois investigadores entraram com Damião e a promotora. Ricardo perdeu a cor.

Damião não olhou para ele. Entregou uma pasta azul, sentou no lugar vazio e confirmou seu nome para o registro.

—O que está fazendo? —Ricardo perguntou.

—Eu contei tudo.

Os advogados se levantaram ao mesmo tempo. A promotora pediu que permanecessem. Damião descreveu a primeira reunião, a captura de assinaturas e a ordem para reter correspondência.

Um dos defensores exigiu saber por que a presença dele não fora comunicada. A promotora respondeu que aquela reunião não substituía interrogatório e ninguém era obrigado a continuar. Ricardo fez um gesto para que o advogado se sentasse.

—Continue —ordenou a Damião.

O antigo contador abriu a pasta azul. Havia uma agenda de capa preta, preservada desde a época da oficina. As datas coincidiam com retiradas bancárias. Ao lado de cada valor, letras indicavam o destino.

—Aqui está a primeira transferência —disse Damião. —Ricardo pediu que eu lançasse como compra de maquinário.

Antônio aproximou-se.

—A máquina nunca chegou.

—Foi emitida nota por uma empresa sem estoque.

Helena apontou para a sigla T.

—Teresa?

Damião assentiu.

—Eram as ações herdadas. Entraram como garantia quando os bancos começaram a desconfiar da Ponte Norte.

Ricardo bateu a caneta na mesa.

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—Você tinha procuração assinada por Helena.

—Uma autorização geral —disse Lúcia. —Sem informação sobre conflito de interesses ou destino do crédito.

Damião virou outra página. Um lembrete dizia: "Manter H ocupada com médicos. R. cuida das ligações." A data correspondia à semana posterior à perda do primeiro bebê de Helena.

Antônio fechou a agenda para que a filha não continuasse olhando.

—Já basta para hoje.

—Não. —Helena reabriu no mesmo ponto. —Passei quinze anos recebendo metade. Hoje eu leio inteiro.

Ricardo bateu a palma na mesa.

—Você montou esse esquema!

Damião finalmente o encarou.

—Eu montei as planilhas. Você deu as ordens.

Um investigador colocou sobre a mesa a cópia de uma mensagem recuperada do servidor: "D. assume se houver problema. Garantir família dele." O advogado de Damião apontou a data e o remetente de Ricardo.

—Você prometeu me proteger —disse Damião.

—E agora está mentindo para reduzir pena.

—As gravações não mentem.

A sala parou.

Damião explicou que gravara duas reuniões depois de perceber que seria descartado. A promotora não reproduziu o áudio completo. Bastaram oito segundos da voz de Ricardo:

"A carta mantém Helena longe dele. Sem Antônio, as ações ficam livres."

Helena apertou o braço da cadeira. Antônio manteve os olhos no homem que fora recebido em sua mesa, ensinara a medir madeira e acabara casado com sua filha.

Ricardo olhou para ela.

—Você precisa entender o contexto.

—Quinze anos cabem nesse contexto?

Ele não respondeu.

A promotora anunciou que pediria medidas cautelares e formalizaria novas acusações. Ricardo ainda não sairia preso daquela sala; o processo exigia decisão judicial. Mesmo assim, seus advogados recolheram papéis com a pressa de quem perdera a estratégia.

No corredor, ele tentou alcançar Helena.

—Podemos conversar sem eles.

—Foi assim que você controlou tudo.

—Sou pai da Sofia.

—E continuará sendo conforme a decisão da Vara de Família. Isso não apaga o restante.

Ricardo olhou para Antônio.

—Você está satisfeito?

—Minha filha sabe a verdade. O resto vem depois.

Ricardo saiu escoltado pelos advogados. Fotógrafos o esperavam na calçada. Pela primeira vez, ele cobriu o rosto.

Naquela noite, Helena recebeu uma chamada da escola. Sofia empurrara um colega que dissera que o pai dela era ladrão. A menina esperava na coordenação com os braços cruzados.

—Ele falou do meu pai —disse.

—Você podia chamar a professora.

—Ele não parava.

Antônio sentou ao lado dela.

—Quando alguém mente sobre nós, empurrar só dá outra história para contar.

—E o que eu faço?

—Pergunta qual prova ele tem.

Sofia considerou.

—Isso parece coisa da Lúcia.

—Estou aprendendo.

Helena combinou uma medida educativa com a escola e pediu proteção contra exposição. No carro, Sofia ficou em silêncio até a metade do caminho.

—Meu pai é ladrão?

Helena segurou o volante.

—Há provas de que ele falsificou documentos e tomou coisas que não eram dele. Ele terá defesa. Um juiz vai decidir.

—Você sempre fala como a Lúcia agora.

—É melhor que falar como os portais.

Sofia tocou a mochila.

—Eu não quero visitar ele.

—Hoje?

—Hoje.

—Então hoje você não visita.

Antônio olhou pela janela. Helena não transformara a filha em prêmio, escudo ou testemunha. Ricardo perdera essa ferramenta.

Dois dias depois, a justiça autorizou buscas e determinou o afastamento temporário de Ricardo da administração das empresas investigadas. Ele entregou passaporte, mas permaneceu em liberdade.

Ao sair do fórum, declarou que era vítima de uma armação familiar. O mercado reagiu. Credores cobraram garantias. Sócios independentes entregaram documentos para proteger a si mesmos.

Uma caixa encontrada num arquivo terceirizado continha originais de cartas de Antônio. Vinte e três envelopes, nunca abertos, guardados por ordem da presidência.

Lúcia levou a caixa à casa de Helena. Antônio reconheceu a própria letra. Sentou-se no chão antes de tocar em qualquer uma.

—Estavam todas aqui —disse Helena.

—Todas.

Sofia escolheu um envelope pelo desenho pequeno de uma flor. Antônio explicou que copiara uma flor que Helena desenhava na escola.

—Podemos ler?

Ele entregou a carta à filha.

Helena abriu na linha da cola e leu em voz alta: "Não vou bater de novo no seu portão. Se um dia quiser me ouvir, estarei onde conseguir ficar. Seu pai."

Ela apoiou a testa no ombro dele.

O interfone tocou antes que terminassem a segunda carta. Dois investigadores estavam no portão com uma ordem assinada.

Ricardo fora preso preventivamente por tentar destruir provas e influenciar Martim.

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