《Minha Mãe Comprou Passagens Para Todos… Menos Para Mim》Parte 9

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Gabriel ficou olhando para a tela do celular depois de enviar o áudio.

Durante meses, aquele arquivo permanecera escondido numa pasta que ele quase nunca abria.

Agora já não havia volta.

Do outro lado da cidade, Henrique ouviu novamente a voz da esposa.

"Então eu vou fazer Henrique perceber que ela nunca foi uma de nós."

Ele não sentiu raiva de imediato.

Sentiu vazio.

Rafael permaneceu em silêncio ao lado dele.

Henrique apertou o celular com força.

"Quero falar com Gabriel."

"Agora?"

"Agora."

Gabriel atendeu no segundo toque.

"Pai."

"De onde veio essa gravação?"

O rapaz respirou fundo.

"Foi sem querer."

"Explica."

"Uns quatro meses atrás, eu fui na casa do vô."

Henrique esperou.

"Minha mãe estava lá."

"Eu entrei no escritório sem eles perceberem."

Gabriel engoliu em seco.

"Eles estavam discutindo."

"Sobre Vitória?"

"Sobre dinheiro."

Henrique fechou os olhos.

Gabriel continuou.

"Eu estava gravando um vídeo para um amigo."

"Quando ouvi meu nome, parei."

"Mas o celular continuou gravando."

Henrique olhou para Rafael.

"Você ouviu tudo?"

"Ouvi bastante."

"E guardou por quatro meses."

Silêncio.

"Eu tive medo."

Henrique não respondeu.

Gabriel falou rápido:

"Eu sei que foi covardia."

"Mas era minha mãe."

"Era meu avô."

"E eles falavam como se estivessem tentando proteger meu futuro."

Henrique sentiu amargura.

"Seu futuro?"

"Foi isso que eles diziam."

"Que eu estava perdendo patrimônio."

"Que você tinha tomado uma decisão injusta."

Henrique fechou a mão.

"Dividir entre meus filhos é injustiça?"

"Eu não acho."

"Mas eles queriam que você achasse."

Gabriel ficou em silêncio.

Henrique respirou fundo.

"Você contou para alguém?"

"Não."

"Até hoje?"

"Não."

"Por que agora?"

A resposta demorou.

"Porque eu vi a mala dela."

Henrique fechou os olhos.

Gabriel continuou.

"Eu sabia há um mês que ela não viajaria."

"Vi ela falar de Trancoso."

"Vi ela comprar os óculos de natação."

"Vi ela arrumar roupa."

"E não fiz nada."

A voz do rapaz falhou.

"Quando ela desceu com aquela mala amarela, eu entendi que tinha virado parte disso."

Henrique não disse nada.

"Eu não quero continuar sendo."

A ligação terminou pouco depois.

Henrique voltou para casa.

Quando entrou na mansão, encontrou Gabriel sentado na sala.

Vitória estava no andar de cima com Dona Lúcia.

Gabriel se levantou.

"Pai."

Henrique não respondeu.

Estendeu a mão.

"O celular."

Gabriel entregou.

Henrique abriu o arquivo.

A gravação tinha quase onze minutos.

O trecho enviado era apenas uma parte.

"Tem mais."

"Tem."

Henrique sentou.

"Vou ouvir."

Gabriel ficou de pé.

"Eu também."

O áudio começou com ruídos.

Passos.

Uma porta.

Depois a voz de Eduardo.

"Você não está entendendo o tamanho do problema."

Patrícia respondeu:

"Eu entendo perfeitamente."

"Não parece."

"Henrique não vai mudar o testamento."

"Então você precisa fazê-lo mudar de ideia."

"Eu já tentei."

"Não tentou o suficiente."

Gabriel baixou os olhos.

Henrique não se mexeu.

Eduardo continuou:

"Você criou um filho para ser herdeiro."

"Agora quer aceitar que metade seja entregue a uma menina que apareceu na vida de vocês?"

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Patrícia respondeu:

"Ela não apareceu."

"Você sabe muito bem como ela entrou."

O coração de Henrique acelerou.

Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois veio a frase:

"Enquanto aquela menina estiver nessa família, metade do futuro do Gabriel pertence a uma estranha."

