Henrique não conseguiu responder imediatamente.
A frase de Aline parecia impossível.
"Foi Patrícia quem apareceu na minha porta quando eu ainda estava grávida."
Rafael também ficou imóvel.
Henrique puxou a cadeira mais próxima.
"Você está dizendo que minha esposa conheceu você antes da Vitória nascer?"
Aline assentiu.
"Conheceu."
"Por quê?"
Ela olhou para as próprias mãos.
"Porque eu trabalhava para o pai dela."
Henrique se inclinou.
"Na Montenegro Serviços Logísticos?"
"Sim."
Aline respirou fundo.
"Eu entrei lá com vinte e dois anos."
"Comecei no administrativo."
"Depois fui para o setor financeiro."
Rafael perguntou:
"E o que aconteceu?"
Aline ficou em silêncio por alguns segundos.
"Eu encontrei coisas que não devia."
Henrique franziu a testa.
"Que coisas?"
"Pagamentos."
"Notas fiscais."
"Contratos com empresas que não entregavam nada."
Rafael ficou atento.
"Empresas de fachada?"
Aline deu de ombros.
"Na época eu nem sabia chamar assim."
"Eu só sabia que os valores eram enormes e que alguns documentos não batiam."
Henrique sentiu o corpo ficar tenso.
"E você falou com alguém?"
"Com meu supervisor."
Aline soltou uma risada amarga.
"Foi meu primeiro erro."
"Qual foi o segundo?"
"Guardar cópia."
O silêncio se instalou.
Aline levantou e foi até uma gaveta.
Tirou um envelope antigo.
Não entregou.
Apenas segurou.
"Eu estava grávida de cinco meses."
"Morava sozinha."
"O pai da Vitória já tinha desaparecido."
Henrique abaixou os olhos.
Aline continuou.
"Uma semana depois que eu questionei os documentos, me chamaram numa sala."
"Eduardo Montenegro estava lá."
Henrique sentiu um frio subir pela nuca.
"O que ele disse?"
"Que meu desempenho tinha caído."
"Que eu estava causando problemas."
"Que a empresa precisava de gente confiável."
Rafael perguntou:
"Você foi demitida?"
"Sem justa causa."
"Mas me fizeram assinar um monte de papel."
Aline apertou o envelope.
"Eu saí dali achando que tinha perdido só o emprego."
Henrique percebeu o peso da frase.
"Não tinha?"
Aline olhou para ele.
"Na semana seguinte, recebi uma notificação do apartamento."
"O aluguel estava atrasado."
"Meu plano de saúde foi cancelado."
"Eu estava grávida, desempregada e sem família perto."
Henrique sentiu o peito apertar.
"Foi quando Patrícia apareceu?"
"Não imediatamente."
Aline ficou pensativa.
"Primeiro apareceu um advogado."
"Depois um homem que dizia trabalhar com relações trabalhistas."
"Depois minha antiga chefe."
"E só então Patrícia."
Henrique levantou o rosto.
"Ela foi sozinha?"
"Foi."
"Como ela sabia onde você morava?"
Aline riu sem humor.
"Essa é uma ótima pergunta."
Henrique não gostou da resposta.
"O que ela queria?"
"Conversar."
"Sobre o quê?"
"Sobre meu futuro."
Aline olhou pela janela.
"Ela entrou na minha casa com uma sacola de mercado."
"Leite."
"Fruta."
"Remédio."
"Parecia uma pessoa boa."
Henrique ficou em silêncio.
Aline continuou.
"Ela sentou onde você está sentado agora."
"E disse que sabia que eu estava passando dificuldade."
"Perguntou do bebê."
Henrique sentiu a garganta fechar.
"Da Vitória."
"Na época ela ainda não tinha nome."
Aline respirou fundo.
"Eu só chamava de minha menina."
Henrique passou a mão pelo rosto.
"Patrícia sabia que era uma menina?"
"Sabia."
"Sabia de quantos meses você estava."
"Sabia onde eu trabalhava."
"Sabia que eu tinha sido demitida."
"E sabia que eu tinha feito cópias."
Rafael se inclinou imediatamente.
"Ela falou das cópias?"
"Não naquele dia."
Aline apertou o envelope.
"Mas depois, sim."
Henrique ficou tenso.
"O que aconteceu depois?"
"Ela começou a aparecer."
"Uma vez por semana."
"Às vezes duas."
"Levava comida."
"Perguntava se eu precisava de médico."
"Me ajudou a conseguir consulta."
Henrique sentiu uma confusão dolorosa.
"Então ela te ajudou."
"Sim."
Aline olhou para ele.
"Mas hoje eu sei que ajuda e controle podem parecer a mesma coisa quando você está desesperada."
Henrique não respondeu.
"Eu comecei a confiar nela."
"Patrícia dizia que o pai dela era um homem duro."
"Que ela não concordava com tudo."
"Que sentia vergonha do que tinham feito comigo."
Rafael perguntou:
"Ela chegou a admitir que Eduardo estava por trás da demissão?"
"Não diretamente."
"Mas falava como quem sabia."
Aline fez uma pausa.
"Quando Vitória nasceu, Patrícia foi ao hospital."
Henrique sentiu o coração bater mais forte.
"Ela conheceu minha filha antes de mim?"
Aline fechou os olhos.
"Sim."
Henrique abaixou a cabeça.
A informação doeu de um jeito difícil de explicar.
Ele tinha vivido doze anos acreditando que aquele encontro entre ele e Vitória havia sido obra de uma sequência imprevisível de acontecimentos.
Agora descobria que sua esposa já segurara aquela criança nos braços muito antes de ele sequer saber que ela existia.
"Ela pegou Vitória no colo?"
Aline assentiu.
"Chorou."
Henrique levantou os olhos.
"Chorou?"
"Chorou muito."
Aline apertou os lábios.
"Por isso eu acreditei nela."
Henrique sentiu a raiva perder espaço por um instante.
"Então ela se importava."
"Talvez."
Aline respondeu com amargura.
"Ou talvez estivesse culpada."
Rafael perguntou:
"O que aconteceu com a senhora depois do parto?"
Aline ficou em silêncio.
"Eu tentei trabalhar."
"Não consegui."
"Vitória nasceu com algumas complicações respiratórias."
"Nada grave depois, mas nos primeiros meses exigia consulta."
"Eu estava sem dinheiro."
"Sem apoio."
Henrique fechou os olhos.
Aline continuou.
"Patrícia começou a falar sobre adoção."
Henrique abriu os olhos imediatamente.
"Ela sugeriu?"
"Sim."
"Diretamente?"
"No começo não."
Aline respirou fundo.
"Falava que algumas famílias podiam dar à minha filha tudo que eu não conseguia."
"Que amor também era saber abrir mão."
"Depois começou a falar de uma família específica."
Henrique ficou imóvel.
"Minha família."
Aline assentiu.
"Você."
Ele perdeu a cor.
"Você sabia meu nome?"
"Não no começo."
"Depois ela me contou."
"Disse que você era um homem bom."
"Que já tinha um filho."
"Que queria muito aumentar a família."
Henrique passou a mão pela boca.
"Ela já tinha decidido."
Aline não respondeu.
Ele repetiu, mais baixo:
"Ela já tinha decidido antes de falar comigo."
Rafael olhou para Henrique.
Ninguém negou.
"Eu nunca quis entregar minha filha."
Aline falou com firmeza.
"Quero que isso fique claro."
Henrique assentiu.
"Eu sei."
"Não, você não sabe."
Ela começou a chorar.
"Eu fiquei noites segurando Vitória no peito dizendo que ia conseguir."
"Que arrumaria outro emprego."
"Que daria um jeito."
"Mas toda porta fechava."
"Eu não conseguia vaga."
"As empresas desistiam depois de checar minhas referências."
Rafael franziu a testa.
"Você acha que foi proposital?"
Aline olhou para ele.
"Hoje?"
"Tenho certeza."
Henrique sentiu a mandíbula endurecer.
"Eduardo."
"Sim."
Aline limpou o rosto.
"Ele queria que eu ficasse sem saída."
Henrique se levantou.
"Por quê?"
"Por causa dos documentos."
Aline finalmente colocou o envelope sobre a mesa.
"Eu tinha provas de irregularidades."
"Ele tinha medo de um processo trabalhista virar investigação."
Rafael pegou o envelope com cuidado.
"Você fez acordo?"
Aline assentiu.
"Não oficialmente."