Gabriel respirou fundo.

Henrique continuou ouvindo.

Patrícia respondeu:

"Eu não posso simplesmente mandar Vitória embora."

"Ninguém disse isso."

"Henrique jamais aceitaria."

"Então faça ele enxergar."

"Enxergar o quê?"

"Que a família dele funciona sem ela."

Henrique apertou o maxilar.

Patrícia permaneceu em silêncio.

Eduardo continuou:

"Comece pelos eventos dos Montenegro."

"Depois pelas viagens."

"Pelas fotos."

"Pelo convívio."

"Gabriel precisa ocupar o lugar dele."

Foi então que Patrícia respondeu:

"Então eu vou fazer Henrique perceber que ela nunca foi uma de nós."

Henrique pausou.

A sala ficou muda.

Gabriel estava pálido.

"Pai..."

Henrique levantou a mão.

"Ainda não."

Ele voltou a tocar.

A gravação seguiu.

Eduardo falava de ações.

Empresas.

Imóveis.

Participações.

Valores tão altos que poderiam sustentar gerações.

Depois ouviu algo pior.

"Gabriel precisa entender o que está perdendo."

Patrícia respondeu:

"Eu não quero envolver meu filho."

"Ele tem dezenove anos."

"Já é hora de saber."

"Não."

"Você não vai conseguir fazer isso sozinha."

Henrique pausou novamente.

Olhou para Gabriel.

"Ela falou com você depois disso?"

Gabriel hesitou.

"Falou."

"Quando?"

"Algumas semanas depois."

Henrique ficou imóvel.

"O que ela disse?"

Gabriel sentou.

"Que precisava conversar comigo sobre meu futuro."

Henrique sentiu a raiva voltar.

"O que ela falou?"

"Que você tinha dividido tudo."

"Entre mim e Vitória."

"Como se isso fosse novidade."

Gabriel deu uma risada amarga.

"Eu sempre soube que ela era sua filha."

"Mas minha mãe começou a colocar números na minha frente."

Henrique franziu a testa.

"Que números?"

"Quanto valia sua participação no grupo."

"Quanto valiam os imóveis."

"Quanto eu receberia sozinho."

"E quanto receberia se dividisse."

Henrique ficou em silêncio.

"Ela disse que Vitória podia levar centenas de milhões."

"Talvez mais."

"Dependendo de quanto o grupo crescesse."

Gabriel apertou as mãos.

"Ela falou como se minha irmã estivesse roubando alguma coisa de mim."

Henrique sentiu nojo.

"E você acreditou?"

Gabriel demorou.

"Por alguns minutos."

A resposta foi sincera.

"Depois eu fiquei com vergonha."

Henrique não disse nada.

Gabriel continuou.

"Ela dizia que eu tinha que pensar nos meus filhos."

"Nos meus netos."

"Num monte de gente que nem existe."

"E Vitória existe."

A frase ficou no ar.

Henrique olhou para o filho.

Nesse instante, ouviram a porta principal.

Patrícia entrou.

Ela carregava a bolsa no ombro.

Parou ao ver os dois.

"O que você está fazendo aqui?", Henrique perguntou.

Patrícia endureceu.

"Também é minha casa."

Gabriel levantou.

"Mãe."

Ela olhou para o celular sobre a mesa.

Seu rosto mudou.

"Que celular é esse?"

Gabriel respondeu:

"O meu."

Patrícia percebeu.

"Você mostrou?"

Ele não respondeu.

"Gabriel."

"Mostrei."

Ela empalideceu.

"Você gravou aquela conversa?"

"Foi sem querer."

Patrícia avançou.

"Você não tinha o direito."

Gabriel riu.

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"Direito?"

"Era uma conversa privada."

"Falando da minha irmã como se ela fosse um prejuízo financeiro."

"Você não entende."

"Então explica."

Patrícia respirou fundo.

"Eu estava tentando proteger você."

Gabriel balançou a cabeça.

"De quê?"

"Do futuro."

"De perder o que é seu."

"Não é meu."

Ela ficou imóvel.

"Como é?"

Gabriel apontou para o andar de cima.