Henrique sentiu um arrepio.
"Como assim?"
"Quando comecei a falar que procuraria a Justiça, Patrícia apareceu de novo."
"Dessa vez sem sacola."
"Sem sorriso."
Aline respirou fundo.
"Ela disse que podia garantir que minha filha teria uma vida que eu jamais conseguiria dar."
"E em troca?"
Aline olhou diretamente para Henrique.
"Eu deixaria o passado morrer."
O silêncio foi absoluto.
Henrique sentiu raiva.
Nojo.
Culpa.
Tudo ao mesmo tempo.
"Você entregou Vitória para esconder um escândalo?"
Aline se levantou abruptamente.
"Não!"
A voz dela tremeu.
"Eu entreguei minha filha porque passei meses sendo esmagada até acreditar que era a única chance dela."
Henrique ficou calado.
Aline chorava.
"Eu não ganhei dinheiro."
"Não fiquei rica."
"Não viajei."
"Não comprei casa."
"Eu fiquei aqui."
"Vivendo todos os dias com a pergunta de como ela estaria."
Henrique abaixou a cabeça.
"Desculpa."
Aline respirou fundo.
"Patrícia prometeu que seria mãe dela."
"Prometeu que Vitória nunca saberia o que era passar fome."
"Prometeu que seria amada igual ao filho dela."
Henrique sentiu o peito apertar.
"E eu acreditei."
Aline enxugou as lágrimas.
"Porque na época, quando ela segurava Vitória, parecia verdade."
Rafael abriu o envelope.
Havia cópias antigas de documentos financeiros.
E uma declaração assinada.
Henrique reconheceu um nome imediatamente.
Eduardo Montenegro.
"O que é isso?"
"Parte do acordo."
Aline respondeu.
"Eu não usaria os documentos contra o grupo."
"E Patrícia?"
"Ela seria responsável por garantir que Vitória entrasse legalmente numa família segura."
Henrique ficou imóvel.
"Na minha família."
"Sim."
Henrique se sentou novamente.
Tudo que vivera estava mudando de significado.
O primeiro encontro.
A ansiedade de Patrícia.
A rapidez com que ela parecera aceitar Vitória.
As lágrimas.
As promessas.
Nada tinha sido casual.
"Ela nunca me contou."
Henrique falou quase para si mesmo.
"Nada."
Aline o observou.
"Você não sabia mesmo?"
"Não."
"Patrícia me disse que você sabia de parte."
Henrique levantou a cabeça.
"Ela mentiu."
Aline soltou o ar.
"Então mentiu para nós dois."
Rafael fechou a pasta.
"Mas tem uma coisa que ainda não explica."
Henrique já sabia.
"Por que ela mudou."
Rafael assentiu.
Henrique olhou para Aline.
"Se Patrícia fez tudo isso há doze anos, se ela insistiu para Vitória entrar na nossa família..."
"Por que agora quer expulsá-la?"
Aline ficou em silêncio.
Henrique se inclinou.
"Você sabe."
Ela desviou o olhar.
"Aline."
"Eu não sei tudo."
"Mas sabe alguma coisa."
Ela caminhou até a janela.
"Dois anos atrás, Patrícia veio me procurar."
Henrique congelou.
"Ela voltou aqui?"
"Não aqui."
"Marcamos num café perto da Avenida Paulista."
"Por quê?"
Aline ficou tensa.
"Ela queria saber se eu ainda tinha documentos."
Rafael perguntou:
"E tinha?"
"Alguns."
"Ela estava com medo do passado?"
Aline balançou a cabeça.
"Não parecia."
"Parecia com raiva."
Henrique franziu a testa.
"De quem?"
Aline virou-se.
"De Vitória."
O sangue de Henrique gelou.
"Por quê?"
Aline ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
"Ela disse que tudo tinha mudado depois que você foi ao cartório com Rafael."
Henrique olhou para o advogado.
Rafael pareceu confuso.
"Cartório?"
Aline assentiu.
"E depois perguntou se eu sabia quanto dinheiro uma filha adotiva podia herdar."
Henrique sentiu o coração bater com força.
Aline voltou os olhos para ele.
"Se você quer saber por que Patrícia começou a tirar Vitória da família..."
Ela respirou fundo.
"Pergunte sobre o testamento do pai dela."