"Se meu pai quer dividir o patrimônio entre os dois filhos dele, a parte da Vitória é dela."

Patrícia perdeu a paciência.

"Você não entende quanto dinheiro estamos falando."

"Eu sei."

"Não sabe."

"Eu sei o suficiente."

Ela se aproximou.

"Você pode perder centenas de milhões de reais."

Gabriel sustentou o olhar.

"Então eu perco."

Patrícia abriu os olhos.

"Não fala bobagem."

"Não é bobagem."

"Você tem dezenove anos."

"Não faz ideia do que esse patrimônio significa."

"Significa mais do que minha irmã?"

Patrícia ficou em silêncio.

Gabriel repetiu:

"Significa?"

"Não distorce."

"Eu estou fazendo uma pergunta."

Ela apertou os lábios.

Gabriel olhou para a mãe por alguns segundos.

Depois falou:

"Eu prefiro perder dinheiro do que perder minha irmã."

Patrícia ficou completamente imóvel.

A frase pareceu atingi-la fisicamente.

"Você está escolhendo ela?"

"Não."

Gabriel respirou fundo.

"Eu estou escolhendo não ser igual a vocês."

Patrícia deu um tapa no rosto dele.

O som ecoou na sala.

Henrique se levantou imediatamente.

"Patrícia!"

Gabriel virou o rosto devagar.

Não revidou.

Apenas encarou a mãe.

"Pronto?"

Ela tremia.

"Você está destruindo sua própria vida."

"Não."

Gabriel respondeu baixo.

"Eu quase destruí a dela porque tive medo de você."

Patrícia começou a chorar de raiva.

"Eu fiz tudo por você."

"Então para."

A voz dele também falhou.

"Se você algum dia fez alguma coisa por mim, para agora."

Silêncio.

Foi quando uma voz surgiu perto da escada.

"Era por dinheiro?"

Todos viraram.

Vitória estava parada no corredor.

Dona Lúcia estava alguns passos atrás.

Henrique perdeu a cor.

"Filha..."

Vitória olhava para o celular.

"Eu ouvi."

Henrique se aproximou.

"Você não precisava..."

"Era por dinheiro?"

Patrícia desviou o rosto.

Vitória desceu um degrau.

"Eu não tinha passagem porque eu vou ficar com o dinheiro do Gabriel?"

"Não é assim", Patrícia disse.

"Então como é?"

Patrícia não respondeu.

Vitória olhou para Henrique.

Depois para Gabriel.

"Vocês iam viajar sem mim para o pai perceber que a família era vocês três?"

Henrique sentiu o peito apertar.

"Eu não sabia."

Vitória assentiu.

"Eu sei."

Sua voz estava estranhamente calma.

Ela olhou para Patrícia.

"Então a viagem nunca foi por causa das minhas notas."

Patrícia fechou os olhos.

"Vitória..."

"Nem porque eu era pequena."

Silêncio.

"Nem porque eu podia ficar cansada."

Nenhuma resposta.

A menina olhou para a mulher que chamara de mãe durante doze anos.

"Você queria que eu aprendesse a ficar de fora."

Patrícia começou a chorar.

"Eu estava confusa."

"Por dois anos?"

A pergunta foi simples.

Patrícia não conseguiu responder.

Vitória respirou fundo.

"Eu achei que tinha feito alguma coisa errada."

Henrique se aproximou.

"Você não fez."

"Eu sei agora."

Ela olhou novamente para Patrícia.

"E isso é pior."

Patrícia deu um passo.

"Vitória, deixa eu explicar."

A menina recuou.

"Não."

Foi a mesma reação que tivera com Henrique perto da escola.

Só que dessa vez havia algo diferente.

Não era medo.

Era compreensão.

Vitória olhou para as três passagens ainda guardadas sobre a mesa lateral.

Henrique não tivera coragem de jogá-las fora.

Ela se aproximou.

Pegou a própria inexistência entre os dedos.

Três nomes.

Nenhum dela.

Depois colocou as folhas de volta.

"Você não esqueceu minha passagem."

Patrícia começou a chorar mais forte.

Vitória ergueu os olhos.

"Você planejou que ela nunca existisse."

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